Sobre a futilidade e o exercício do ego.

O meu total desacordo com o ambiente em que vivo, onde falo uma língua para comprar pão e outra para ganhá-lo, é a causa desses atos tão contraditórios. Ou talvez a conseqüência. Este sítio é um exemplo da minha dissonância existencial, onde escrevo para ninguém e ainda assim decido gastar alguns milhares da moeda local para mantê-lo - e renova-lo. É como a frígida, feia, que teima em mandar o vestido de noiva para tinturaria todo ano, mesmo sabendo que nunca vai se casar. Ao menos meus textos não vieram de um brechó em liquidação por conta de um despejo. Acho também que a fantasia da coitada, a de um dia, quem sabe viver o que vê em novelas diurnas não pode ser comparado com a minha futilidade, minha vaidade estética. Ainda que eu imagine que talvez alguém me leia neste canto aqui, meu sonho nunca foi ser achado - mas sim, achar-me. Quem sabe algum dia desses uma doce leitora me escreva dizendo que me leu e que sabia o que eu estava falando, ou que me achou másculo, tendo somente essa papagaiada toda que pus para enfeitar as escritas como referência. Quem sabe. Mas essa nunca foi a idéia.

Haja forças, haja estímulo, devo eu aqui continuar a contar umas coisas que há muito me esqueci - ou ao menos o quis. Devo rasbicar coisas na minha cabeça e as digitar sem um backspace sequer, sem titubeio, como quem desabafa o discurso que ensaiou no espelho de um hotel barato. Eu devo acima de tudo, entre o fato e a lenda, publicar a mentira, a sujeira que a faria enrubescer, mas que adorna meu ego. Como este novo desenho.

Minha falta de ambição.

Você já deveria saber da minha falta de ambição. Aliás, me admira muito essa sua frase. Você já deveria saber que eu teimo em esquecer que existem outros, que eu criei um mundo só meu onde eu convido umas pessoas perdidas para me apreciarem. Uma piada interna que só eu acho graça mas que muitos riem. Eu acho que é uma questão de identidade, ás vezes. Acho que eu atraio perdidos pois eu mesmo não sei onde estou. Ou mesmo para onde vou. Eu te disse várias vezes que não queria falar sobre isso, mas você me provocou - então vamos lá. Não quero, não gosto. Obrigado mas não quero me submeter à escolha, à competição. Não é uma questão de orgulho, não mesmo. Não tenho medo de perder. Acho que o que eu temo é ganhar.

Forma e função.

Às vezes temos que dar ouvidos ao surreal. Nunca aos loucos, mas à loucura. Devemos ouvir menos aos nossos medos e mais aos nossos sonhos. Menos ao jornal e mais ao rádio. Menos aos pais e mais aos filhos. Às vezes devemos ouvir mais às criticas e menosprezar os elogios. Fazer o caminho mais longo, aceitar sem perguntar, mudar de idéia. Nem sempre, mas… às vezes, a teoria está errada.

Cabisbaixo.

Eu ando meio cabisbaixo. Não tenho muito estímulo para sorrir. Eu acho tudo chato, acho todos os pares de mãos mesquinhos e todas as almas corruptas. Vejo as coisas sob um ângulo sinistro, sobretudo às quintas-feiras quando percebo que mais uma semana está a acabar e com ela a tola expectativa de algo mudar. Não vejo mais graça em crianças, visto que não existe mais inocência, nem catarse. Não me animo em conquistas, sei o jogo, se o que vou conseguir, e sei como vão reagir a cada passo que já dei tantas vezes. Nem mesmo os pratos que aprendi a cozinhar ao Mar Mediterrâneo me fazem salivar. Mas as vezes, antes de dormir, o peito ressoa o coração palpitante, e me lembro de como eu quis ser feliz contigo.

Desculpas.

E eis que o dia chegou. Ela olhou para baixo, para o chão. Duas gotas do café quente no seu sapato estilo boneca, de couro endurecido, marrom. Ela prefereria a queimadura no peito do pé ao dano ao seu par de calçados favorito. Mas foi ao olhar para baixo, que ela percebeu tudo. Em um impeto quase que instintivo, ao ser esbarrada por mim, na cafeteria da biblioteca, ela se perguntou onde estava. Ela ensaiou olhar para mim, em um acesso de raiva, mas as gotas de café pulando a fizeram checar sua roupa. E olhando para o chão, em frações de um segundo, ela soube que era hora de agir, ou de desistir. Ela não é mais criança. Não há mais chances, ela não vai ‘crescer’ mais. O seu emprego temporário a mantem há 6 anos, e sua procura por um namorado anda, no mínimo, pouco eficiente - suas amigas já estão pensando em desquite. As gotas do café, escorregando pelo couro e tocando o chão sujo de concreto estão sincronizadas com uma única lágrima gorda que lhe escorrega pela face. Não vai haver outra chance - ela pensa - isso não é um rascunho. Essa é a minha vida. Nessa altura eu já estava no elevador, depois de pedir desculpas em vão.

De pequenino.

Sempre me parece nova, ainda que eu a tenha na minha cabeça pelos últimos 15 anos. Sempre fresca. Sempre interessante. Sempre me faz sorrir, querer cantar. Sempre. Sei o quanto isso é raro, sei o quanto vale. Eu a reservo, para os momentos de alta alegria, ou de raso humor, melancolia. Uso e abuso de mim e da minha inteligencia - ou melhor, da minha paciência - até o ponto em que acho que não mais aguentaria pensar nela. Mas esse ponto nunca chega, e assim eu sigo percebendo coisas novas na mesmíssima forma que me acompanha a tanto tempo. Nuances, detalhes, tons. De pequenino eu aprendi a notar o que passa desapercebido por muitos, e admito, sem modéstia, ser bom nisso. Eis que chega a hora em que eu a trago de volta a minha consciência e percebo - tem sido um sonho.

A quarta estação.

Os banhos ficam mais longos, com a água quente sendo o meu último conforto. As tardes passam mais rápido, mas as noites são intermináveis. Não tenho andado com muita fome, nem com muito ânimo para sair, mas pedalar pelas ruas geladas com o fone de ouvido ainda me seduz. E o faço, as vezes pela madrugada. Como ouço as mesmas músicas, o tempo parece passar mais rápido. Mas a verdade é que quando chegou na garagem e olho ao meu pulso noto que não gastei mais que três quartos de hora, em alta performance, correndo pelas mesmas vias que de dia vejo engarrafadas. Houve a época em que meu calendário era marcado por uma ligação que eu fazia ou recebia quase que diariamente. Agora eu o marco pelos meus longos banhos diários, que me servem com um confessionário, um melhor amigo e um retiro dos meus proprios erros.

Uma coca-cola e dois canudos.

Ela não sabia nem mais o que queria. Não sabia mais o que era bom. Ela sabia que não mais queria se sentir tão só. Ela sabia que não mais queria ficar a sós consigo mesma - estava enlouquecendo. Estava de pé, em um balcão na esquina de uma rua movimentadíssima de Ipanema, rascunhando em um papel o que escreveria. Vinte palavras. Só vinte. Pensou por um momento em desistir, mas logo mudou de ideia, sem jeito por já ter chegado até ali, por já ter incomodado a moça dos classificados. Não sabia se mentia, se omitia, se maquiava. Não sabia se queria sexo, se queria amor. Ela não conseguia entender como alguém que chegou onde ela chegou, profissionalmente, que viajou o mundo todo, enfim, que já teve as experiências que ela teve, não conseguia nem ao menos segurar a caneta direito. O pavor que estava sentindo em se descrever ali, em vinte palavras, era insustentável. E para um homem qualquer, que pode não ter higiene, que pode não ter caráter. Quem vai julga-la é simplesmente alguém que pode comprar um jornal. Mas ela não estava com o medo de ser julgada, se ela chegasse a ser julgada já seria um avanço. Ela deixa a caneta cair, e lacrimeja pedindo desculpas a todos que a aguardavam. Não consegue mesmo, não adianta. Ela não consegue em vinte palavras escrever quem é e que tipo de pessoa quer encontrar.

Até dói.

Sempre que me sentia mal, eu olhava o álbum de fotos que ele fez, e que publicou num desses sítios da web. À festa em que a maioria das fotos foi tirada, uma década atrás, estávamos todos. Todos os amigos, os amantes, as paixões perdidas e as que agora começam a aflorar. Todos lindos, jovens e felizes. Sempre que eu me pegava chorando eu acessava o tal álbum de fotos. Em uma delas, que me mostra de lado, fazendo pose, com um dos anfitriões, tem como legenda “LINDA!!!” - assim mesmo, em caixa alta, com três exclamações berrantes. Sempre me fez rir, pois era ele mesmo quem assinava cada legenda. E como éramos muitos, são muitos também os comentários. Ganhava horas e horas os lendo. Vários destes sao dele mesmo, que adicionava informações, elogios e mimos às legendas e aos outros comentários, as vezes não muito simpáticos, como alguns que fiz sem pensar, depois de beber para me fazer de boba nos bares da capital. Eu sempre soube do meu comportamento agressivo mas só agora sinto os resultados dele. Eu as vezes ficava notando o quão exageradamente atencioso ele era. O quão elegante, mesmo com uma fama contrária. O quanto ele deixava todos nós excitados, felizes. Até que um dia, de tanto olhar as mesmas notas, eu percebi uma coisa que não tinha percebido.

A data.

A data de um comentário específico era de 3 anos atrás. Assinada por ele, e sem dúvida escrita por ele. Ele não tinha a necessidade de se mostrar macho, e as vezes se permitia não ser tão cool. Nunca houve alguém tão cool quanto ele, e por isso mesmo ele sempre parecia o mais interessante de todos, até quando não queria parecer. Ele escreveu, embaixo da tal foto minha, depois de meia dúzia de outros comentários: Linda mesmo, até dói. Ele não estava mais vivo há 3 anos atrás. Mas ninguém além dele escreveria isso.

Sobre o que eu não soube dizer.

A surpresa vem como de forma perversa, disfaçada de obviedade, de repetição. Seria apenas mais uma, mais um ✔ no caderno, mais um roteiro para as horas de solidão. Mas mostrou-se algo mais, mostrou-se completa, cheia de imperfeições e de actos intempestivos. Chegou como um tropeção, e mal olhou para trás. Chegou me falando de coisas que eu queria ouvir, e reclamando de tudo que me aborrece, mas que a minha fantasia adolescente não me deixava perceber.