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E a verdade vem a tona, como o Nautilus de Verne. Não sou esse mito que eu mesmo ajudei a construir. Talvez esse mito só exista quando eu fecho os olhos ouvindo no iPod as músicas que eu gostaria que fossem minhas, vá saber. Mas o fato é que sou uma pessoa humilde, em todos os aspectos possíveis. Não quero luxo, não ligo. Pareço um cara exigente, mas na verdade eu gosto das coisas simples. Os queijos que eu consumo, que te encheram os olhos no outro dia, são iguarias menores, compradas com moedas, diretamente de um criador de cabras sem plano dentário. Minha vida me permite beber litros de suco de laranja, e isso parece criar uma esfera de extravagância em minha volta digna da casa do Michael Jackson. Compro tudo em quantidade justamente porque sou simples, mudo pouco, tenho hábitos. Valorizo meus amigos, ligo para minha mãe no fim da tarde e pergunto sobre a vida. Eu cumprimento todos no meu prédio, mesmo sem respostas adequadas, pois isso é o que eu quero para mim, uma vida simples e feliz. E isso me satisfaz. As vezes pareço um tolo, bebendo champanha como água. Gosto das bolhinhas. Eu finjo ser um cara deprimido e rio de mim mesmo a noite. É uma maneira agressiva de ser humilde, que, creia, sou. Eu mascaro, muitas vezes minha timidez com arrogância. É esquizofrênico, eu sei. Mas se você pensar bem, ser elogiado por todo mundo que respeito e ainda assim não acreditar, ou admitir, que eu tenha algum valor é, de fato, muita esquizofrenia. Este é o centésimo exemplo, nesta fase nova, de que não falo coisa com coisa. Nunca disse uma só verdade aqui, mas também nunca menti. Vejo beleza em axiomas que não acredito. Escrevo um texto choroso sobre um amor perdido pensando em Rosbife. Escrevo chorando de verdade sobre falcatruas, esquemas, e fraudes. Rio, enlouqueço e bebo – desisto de tudo e volto para cá. Para alimentar esse mito, que talvez só exista quando eu lembro de nós dois juntos.