Sinapse.

Com cuidado corto com um pequeno alicate o elástico do meu porta-moedas, para que consiga esconder a tal foto. Não tem nada demais, eu sei, mas não quero que policiais a encontrem, e percam o respeito comigo na entrada de um novo país. Também não quero perder a foto. Dobro as meias que tu me destes e um isqueiro, que deixaste na mesa do bar na noite que eu te conheci, cuja devolução nunca acontecida usei tantas vezes como desculpa para te ver. Foram nove meses de pura alegria, e pura hipocrisia. Tal qual o ciclo reprodutivo, nossa paixão começou e acabou. Talvez a natureza tenha um plano, mas ainda não descobri qual é. Talvez eu conisga descobrir o que me faz acordar todo dia olhando para esta foto e não mais para os teus olhos. São três horas da tarde, um sol tão quente de verão que me impede de sair na rua. Olho pela janela do apartamento em que acordei pensando em ti e vejo um bairro sossegado mas muito vivo. A televisão do vizinho está ligada e com o volume tão alto que pelas frases que ouço reconheço o filme – e me lembro de quem gosta tanto dele. Penso em quanto tempo tenho de chamar o taxi para chegar ao aeroporto com segurança, sem risco de atrasos. Acho que ainda tenho uma hora. Acho que vou te escrever, nesta hora. Deveria falar do tal plano da natureza, decidir contigo o porquê de tudo ser tão difícil, descobrir qual verdade acreditar. Eu ligo o som e uma música com ritmo de trem não me deixa pensar no que dizer para consolar a tua rejeição. Não me diz o que tenho que repetir para que tu percebas o quanto os outros são desnecessários, irrelevantes. Cada um que te rejeita não vale a busca da razão da rejeição – nem que por alguns segundos, dentro da própria cabeça. Cada um que te rejeitou não vale o teu respeito, e eu muito menos.