Archive for June, 2006

Quando os sapos aprenderam a voar.

Sapos olham um outro sapo. Um sapo meio esquisito, que passa mais tempo embaixo d’agua e dá saltos bem altos. Uma espécie estranhamente atraente, pois não tem a mesma pele que os outros, nem o formato exato de corpo que os outros costumam ter. Um sapo que seduz os outros sapos e rãs - bom, a maioria deles - para fazer o que bem entende. Esse sapo percebe que é diferente, desde cedo. Ele sofreu um pouco com isso mas a desde que a sua pele endurecera ele parece ter aprendido a gostar de ser ímpar - ou ao menos aproveitar suas diferenças a seu favor. Ele nota que os outros prestam muita atenção nele, mais do que deviam. E não entendi ainda se por sarcasmo - há quem curta um sarcasmo - ou se por pura vaidade, ele resolveu fazer dele mesmo um embuste. Resolveu que bancaria o jogo da diferença, que daria aos sapos o que eles querem. O sapo diz que pode voar. O sapo diz que é outra coisa. Não é sapo. “Vocês não veêm? Minha pele não é como a de vocês, eu não fico no brejo, estou sempre nadando. Sapo uma pinóia - não me ofenda!” O sapo diz que não tem hipotálamo, que é invencível e cruel, e que não tem qualquer clemência por rãs perdidamente apaixonadas (algumas só querem girinar incessantemente com ele). Até agora alguns tentaram voar - muitos com êxito. Outros acreditam estar diante de um ser sem sentimentos, vil e pedante, quando se aproximam dele. Alguns decidiram que girinar sem envolvimentos é a melhor forma de viver. Mas ninguém conseguiu parar de prestar atenção nele. E nem de leva-lo tão a sério. Ele é um sapo, acredite.

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Cartas de amor não existem se não forem escritas para a segunda pessoa, e esta é para ti.

Faze um favor. É a última coisa que eu vou te pedir, e para o resto da vida. Fala. Fala comigo. Gasta uma tarde do teu precioso tempo e me liga. Marcaremos naquele café novo, ou na livraria. Fala, desembucha. Cospe. Xinga. Grita, chora. Sério. Mas pela última vez. Mata, se for o caso. Eu preciso tirar isso tudo de dentro de mim. Não há ciência, crença ou teoria que me convença que eu preciso dessa dor no peito - mas o teu desprezo me canta que mereço. Não mereço. Cai o escudo, cai a educação. Dize o que sempre te machucou. Dize o que sempre te tirou o sono. Abre o teu medo. Não posso passar mais um dia achando que eu fui a culpa de tudo. Não há mais qualquer razão para fazeres de mim o algoz. Já cumpro a pena e qualquer que seja a verdade, não vou ser absolvido. Mas eu preciso de clemência, de um anestésico. Para de me fazer me odiar por ter te perdido. O meu tolo sonho já deixou há muito de ser possível - somente posso almejar uma migalha de paz, ainda que seja pequena e dolorosa. Faze, peço-te. Só preciso de uma coisa. Cospe.

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O som da desaceleração do teu gargalhar.

Funciona assim. Os teus referenciais são tão altos, e tu és tão dedicada, que perdes a capacidade de me comover por pouco, de me fazer rir. Não tem um explicação simples. Eu vejo no fundo dos teus olhos que a criança está lá, ela quer amor, ela quer cócegas. Mas a tua falta de talento para a mesmice não te deixa deixa-la deixar essa prisão que é o teu corpo. Eu á estive preso nele, e digo-te, quisera eu ser um criminoso de novo. O problema é que o crime, como os teus referênciais, chegou á um nível inimaginável.

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Sobre a minha visita à Polônia de 1989. Parte 2

Não preciso descrever o coito. Mesmo que eu ainda tivesse algum orgulho dos meus moves, das minhas rotinas sexuais, da minha violênica sensual… ainda assim eu não precisaria descreve-las. Qualquer pornógrafo tem a coleção russa em dvd que me mostra em ação, qualquer putinha já me viu na tevê a cabo. Não é novidade para ninguém… mas foi para a ninfeta polonesa. E para mim também, surpreendi-me de como eu gostei de estar com ela. Sexo na saleta, sexo na cama, sexo na banheira, vinho com gás e sexo na cama de novo. Depois da quarta vez ela me fala baixinho no ouvido que está culpada. Eu pensei em desenvolver um discurso sobre moralidade quando ela se afasta e diz que foi mandada até ali para me matar. Eu ri.

Por mais charmosa e excitante que ela fosse, não conseguia me meter medo. Qualquer movimento brusco, qualquer faca, pistola ou mesmo venero seria inútil contra mim. Eu acabo com a vida dela a hora que eu quiser, entenda. Quebro-lhe os braços antes da mira me ver. Então eu ri. Parei, vi que ela estava falando sério e ri de novo. Ela me disse que a idéia era manter-me no apartamento por 24 horas, só isso. Parei. Pensei. Eu sabia o que isso significava. “Você quer morrer garota?” - disse. Ela lacrimejou.

Estávamos no crime havia 6 horas… tinhamos que sair dali logo - o andar iria explodir. Convenci Anna a vir comigo, ela morreria de qualquer forma se saísse do prédio. Não podia usar a comunicação do hotel, obviamente comprometida, e tinha certeza que não havia qualquer torre de celular numa cidade imersa em 1989. Olhei para a ninfeta, que recolhia roupas no chão e pensei por um momento que enquanto ela nascia para a vida, para o amor, e para o crime, em algums países de distancia alguem ouvia Fine Time pela primeira vez. You’re much too young… acho que já disse isso antes.

Viajei sem armas, claro, não sou hipócrita - mas fui tolo. Desde que deixei Frances que sei que as minhas chances de ser assassinado duplicaram. Desde que consegui incluir a Bulgaria na União Européia, elas triplicaram. Até mesmo tive que forjar minha morte para fugir dos Sérvios - e até o incidente na Tunísia eles estavam convencidos que eu havia morrido. Mas eu tinha que sair dali, levar comigo a garota e a idéia surgiu meio que por acaso. Olhei pela sacada e naquele fim de madrugada eu só conseguia ver o sino, estático, morto. Em alguns minutos, quatro sendo exato, o frei subiria a torre para lembrar-nos que era sete horas. Conheço os treinamentos clericais - eu mesmo desenvolvi a masturbação periniana - e sei como ele poderia me ajudar. Era um espelho pequeno no quarto que pedi para Anna segurar contra a janela, apontando para a torre. Era um zippo com a minha PinUp favorita gravada no aço que eu precisei para me comunicar com o eunuco. Esperei o momento, 1 minuto para as sete. Acendi o isqueiro. O espelho duplicou a luz. O frei olhou. Era tudo ou nada.

T-O-Q-U-E-O-S-I-N-O-N-O-R-M-A-L-M-E-N-T-E, disse no código Zulu, um que os padres se apoderaram quando aceitaram a alma dos negros da américa central no século XIX. Isso disse a ele que eu era iniciado e que precisava de ajuda. Não dava para ver se ele havia entendido, não peguei nenhum movimento, mas depois de alguns segundos ele tocou o maldito sino. Pode ter sido a minha cabeça, mas o primeiro toque foi vacilante. Na sétima badalada eu pedi por socorro.

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Sobre a minha visita à Polônia de 1989. Parte 1

Movido por motivos outrora nobres - entre eles a cadeia de protestos não-terroristas terroristas contra a guerra, instalada por um website de quinta categoria - que me exilaram do convívio social por 24 horas, fui a uma cidadezinha que parou no tempo. Senti como se estivesse visitando a Polônia de 1989, um pouco antes da subida de Lech Walesa ao poder, onde havia um misto de tensão e marasmo, de comodismo e de esperança. Cheguei a cidade de trem, ou melhor, de bonde, e fui acomodado em um hotel de nível razoável. Ao menos razoável para a Polônia de 1989.      

Estava no 13° andar, num quarto com uma cozinha modesta e uma banheira de agua quente. Da pequena sacada eu podia ver a torre da igreja que a poucos metros do hotel vazava a luz da lua cheia nos meus olhos. Caí de cansaço numa cama de casal estranhamente curta e apaguei… por alguns minutos, pois, à meia-noite fui acordado pelo retumbante sino que era meu vizinho de janela. Doze badaladas, e um pressentimento leve de que eu não mais conseguiria dormir.

Alguém bateu a minha porta, três vezes. Não encontro nada que não um moleton daqueles velhos, do fim da década de 80, e vesti-me para atender. Era uma polaca, linda, olhos claríssimos e pele alva. Ela me disse que sabia porque eu estava lá e se convidou para entrar. Claro que eu, um cavalheiro, e mais, um bon-vivant, prontamente abri espaço para a sua passagem enquanto eu pegava o que ela trazia na mão. Um saco de broas pequenas, com queijo na massa, e um estranho vinho doce gaseificado alemão - Fantastik.

Ela não me parecia comum, tinha uma inocência mal desenhada, um jeito de quem queria muito, mas sabia pouco. Ela me jogou um catalogo e ascendeu um daqueles cigarros coreanos com essência de laranja. Antes d’eu começar a maldizer a Coréia, minha culpa hedonista me causou preocupação por ter pedido um quarto não-fumante. Mas também, sejamos francos, aquele hotel não estava muito preocupado com o que acontecia nos seus aposentos… digo pela enorme mancha  no carpete.
As unhas pintadas de um vermelho escuro me jogaram um catalogo. Na capa havia uma frase em polonês e embaixo, colado com fita adesiva, um papel escrito “Fuck Local Girls” em rosa choque. Abri o catálogo. Num inglês demente, era dito que o serviço tinha as acompanhantes mais belas do centro-leste europeu. Natashas, Erikas, Pamelas. “Elas têm o mesmo nome, não importa onde se vá” pensei, cínico. Continuei folheando, até que cheguei em Anna - e a minha visita estava nua de pernas abertas na minha mão!
Olhei para ela e ela apagou o cigarro. Se aproximou de mim e me beijou suavemente, devagarinho sabe? Eu me empolguei e a puxei contra mim, pelas cadeiras, e depois pela nuca, e percebi que ela estava nervosa. Era um garota, por todos os céus! Não devia ter nem 18 anos e já estava ali, sendo beijada por um sujeito que nunca havia visto antes, cuja barba estava enorme devido a tempo que tomara chegando a cidade. Eu não sei bem explicar o porquê, mas estava excitado com a coisa, e não havia mais nada a fazer senão comê-la.
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Inversamente sincronizado.

Desde que o universo nasceu, em 1976, o mundo anda inversamente sincronizado. Nas mais pequenas coisas, nos pormenores desapercebidos pela maioria, nas notas de pé de página, nos olhares intimos e cumplices. Quando um menina talentosa e bonita, que atraiu os caras mais bacanas, resolve se apaixonar, ela escolhe um idiota irresponsável. Todas as melhores bocas-livres livres acontecem quando se está de dieta. As melhores orgias quando se casa - apaixonado, veja. As melhores exposições dois meses depois que se sai do país… Everybody Hates Chris estréia quando se cancela a NET, o BarraBrasa abre no Leblon quando se entra para o De Rose, o Blur vem dar show no pior disco, enfim… os exemplos são inúmeros. A ainda assim, ainda sabendo que estou lutando contra o cosmos, eu continuo em busca da felicidade, mesmo agora, que tenho toda a condição do mundo para tê-la.

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O Segredo Produzido em Massa.

A palavra segredo é por definição exclusivista. Segredos e comunicação de massa eram antagônicos. Depois, no pós-guerra, meia dúzia de macacos passaram a passar certas mensagens ’secretas’ à poucos, por meio da comunicação de massa. Era uma masturbação mental, um trote, e um fiasco - pois nada representava, muito menos significava. Outros macacos foram mais longe e resolveram induzir as pessoas à determinados comportamentos por intermédio da mensagem subliminar. Mas logo uns gorilas malvados castraram a idéia com uma cadeia de leis que davam cadeia. Depois as sociedades secretas voltaram a tentar usar a comunicação de massa para nada mais nada menos que demonstrações inúteis de poder - uma vez que só conseguiam receber aqueles que partilhavam desta sabedoria. E finalmente, chegou a vez de um outro grupo de macacos, os bigüínos. Estes conseguem emitir segredos de forma clara e direta, somente para quem eles querem que veja, e sem nenhum medo de represálias ou interpretações errôneas.

Na Inglaterra, onde o verbo e a leitura são tão presentes quanto chinelas coloridas na praia de Ipanema, há classes sociais definidas por lei. As pessoas tem tratamento diferenciado de acordo com o papel que representam na sociedade. Ou o papel que acham ter.

Como aqui.

Mas não temos leis para isso, temos uma coisinha deliciosa e funcional chamada hipocrisia feudal. O tratamento que um sujeito branco, de óculos e camisa de botão num Honda recebe em qualquer situação oficiosa é muito diferente do que um sujeito de cabelos crespos e camisetas promocionais recebe andando à pé. Pois. O Brasil é conhecido por suas diferenças sociais. Vivemos em dois mundos, só dividimos as ruas.. Nós, que acessamos a internet em casa, temos tv a cabo e um terceiro grau merecido ou não, recebemos informações que a maioria do resto do país não recebe. Não que ela seja relevante, isso é uma tolice. Ter assistido a um episódio de Caroline In The City, saber quem é o Diogo Mainardi ou comprar na Amazon não faz ninguém mais interessante. Se fosse assim, minhas noites seriam melhores. Se você se descreve no Orkut não com adjetivos que definem a sua personalidade superficial e provavelmente muito próxima a todo e qualquer outro macaco que lá está, mas com a cultura que você consome, acredite, você não está sendo melhor que ninguém, apenas dizendo aos 12 débeis mentais que também compraram o Codigo da Vinci que você faz parte desta suposta classe social. E que medo nós temos de sermos confundidos com alguém que ouve Calypso não é não?

Pois eu tenho uma coisa para te contar, criatura especial, cheia de conceitos morais, com resposta para tudo, que não dá esmola para não sustentar mães de aluguel ou pais bêbados, que compra um iPod de 3 contos mas que não compra cds originais de 20 reais, tu que fizeste um intercambio uma vez em 99 e agora se sente no direito de pintar os cabelos, de tu que não dás os 10% quando o prato demora, mas que te masturbas pensando no dia que terá dinheiro suficiente para uma calça da Diesel… há um segredo no mundo que desprezas, mas que não vives sem. Há uma conspiração no universo das pessoas que te servem o café, que limpam a tua casa quando tu decides cozinhar imitando o Jamie Oliver - mesmo sem talento. Há uma carta na manga no meio daqueles sujeitos de quem fazes chacota porque assistem o Gugu, e não a maravilhosa Oprah, aqueles tipinhos que pegam o onibus cheirando a perfume barato que remete ao Neutrox 1. É confidencial, e ao mesmo tempo está estampado na tua testa, está aí para quem quer ver… e nem é preciso ter merecido o diploma da UERJ para tal.

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