Archive for July, 2006
Fanta Zia Light.
Chego em casa no começo da noite e preparo um chá. O telefone toca, mas eu não ouço pois pus o ringer no volume baixo para não ser acordado por amantes carentes na madrugada, e o som do microondas esquentando a minha caneca o abafa. Rasgo um pacote de Twinnings de lima e adoço com algumas gotas de Assugrin - não ponho açucar na boca há anos, desde a matéria da BBC. Trago a caneca laranja com a infusão para a sala, quando vejo a bagunça que os meus amigos fizeram na noite anterior. Mexo o mouse e o monitor liga sozinho. Há uma mensagem, diz-me o GoogleDesktop. Não faz muito tempo que o chequei pela ultima vez, deve ser alguma promoção do Submarino ou da Amazon. Gmail. O email é teu.
Decidi terminar mesmo. Você não sabia mas já não estávamos bem. Chego no Rio ás 22:36, se a Varig deixar. Não sei o que fazer hoje a noite, você tem alguma idéia?
Gelo. Rio, timidamente. Olho para o lado e uma mesa com um baralho jogado e várias gimbas de cigarro num cinzeiro super-lotado. Penso. São 8 e meia da noite e o Gmail diz-me que o email foi enviado há 23 minutos atrás. Bom. Deixa eu ver. Abro meu celular e mando uma mensagem - Vem para minha casa. Message sent.
Onze e pouco. Sala arrumada. Banho tomado. Brut gelado no meu freezer poderoso. Toca a campainha. Abro a porta. És tu, com uma mão na parede, com o rosto meio de lado, o cabelo caindo um pouquinho na testa, e o sorriso de lado mais delicioso que eu já vi. Eu não digo nada, respiro, e te puxo com calma. É ganho o melhor beijo que eu já tive na minha vida. Read more
Sem comentários.Only blind people love me.
Sei que sou, mas odeio. Não luto contra, mas odeio ser esse monstro. Odeio ser tão destoante de todos a minha volta. Odeio causar diferença, odeio ser lembrado. Odeio ter dignidade, personalidade e profundidade. Não gosto de ser único, odeio que me digam que sou uma figura. Queria ser mais um. Um na multidão, um descartável - pois no fundo é o que sou. Odeio saber do que acontece a minha volta, mesmo quando não estou presente, ou quando não sou informado. Odeio saber demais, perceber demais e principalmente sentir demais. Mas o que eu realmente detesto é saber que para alguém gostar de mim, de jeito que mereço, é preciso ser cego. É preciso ignorar os fatos. Ninguém quer ser feliz, e eu só sofro por tentar.

Liquido.
Algumas pessoas confundem o bem com o mal. O prazer com a dor. Sexo é violento. Amor não precisa ser.
Eu estive lá e nada parecia estar direito. Tudo, sempre está errado. Eu queria ligar para o meu filho, aquele que ainda não tive. Eu tenho umas duas ou sete coisas para dizer para ele. Filho, foge. Se você escapar, se você conseguir escapar, o papai não vai ficar triste. O teu pai não exige o que este mundo está te exigindo. A tua fuga vai me causar lágrimas, mas ainda eu estarei feliz por você conseguir fazer o que eu nunca pude.
Nunca despreze gente feia - eis outro conselho. O que lhe parece feio é dor, e todos vamos ser feios alguma hora. Nunca menospreze a dor, nem nunca dê valor demais a ela. A dor é um dos lados da vida, mas hoje em dia, no mundo que o teu pai vive, ela parece reger os dois sentidos dessa estória sem sentido.
Foge que eu deixo. Você vai ser o meu herói.
Sem comentários.Coração de pedra.
Sou mais um estranho nesse teu mundo de mimos.
Não passo mais na tua janela, mas ainda assim,
sei que te lembras da última vez que nos vimos,
e penso em ti sempre que sinto o cheiro de jasmim.
Tive poucas chances de te falar da minha paixão,
e se eu agora me torturo amando a minha queda,
vivo, pois, certo que tê-la foi a minha ascensão.
…e morro sabendo que teu coração é de pedra.
Romantismo.
Tusso. Seduzo-me pelas pequenas… bolas, não são pequenas, seduzo-me pelas grandiosas coisas que são constantemente ignoradas neste mundo cada vez mais sem graça. Quero por perto pessoas que se expressam demais, e não as que escondem o que sentem com tecnologia ou dinheiro. Já nem sei mais se sentem. Quero arte. Quero mais lágrimas, mais notas musicais… quero mortes, quero vida. Quero citações e rompantes de inspiração. Quero a beleza, mas não a plastica perfeita. Quero saber os teus defeitos, não sei se é para que a paixão venha mais suavemente, ou se é para ter mais motivos para te amar de vez…
Sem comentários.Cancer.
Fumo.
Fumo e vejo no cigarro a tua imagem. Depois de ti, as outras perderam o gosto, o sabor. Não consigo mais tirar proveito das que me cedem atenção, não consigo aprecia-las como um não-fumante aprecia um bom vinho. Tu me estragaste os sentidos, tamanha a tua graça sem sentido.
Bebo.
Bebo e vejo no copo de vodka o teu amor. Depois de te amar não consigo mais conviver com a realidade, de que não estás mais comigo. Não consigo admitir que não mais te verei, e o alcool não ajuda em nada. Não ajuda, só atrapalha. Porque ao longo da noite cada sombra que me cruza parece-se contigo.
Secreções sentimentais.
Eu passo uma segunda mão de mim mesmo na minha imagem como se quisesse dar pistas para que saibas que não sou como os outros. Minhas epifanias idiossincráticas só me fazem mais pobre e sozinho, mas ainda assim, para o mundo, têm um quê de novo - mesmo elas só servindo para me manter leal a mim mesmo. Não a ti, veja. O ranço de obviedade que cheiro quando ajo como sempre agi me envergonha, mas parece funcionar contigo. O que muda de uma hora para outra, de uma relação para outra, é o que me escapa por diversos meios. O que ainda não conseguir controlar plenamente - mas que ainda tento, e sempre tentarei - são os meus sentimentos. E essa secreção, que sai pelo olhar, numa risada ou num toque - brusco quando quero agradar e suavemente cínico quando quero desprezar - me entrega, ridículo, mostrando-me nu.
Sem comentários.When the saints go marchin’ in
Saio de lá ainda meio tenso, e meu bolso toca Touched by The Hand of God. Não bastasse a coincidência que o Allan despreza, eu ainda percebo que é uma versão neo-electro de alguns anos atrás. Minha vida é um chiste, um Punk’d onde eu sou o sacaneado, mas também o único espectador. A música muda. Eis que lembro das diretrizes e levanto os olhos. Passo na frente de um pé sujo enquanto Damon sussurra “Tender is the day the demons go away”… E, numa manobra que aprendi ontem, saio pela diagonal, sem parar de andar, para longe do boteco. Lembro do motivo disso tudo quando o ipod me ironiza falando “Tender is the ghost, the ghost I love the most” e essa é a hora em que eu bolo bonito, mas bonito mesmo. A gente acredita no que quer acreditar, mas essa não é hora de querer, mas de precisar. Eu preciso acreditar que isso tudo é verdade. ”Love’s the greatest thing” e lembro do telefone. Alguma coisa me fez abri-lo, como quem procura as horas, ou se alguem ligou - e misteriosamente, a minha lista de contatos mostra o nome dela em highlight no meio de outros com a mesma letra. I was punk’d… never knew it, but of course I was.
Sem comentários.Nem te conto.
Contando o mar de lágrimas que te fiz chorar, as dores no peito, e os teus medos infundados… contando as horas para me esquecer… contando a todos que ainda te faço falta… nada basta o desespero, nada aquieta o teu pulso. Do lado de cá é o mesmo. Nada, nem a tua foto, nem a ausência de uma… nem o teu endereço novo, amasssado num papel, num bolso de uma calça que nunca vou lavar… nem o desejo de correr, de te ligar fingindo que não sou teu, de gritar e de chorar como se não houvesse mais nada a fazer. Nem a carta manchada de lágrimas, nem o bilhete rasgado, nem masturbações sentimentais, nada. Dentro de toda essa história, não há mais nada a fazer senão te encontrar e te dizer que a verdade é dura demais para qualquer ser humano. Não há realmente mais nada a fazer, senão te ter de novo, nos meus braços, e para sempre.
Sem comentários.Preciso do que vejo quando olho nos teus olhos.
Preciso do que vejo para viver.
Preciso desta imagem na minha retina.
Para que o meu sangue corra,
preciso do que vejo quando olho nos teus olhos.
Preciso do que sinto quando sinto o teu corpo,
da quentura que me causa o teu beijo frio na minha nuca.
Preciso dos teus pêlos passando pelo meu corpo.
Preciso da tua altura alcançando a minha boca,
da tua língua falando o que nunca ouço,
da tua unha querendo ser das minhas costas.
Preciso do que vejo quando molho as tuas coxas,
quando me deixas sem forças,
com as pernas fracas, caindo, mas querendo te ter de novo.
Sem comentários.








