Archive for December, 2006

Pesadelos agradáveis.

Sinto-me um idiota sempre que acordo depois de sonhar contigo. Sempre acredito que voltaste a sorrir, sempre acredito que voltaste para mim. Sinto-me o pior dos medíocres, uma besta, uma porta, que cai dia após dia no mesmo conto, na mesma lorota, contada pela maior piadista do mundo, minha consciência. Duvido das minhas faculdades mentais por ainda passar por isso, e, quase que como uma âncora pesada, estes pesadelos, tão agradáveis, acabam com qualquer possibilidade de estímulo vital. Desisto muito fácil das coisas, das pessoas, e por fim da vida, porque sei, que sou um tolo, sem intelecto, que, quase toda noite, acredita que tu voltaste a sorrir para mim.

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O que importa.

Entenda que eu não quero o mal de ninguém. Sei que muitos de vocês vão lembrar de mim como uma pessoa deprimida, amarga e agressiva. Mas eu sei que há várias lembranças minhas felizes, e talvez vocês possam se interessar em relembrá-las. Sei que pode parecer um ato suicida, mas a noite em que desci a Oscar Freire, desde lá de cima até os Jardins, numa HondaBiz á 105km/h, gritando, foi sensacional. Senti que a minha alma tinha tomado Alka Seltzer. Eu vibrava por dentro e por fora, e ainda assim mantive minha mão fixa no guidão - sabia que qualquer pedrinha podia fazer do meu rosto um para-choque de paralelepípedos.

Outro episódio que me passou pela cabeça foi o dia em que entrei numa limousine que não era minha, e acabei conhecendo a mulher mais fantástica que já conheci. Meu nervosismo não conseguia controlar meus sorrisos, que machucavam de verdade meus músculos faciais. Eu bebi, eu chorei, eu chutei a porta do carro alugado, meio sem jeito, e machuquei o pé. Mas tudo a fazia rir, e eu me sentia um Rei.

Nada grita mais alto que o som daquela boate que eu freqüentava nos idos de 99. Um buraco, numa área nada familiar, onde dois amigos passavam as noites de sexta me pagando drinks e me fazendo dançar. Muito. Poucas pessoas me viram tão eufórico na vida. Pouquíssimas me viram dançar daquele jeito. Mas o fato é que eu estava no meu auge. Era cantado por belas garotas, bebia sem medo, e me sentia um personagem do Ruben Fonseca, vivendo ao extremo. Ninguém pode dizer que conhece mais o submundo social do que eu. Ninguém que se mantenha dentro da lei, claro. Ninguém que tenha saído vivo para contar. E é essa a minha última chance.

Não quero o mal de ninguém, mas não me desculpo. Sei que cuspi, sei que berrei, que fui grosso, e que muitas e muitas vezes fui vulgar. Não há pecado que a morte não perdoe. Não há erro que a ausência não corrija. Não há religião, não há céu, não há inferno. O que importa, realmente, é se você amou.

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Adaga refrigerada.

Você quer me matar? Você quer me matar? Você quer que eu me mate? Você vai me enfiar uma adaga? Você que eu enfie uma adaga em você? Eu não tenho nada a ver com a sua vida e você não tem nada a ver com a minha. Não se mete na minha vida cara! Vai, toma cerveja. Toma uma cerveja. Você não gosta de cerveja? Bebe cerveja. Eu, vou dizer, Eu… olha, eu… Você tem 200 reais aí para gastar?

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20 segundos.

Eu sentei a mesa de ferro frio em que ela estava me esperando por alguns minutos. As paredes todas brancas, revestida de umas placas furadinhas. Tinha um espelho e uma porta, fechada. Eu disse a ela: O teste é muito simples. Eu ligo o cronometro agora, neste momento. E daqui a pouco eu te pergunto quanto tempo você acha que passou. Simples assim.
Ela sorriu sem graça e ensaiou uma frase, imediatamente interrompida por mim, propositalmente. Eu disse: Não se preocupe, já já você vai embora. Quanto tempo você acha que passou desde o instante em que eu pressionei o cronometro?
- Sei lá… hmm 20 segundos?
- Não. 6, agora.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, e ela se sentiu meio culpada por errar. Logo, ficou constrangida pelo silencio, olhou para baixo, tocou a mesa com as unhas mal pintadas e voltou a levantar a cabeça. Meu olhar continuava fixo, e eu não dizia nada. Ela abriu a boca, mas não falou nada. Haviam se passado mais 20 segundos.
- E agora, quanto tempo você acha que passou desde aquele instante?
- Er… amm.. 1 minuto?
Eu não respondi de imediato. Continuei olhando sério.
- Não? Mais? Dois minutos?
- Agora 31 segundos. Você está acelerada menina. - Disse eu calmamente.
Ela queria falar, mas não conseguia. Ficou tensa. Abaixou os olhos várias vezes, mexeu no cabelo. Sorriu sem graça. Levantou o rosto como quem ia se explicar e foi parada pelos meus olhos estáticos e atentos.

Passam, desde esse último momento, mais 20 segundos de silêncio.
- Você pode me dizer agora quanto tempo você acha que passou desde a hora em que eu apertei o botão?
- Ai… n… não sei. Acho que 7 minutos. 6… 6 minutos.

Eu apertei o botão que para a contagem. Marcava 00′01′37. Eu levantei e disse: Você está errada. E saí da sala pela porta, deixando-a escancarada. Ela me viu saindo e não se mexeu. Depois, deitou a cabeça sobre os braços cruxados e chorou.

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Impressões.

  • Sou o único capanga que eu conheço (e mal) que tem ilusões cocktail party ao acordar. Colagens sonoras funcionam como as minhas sinapses. Minha memória é sonora, mais que visual.
  • O meu santo nunca bateu com o dele. Mas o fato é que esse sujeito tem seu talento, e assim eu fui visita-lo. Tomei umas batidas e fiquei contente. Explodi umas coisas e um carro passou. Simples assim.
  • Ruidos indrustriais me soam orgânicos. Um caos completo todo arrumadinho, acho o máximo. Repito a primeira parte. Ruidos indrustriais me soam orgânicos.
  • Segue assim mais pelo tempo do que por qualquer outra relação. Muda o ritmo, mas os timbres da bateria são os mesmos. As vezes acho muito agudo, as vezes não. Beep-beep.
  • Inocência, simplicidade e uma pitada de pureza. Arranjei com bastante boa vontade. Mesmo. Mas soou bobo, acho. Os pássaros ajudaram.
  • O primeiro flerte com o dub. O triangulo se completa, Liverpool, Manchester e… Londres. O coro parece dissonante, talvez seja mesmo. Mas ainda assim fala a verdade.
  • Doctor Who. Humor inglês. Não se leve a sério. Nunca. Are you my mommy? Tardis.
  • Dub 2.0. Mensagens do além, discos ao contrário. Estéreofonia. Domingo de tarde, preguiça, um copo de caipirinha, aguada, o gelo derreteu. Eu na sombra, vendo as crianças pulando na piscina. Olho no espelho e não me vejo mais. Sou casado com uma avó. Quem sou eu mesmo, e pior, onde eu me perdi?
  • Guitarras dão poder, sempre deram, sempre darão. Cyberpunks. Carros rápidos. Sexo de 4 horas, bêbado, meio dormindo, meio broxa.
  • Torura chinesa. Gotas e sintetizadores. Chocalhos e tubas. Jack Bauer. Jack Bauer for president, segundo a Joana.
  • Bad karma. Prostituição. Guerra. Bomba. Miséria. Vergonha. Tensão. Human life is irreplaceable.
  • Bristol. Um bando de selvagens. Não é proposital, mas explicável. Ainda penso nela, é nitido. Não adianta fingir que não e usar bits e bytes para me enganar. Quero voltar a costa dourada.
  • Isso é uma surpresa. Dub com frevo, será que me rendi? Ah… girl. Quem dorme com criança acorda mijado, dizem. Ainda não senti a umidade, mas sempre é hora.
  • Minha internacionalmente famosa massa de pizza. É assim, eu pego, soco, puxo, esparramo, misturo. É como o som. Eu faço o que quero, e acaba que eu me empolgo.
  • Silent night. Drama. A chuva batendo onde quer que eu esteja me lembra sempre solidão, e não pelos motivos óbvios. Faz-me sentir longe de casa, sem carro, sem dinheiro, andando ou pegando um onibus nojento e esperando horas para me deitar e descansar. Ouvi outro dia no onibus, no iPod, e quis chorar.
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Economia porca.

Você já se encontrou numa situação onde tem de fazer o que não deve? Não por vontade, tentação, ou necessidade, mas por uma força maior… Algo que te controla, que te impede de pensar. Algo que te deixa sem forças… Como quebrar todas as suas coisas, matar um amigo, ou mesmo se arriscar numa empreitada que pode te custar a vida? Dias sem comer e noites sem dormir, sem destino, sem razão. Eu estou nesse momento e tudo o que tenho que evitar é um tibetano hacker atrás de mim.

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It’s been a long time.

Depois de noites e mais noites de insônia, intermitentemente aborrecidas por mensagens SMS desconcertantes, eu volto a pensar em você. Passo na frente do seu prédio colorido, toda semana, tentando criar uma rotina de sentimentos. Demorei, mas lembrei de como você me fez sentir. Paradigma econômico básico, o que se tem demais vale pouco.

Tento, e nunca consigo, entrar em contacto consigo. Passo horas perguntando-me se você era o carneiro ou o lobo, e sempre que eu chego a uma conclusão eu mudo de idéia. Você se comportou sempre como o lobo, mas quando nos encontrávamos, você tinha uma ternura e uma subserviência assustadora. Eu não ligo muito para a subserviência -aliás, desprezo - mas a falta da tua ternura não me deixa dormir.

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