Archive for January, 2007
Io, Emmanuelle
Todo mundo se acha especial. Todo mundo se acha único. O teu comportamento, o meu, o da tua avó e o do Araribóia seguem, todos, parâmetros e condições que o ambiente, a cultura e os instintos de sobrevivência tendenciaram. Mas esse não é um texto antropológico. Todo mundo acha que sofreu demais. Todo mundo acha que ama como ninguém nunca antes amou. Todos pensam que tem algo a mais, a mostrar, a dar. E querem, claro, receber uma coisa única e especial de uma única pessoa, ás vezes duas. Todo mundo pode mas o mundo não lhe dá a chance. Todo mundo se defende, todos querem ser melhores. Pois bem. Emmanuelle, Emmanuelle mesmo só tem a parte I. As continuações, quaisquer, são tolas e sem graça. Arte mesmo, só no primeiro. Sexo tem em todos.
Sem comentários.2012.
Encontro-me sem as pernas, com um pouco de pena de mim mesmo. Tudo o que me resta é a tua imagem tatuada no meu cérebro. São horas como essa que me fazer esquecer que estou num cubículo sujo, cheirando a mofo, com ruídos de ratos vindo das paredes e larvas no chão sujo junto aos restos de comida barata. Um quarto e sala podre, na pior parte de Sheffield, enquanto tu estás a milhas de distância nas Olimpíadas de Londres. Tão perto e tão longe. Bebes a champanha que te ensinei a escolher, decerto com alguém mais jovem, num carro automático que vale mais que a minha vida. Sinto tua falta mas não sinto dor, mereço essa vida por tudo o que fiz. Não guardo rancores, desejo-te o melhor. Guardo apenas a marca da cera quente, que me deixaste no braço na última vez que te vi. Sei que a vida valeu a pena, só por causa daquela tarde chuvosa. Eu sinto o teu cheiro quando fecho os olhos e isso me mantém vivo. Não me toco, não ouso competir contigo. Deixo que a minha mente te represente, ainda que falte o toque. A vela era a tua arma no nosso jogo amoroso, e usaste-a muito bem, conseguindo tudo o que queria - inclusive a minha alma, e para sempre. Eu viajo, adormeço nesta mesma cadeira que agora estou te rabiscando essa carta, e começa o ritual. És tu, em lembrança, a assoprar o meu ouvido, balbuciando que me querias. São os teus longos cachos, que mesmo falsos, ainda me causam calafrios ao imagina-los nos meu peito. As tuas unhas, entrando devagar por dentre os meus cabelos e meus dedos escorregando por todos as tuas curvas. Não me mexo, por alguns segundos - ou horas talvez. Mas é quando minha mão dura e calejada vem ao antebraço, de leve, e sente a cicatriz que tu me deixastes, que eu sinto as minhas pernas de novo.
Sem comentários.Superhomem.
Corre a boca solta que há um superhomem na cidade, você já deve ter ouvido falar. Ele surpreende, ele conta histórias incríveis, ele voa. Seus superpoderes estão dando o que falar, em todo o lugar, nos bares, puteiros, celulares de cartão. Ele faz mais que o esperado, ele se preocupa, ele aguenta de tudo. Esse herói realmente é especial. E eu o conheço. Um pouco.
Tenho certeza de que ele é de outro planeta, e essa certeza vem de forma impírica. Não pelo que dizem dele, mas pelo que eu vejo em volta. Ele é diferente, facto. E eu sei que não há mais habitantes vindos do planeta em que ele nasceu. Não sei se explodiu, como Kripton, mas percebo a total inadequação desse herói ao mundo em que vivemos todos. E mesmo com os puxa-sacos, com as belas mulheres e com um poder absurdo nas mãos ele não consegue se adequar. Não consegue desligar a sensibilidade dele, as vontades, os anseios e os medos. Sei que o dos quadrinhos perdia para uma pedra verde - e o nosso superhomem também tem uma fraqueza. Não, não acho que seja a tal pedra. Chama-se culpa, Kulpatonita.
Well what could peace of mind be like…?
Quando tento dormir, não penso nas pessoas que eu matei, admito. Não consigo fechar os olhos sem sofrer por antecipação, sem me perguntar o que vai acontecer comigo, quando esse pesadelo vai acabar. Eu rolo numa cama gigante pensando no que vai ser de mim quando eu tiver que sumir, que fugir dessa vida assustadora. Rolo, tento dormir, rolo outra vez. E a única coisa que eu nunca me arrependi na vida foi aquela noite, que me deu tanta felicidade, mas que ao mesmo tempo arruinou toda e qualquer chance d’eu sentir orgulho de mim mesmo.
Sem comentários.Is it over?
Ouvi dizer que ela está roubando, assaltando. Soube por bocas de Matildes que ela não se alimenta direito, que perdeu um dente e que não tem um teto à noite. Falaram que sai por ai, sem tomar banho, sem passar maquiagem. Eu sigo vivendo, tentando passar por cima de todas as suas manhas. Ela pode ser uma estrela na cabeça dela, mas é uma grande decepção na minha. Caia de quatro por quem não te quer, disse a ela uma vez. Acho que ela seguiu o meu conselho com muito afinco. E apesar de tudo, não lhe quero mal. Mas também, assim como os capítulos novos de 24 horas, não quero mais ouvir falar dela. Não mais quero saber das suas falcatruas, não me conte, estou cansado. Só teria forças para mais uma coisa, um ato libertador, um sacrifício pelo bem de todo mundo. Viajo, em breve, e queria pela última vez olhar nos seus olhos e dizer que tudo foi um erro.
Sem comentários.Perdendo a razão.
É porque eu não tenho dinheiro.
É porque eu não te amo mais.
É porque eu não sorrio sem álcool.
É porque eu não curto viver.
É porque eu sei da verdade.
É porque eu minto para ti.
É porque eu ainda acho que eu posso.
É porque eu durmo muito mal.
É porque eu gozei na tua boca.
É porque eu tremia de frio.
É porque eu não suspeitava de nada.
É porque eu desisti de sofrer.
É porque tu não sabes fingir.
É porque tu não sabes amar.
É porque tu não sabes falar.
É porque tu não sabes quem eu sou.
Fotografia de viagem.
São 3 e meia da manhã e eu tenho que acorda-la. Infelizmente, a menina do sorriso bonito não está entre a gente, nessa cama imensa. Não dormi tranqüilamente, toda hora eu acordava, pensando que era a hora, tentando lembrar de alguma coisa que podia estar faltando. Mas eu olhava para o lado e te via, sempre bela, com os olhos cerrados, os cachos doirados e a pele alva, respirando devagar. Eu toco o teu braço com calma, e me dá vontade de ficar ali. Nada, nem um movimento. Percorro então o teu braço com a ponta dos meus dedos, do ombro até o pulso, e tu sorris, com um jeito meio safado. É a hora? - bocejas, apalpando a mesinha atrás dos teus óculos. Acho que sim, 3 e meia. Vamos? - eu respondo tentando começar com calma a convivência diária e íntima que vai durar ao menos 3 meses. Minha mão volta a te tocar, puxando de leve a tua calcinha feita a mão. Tu me beijas, mas seguras a minha mão, negando o carinho. Tua boca é doce mesmo de manhã e isso me assusta. Sempre.
Meia hora depois estamos no carro do Sr. Meyer, no banco de trás. As mochilas com tudo que a gente acha que precisa estão na mala do carro, e a minha cabeça, no teu colo. Tu me acaricias, devagarinho, olhando com atenção o Rio de Janeiro pela última vez. E eu, depois de toda a excitação com a saída, checando tudo, fechando o apartamento, agora sinto-me relaxado. Ainda não amanheceu e passamos pelo bar em que maldizia toda noite o fato de morares tão longe, a tua distância. Ainda há pessoas bebendo, as mesmas de sempre. Botafogo é um bairro xerocado.
Mais meia hora. Cais do porto. Eu te ajudo a por a mochila e tu bufas de ansiedade. Perguntas-me sobre o zíper, que guarda a preciosa câmera. Tudo está tranqüilo querida - respondo - só falta um sorriso. Tu gargalhas. E eu vibro, secretamente, toda vez que vejo assim por minha causa. Subimos a rampa que descemos há três dias, quando chegamos de Santos, na nossa viagem de teste. Há um rádio ligado no fundo do pátio do navio, baixinho, tocando Nancy Sinatra, e um dos tripulantes pára a faxina para nos cumprimentar, sem jeito. Seguimos para o cubículo que nos deixaram ficar, à esquerda. É pequeno, com uma escotilha suja, uma lâmpada fraca, amarelada, e um colchão de solteiro, fino e duro - mas dormimos enroscados ali por uma semana e nos sentimos no Four Seasons. Temos uma hora até o navio sair - eu sussurro. Agaixo, e começo a retirar algumas coisas da mochila, e enquanto isso o teu jeito sapeca te faz olhar para fora da cabina, conferindo qualquer coisa e fechando a porta em seguida. Ouço o som da calcinha de seda feita a mão roçar a tua pele e me viro. Acho que dá para continuar agora… mas temos só uma hora! - dizes-me já quase nua, como se fosse uma bronca. Eu, ainda agachado, me viro e toco o teu umbigo com os lábios. É nessa hora que percebo que não precisamos de mochilas, nem de colchões ou camas extra-king-size. Precisamos do gosto um do outro em nossas bocas.
Sem comentários.Sobre a vida debaixo d’água.
Ela é bonita, ao menos eu acho. Nada como poucas e nunca subiu até a superfície. Mora debaixo d’água, mexe-se para lá e para cá, mas tem uma vida meio monótona. Vive conversando com peixes, tubarões e cavalos marinhos, mas não conhece os corais, as enguias e nem as lulas. Não nasceu com barbatanas, ou pés de pato - mas comprou, sabe-se lá onde. Também não tem guelras, não é estranho? Quando ela sente frio, ela chega um pouco mais perto da praia e sente o sol aquece-la. Quando se sente sozinha por muitas vezes chora, e sente pena de si mesmo. Mas umas tantas outras ela mata sua carência falando com um pescador.
Esse pescador odeia a água, não gosta mesmo. Ele fica em cima de um barco, e pega vários tipos de peixe com uma vara. A maioria para comer, é fato, mas alguns ele passa para frente, alegrando amigos e ganhando assim o respeito de todos. Ele pesca por esporte, e apesar de parecer um profissional, não ganha dinheiro com isso. Ele realmente gosta da coisa. Um dia, há muitos anos, ele a viu nadando lá de cima do barco. No começo achou que era mais um peixe, e que ia ter comida para uma semana. Mas ela o chamou para a água, e ele, curioso, entrou, com calma, molhando suas bermudas de linho. Conversaram, ele boiando, olhando para baixo, sem afundar, e ela sem pôr a cabeça fora d’água. Ele percebeu que podia pega-la ali mesmo, com as mãos, leva-la para o barco e trata-la como mais uma pesca. Ele provavelmente ganharia um prêmio pela qualidade e tamanho da pesca, e ainda teria o que comer por dias e dias. Mas falando com aquela criatura tão charmosa e tão sofrida ele resolveu que a deixaria ir, achando que no dia seguinte ela voltaria. Pois, antes de se despedirem ela levantou a cabeça, cuspiu um ar segurado por anos e tascou-lhe um beijo. Depois prendeu a respiração e voltou a submergir, sumindo no fundo do mar. Ele sabia que ela estava ali, mas não conseguia mais vê-la.
No dia seguinte, ela não subiu, não o chamou nem passou por ali. Ela estava assustada demais com a experiência de respirar, não se sentia a vontade, não sei direito. Mas o fato é que ela forçou-se à sua rotina pretensamente interessante, mas chata e solitária. Muito tempo depois, ela não aguentou e subiu. Ele estava lá, como esteve todos os dias, pescando e esperando. Até hoje eles se encontram, esporádicamente. Mas só quando ela se sente só.
Sem comentários.Milano Doc.
Lembro-me da boa época em que eu comia no Manekineko e não queria saber de pimenta. São vários os vôos na minha frente e a atendente repete: Para onde o senhor está indo? Eu nunca tive crises de idade, mas percebi que estava grandinho quando comecei a gostar mais de telejornal do que de séries, na mesma época que o mundo começou a me chamar de ’senhor’. Sincronicidade é tudo, já me disse uma ladra certa vez. Pois bem, eu acho que essa promoção para Itália me apetece… É… acho que sim. Milano, per favore - disse querendo ser simpático e conseguindo um olhar de desprezo e uma digitação preguiçosa num terminal cinza. Também falo inglês, eu completaria se estivesse no Bexiga, mas estava num dos maiores aeroportos de Londres. Cheguei até ali num carro apertado, dirigido por um conhecido ruivo que passou todo o trajeto, de Brixton até Heathrow maldizendo quem o chamava de Ginger. Tiro do bolso mais uma dessas tais balas de pimenta, que até me agradam, mas que me lembram o saudosista que sou. Ainda espero conseguir dinheiro para comprar a casa em que eu passava frio na infância, mesmo sem muita noção de como. Pago no meu Amex Jobi 99 Libras, e saco do bolso umas moedas pesadas para a taxa de embarque.
Sento-me entre dois sujeitos, um mal-cheiroso e um gordo bem forte, que ultrapassava sua área de conforto para tirar o meu. Seus braços não cabiam no braço da cadeira do avião e a banha das pernas vazavam por debaixo do cobertor que ele usava. Fazia muito frio, é fato, mas o tecido adiposo somado à atividade que ele tinha acabado de fazer ao subir as escadas da nave me faziam indagar porque a pressa dessa coberta. Enfim, lá estava eu entre a falta de higiene e a falta de espaço. Estava indo para Milão, para a penthouse da modelo mais divertida da Europa e eu me sentia numa van para zona oeste. Ligo o phone no canal do Gatecrasher, mixado por Judge Jules, e toca Fatboy Slim. A música, Santa Cruz. Eu gargalho sozinho.
Uma hora depois começa Frasier no televisor da poltrona da frente, e eu só penso em uma taça de champanha. Viro-me para a esquerda, em direção ao corredor e esqueço de segurar a respiração. o maltrapilho realmente estava exalando o pior dos cheiros aceitos dentro de um avião. Lembrava peixe com algo alcoólico, barato, tipo Cinzano. Segurei a náusea e não pensei duas vezes. Levantei e fui até o toilete, e, enquanto eu espero a pessoa sair do cubículo a cortina da primeira classe se entreabre. Ali é o meu lugar, pensei, pedante como sempre. Depois pensei, meu bom gosto me torna sempre pedante.
Era uma loira, que é sabido, nunca me apetece de cara. Sentada, na primeira fila, na altura do meu cinto, ela se inclinava para procurar por uma aeromoça. Flight Attendant de cú é rola, aeromoça e aeromoço. Sempre vou chamar a TVS de TVS e o Metropolitan de Metropolitan. E o outro de Met. E o Jorge Ben de Jorge Ben, que merda é essa? Enfim, ela levanta os olhos devagar e me pergunta em inglês com sotaque: Você viu a aeromoça? E eu respondi com uma certa calma, me abaixando devagar e olhando nos olhos dela: Não sirvo eu? Ela sorri de lado, com a pontinha da língua nos dentes e inclina a cabeça para que os lindos cabelos lisos escondam o seu rosto, com muito, mas muito charme mesmo, e responde Per favore…
Sem comentários.Paliativo Mór.
E mesmo parecendo um índio, com esta pele de urucum que tão pouco me identifica, eu ando pelas ruas com o meu indefectível Aviator falso, e meu companheiro de dor e gozo, Feferéu. O que toca, agora não importa. Sério. Eu ando, e vejo as minhas sinas, meus pecados e minhas mentiras correndo em torno de mim, como parasitas, vivendo muito bem. Recebo uma mensagem, mais uma ninfeta querendo se mostrar para mim. Recebo outra, minhas parcas qualidades são o vícios de algumas almas perdidas. Continuo andando, piso firme mesmo com o peito em chamas. Por dentro e por fora, uma vez que passei bronzeador fator 2 numa pele virgem. Passo em frente a chocolateria que te trouxe para mim. Sinto um certo desprezo, tanto por ela quanto por ti, mas ainda se encontram alguns bombons doces lá dentro. De ti, só tenho amargura. Em ti, não entro outra vez.
Eis que Feferéu me pega de jeito com uma surpresa, mesmo tendo eu visto de tudo no mundo. Eu já viajei clandestinamente embaixo de um banco de trem sujo, que me criou uma alergia que guardo até hoje. Guardo melhor do que as tuas fotos, que já prezei mais que agora. Eu já vi negras sem celulite dando a luz na África, já vi ouro, já vi mortes. Já perdi a respiração algumas vezes, já tive que despressurizar para chegar a tona. Já morri, já matei, e já comi até ficar triste. Eu uma certa vez joguei um carro no Rio Sena para ajudar a um amigo a fugir da banda que ele tinha, e que tanto lhe tirava o sono. Foi dado como desaparecido. Já vivi tanto, que tal como um mitômano, tive experiências reais e as versões que eu consegui lembrar, ou que decidi, ou que pude contar. E ainda assim um filha da puta de 10cm me causa um calafrio que não sinto desde aquela noite de mentiras. Ele, tão perto do meu ouvido, me conta baixinho um poema que me destrói, e que me supera. Ei-lo: Read more
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