Archive for February, 2007

Sobre o que passa lá dentro.

Ela acorda, numa cama enorme. Além dela, há algumas pequenas almofadas pretas, uma cueca - tipo boxer - e umas camisetas. Não se lembra como chegou ali, nem se gostou. Ganha a consciência aos poucos, apalpando o colchão a procura do celular. Dos brincos. Do sutiã. Ouve um ruido familiar, é o chuveiro. Ela se arrasta para fora da cama e olha no chão uma garrafa vazia de Mumm. Talvez fosse uma boa hora para parar de beber, ela pensa. Talvez fosse uma boa hora para tomar um banho - continua - mas eu tenho medo do que eu vou encontrar no banheiro. E se ele for horrível agora que eu estou sóbria, ai, ele não estava sozinho, meu deus, onde que eu tava com a cabeça. Que horas são? Cadê meu celular, ah, tá aqui.. 2 missed calls - foda, que saco. Ah ótimo. Não perdi nada.

Ela levanta e procura por suas meias. O barulho do chuveiro cessa, uma risada marca. Está sentada na cama, botando as suas meias felpudas, as puxa até o meio da canela, e as dobra, com cuidado, acima do tornozelo. Não acha a calcinha mas sabe que dá tempo de parar em casa antes do trabalho - viu as horas no seu novo Nokia. Ainda não se acostumou com ele mas é fácil, é sempre meio parecido. Cata a saia no chão e entra nela com as duas pernas de uma vez. Quem testemunhasse aquele momento veria uma moça linda, com o rosto fino como as suas sobrancelhas, esbelta e com belas pernas, puxando a saia para si como uma adolescente. Boca borrada de batom, coisa que ela nunca usa. Umas pequenas marcas nos punhos, nada demais. Abotoa a blusa - acho que está do avesso - tira, olha, e põe de novo.

Good mornin’ sunshine, quer tomar um banho? - digo. Ela pensa - Eis uma coisa que eu não suporto nele, toda hora falando em inglês. Que saco, quer se mostrar? Meio pedante, meio ególatra, esse cara. E me responde com um certo nervosismo - Não criança, tô atrasada já, tenho que ir. Enquanto me enxugo na sala, nú, a outra vem do banheiro. Risonha e me abraçando por trás, me beijando as costas. Ela encosta os cabelos loiros na minha nuca e com um sorriso lindo dá bom dia a nossa convidada, que sorri, se despede, e praticamente foge da minha casa, esquecendo um par de brincos que posteriormente será guardado no meu Lost & Found.

Ela aperta o elevador com insistência, como se ele fosse chegar mais rápido assim. Não estava realmente atrasada mas queria fugir dali o mais rápido possível. Entra no elevador e vê que está com o rosto todo borrado, leva a mão a boca, lambe a ponta dos dedos e tenta melhorar o batom e o rímel espalhados. Adianta pouco, mas é tão cedo que não vai cruzar com ninguém na rua. Entra num taxi e pede pressa, silencio e ar condicionado. Em 8 minutos está em casa.

O senhor pode esperar? 10, 15 minutos no máximo. Pode? - resmunga, e antes que o motorista vire a cabeça gorda para responder, ela já está fora do carro, pronta para bater a porta. Sobe um lance de escadas já com a chave na mão e tudo em que pensa é que tem de ser rápida - não dá mais para ficar gastando dinheiro com taxi assim. Mas é só agora, uma emergência - mente para si mesma - hoje a noite eu nem vou sair mesmo. Entra em casa, corre para o banheiro, liga a torneira, olha para o box, não tem calcinha, volta para pia e lava o rosto. Passa o creme que comprou com a amiga no Fashion Mall - custou caro mas valeu a pena, a amiga agora acha ela uma pessoa mais sofisticada, e ela mesmo está acreditando nisso, para te ser sincero. Algodão, limpa o creme, pronto. Desodorante. Eu odeio não tomar banho depois de sexo. Não acredito que eu deixei aquela menina por a boca em mim. Devia ter parado nos beijos. Devia ter feito como em Nova York, aquela vez que eu fui com a Carlinha. A gente se beijava e todo mundo ficava louco, dava drink para a gente e toda a boate nos olhava. Até aquele negão lindo me deu mole. Queria ter dado para ele. E passa pente no cabelo, automático, ela nem pensa, faz isso todo dia. Toda hora. Continuam os devaneios: Se alguém da clínica sabe onde eu tava com a boca há 4 horas atrás ninguém mais fala comigo, ai, ou só aqueles idiotas do raio-x. Ou então sei lá, acho que vão falar mas não vão mais me respeitar. Essa distância que eu mantenho tem um preço. Eu sou da Zona Sul, eles me acham diferente. Eu sou mesmo. Não quero eles sabendo da minha vida. Eu tenho que pegar mais leve com a Eloá, não posso ficar me abrindo tanto assim. Acho que ela não fala nada para ninguém mas nunca se sabe. Além do que ela não tem que saber de tudo. Você tem que ser mais discreta Renata - briga com si mesmo, na sua própria cabeça.

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The truck driver and his mate.

São sete e quinze da manhã e eu estou numa van apertada, indo para onde ninguém vai. Pelos cabos brancos que levam música às minhas orelhas, outrora chupadas por ti, eu ouço Massive Attack. Devagar e sempre, como o trajeto que pretendo fazer. São milhas e milhas que nenhum cartão de crédito do mundo quer que eu percorra, a estrada para as minhas loucuras, a fuga dos meus medos. Eu espero, fingindo não sentir o cheiro dos bancos surrados que me rodeiam, e passo pela paisagem que eu maldisse toda a vida. Ainda parece deserto. Sempre vai parecer sem vida. Em uma hora, eu salto no suburbio que vai ser o meu trampolim para o anonimato. Nada mais de esbarrões em supermercados de grife, nada mais de te achei n’Orkut, nada mais de se lembra de mim. Parei com isso. Sou eu, Feferéu e uma mochila pedindo carona sem sexo oral. Sou eu fugindo de tudo que me deram, e que eu nunca pedi.

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Sun King.

Amanheceu da mesma forma de sempre, com um friozinho aconchegante e com tons muito escuros de azul no céu. Alguns engravatados já saiam de suas casas nos subúrbios com seus carros comprados por causa de séries de tevê a cabo. Da minha janela eu vejo um mendigo acordando, uma secretária típica apertando o passo ao passar pelo mendigo e um moleque de ipod olhando para a bunda da tal secretária. Um ônibus faz a curva lá no restaurante chinês, eu acho que vai para a rodoviária, não sei. Volto para cama, deito e olho a janela por alguns minutos. Vários pássaros vêm e vão, param no topo do prédio da frente, voam, param na minha sacada de ferro enferrujado, voam de novo, e eu não percebo nada. Meu olhar está fixo nas nuvens. Não sou de achar que essas coisas acontecem, mas eu nunca fui de prestar tanta atenção no céu assim.

Meia hora depois, eu meio que dormindo, sinto um calor que não sentia desde a infância, no Brasil. Acordo e ouço segundos depois o celular tocando. És tu, que me liga afobada. Liga a tevê, liga a porra da tevê! - gritas. Eu não esperava um bom dia meu amor, nada disso eu ouço há anos. Mas alguma educação, bons modos, savoir faire, sempre é bom. Meu controle está perdido pela cama gigante, mas eu acho e aperto o power. É a BBC mostrando o sol roxo, soltando fogo, enorme. Vem do norte o inferno na Terra - diz a manchete. Ireland is no more - começa o âncora muito sério. Eu volto ao telefone, me lembrando de ti, e tu já gritavas com toda força: Fudeu Pete, fudeu, o que vai ser da gente, acabou! Mesmo entendendo o problema eu brinco, pensei que já tinha acabado honey. Tu me atropelas dizendo que não adianta ir para Londres, que não dá tempo, que os voôs estão hiperlotados, e que não estão voando para oeste,só mesmo fugindo para a Asia e Africa do Sul. Eu falo, sério - Pega a porra do carro e vem pra cá, eu dou um jeito. E tu replicas, eu quero passar por isso contigo, morrendo ou não, vamos estar juntos. É a primeira vez em anos que tu és sincera contigo mesma, e a ultima que me tratas como eu mereço. No caminho de Stockport para cá teu carro, preso no transito, ferve. Eu, ao desligar o telefone volto a janela e a luz do astro-rei me cega. Eu deito, desesperado, e desligo a tevê, que me aborrece. Atordoado durmo. Tu morres queimada no asfalto da M60, chorando pelo tempo perdido. E eu faleço dormindo, sonhando que tu ainda és minha.

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Pequenas violências.

Eu ainda durmo quando ouço os passos na escada enferrujada, que chega a minha janela, aberta para aproveitar as brisas de outono. Tento não acordar, de verdade, mas a culpa não deixa. O som das botas pesadas no metal podre e oxidado me faz levantar, de sopetão. Eu chego perto da porta que guarda as minhas armas e pego uma pistola. Não é ela - penso na mesma hora - ela não se prestaria a tanto para me surpreender. Você pode, com essa revelação achar que eu não devia pensar tanto numa mulher que não faz a menor questão de me agradar, e você está certa, provavelmente. Mas o fato é que eu atarracho o silenciador e miro nos black-outs que uma morena me fez comprar. A brisa sopra e uma das frestas mostra um careca com poucos dentes e olhar de bocó com uma arma na mão. PFOULP! Eis que a minha mira não condiz com a minha falta de educação matinal e acerta a testa do tolo com precisão. Muito amador, muito barulhento. Cai o corpo, eu ouço uma pancada. Estou no décimo andar de um prédio no centro antigo de Manchester e os meus medos eram até então bombas caseiras sendo preparadas por Pakis despreparados. Esse tolo não foi amador de graça. Não ouço outros passos vindos da escada do lado de fora e então percebo que a minha atenção devia estar na porta. Too late, sinto o cano frio de outro silenciador na minha nuca. Você vem comigo e calado - diz a mulher coma voz fria e rouca. E por alguns segundos, eu, tolo, ainda fantasio que se ela estivesse ali, do meu lado, me veria quebrando o braço desta intrusa com um golpe rápido e a matando, com sua própria arma. O faço. Pena que ela não viu, ela se excita demais com as minhas pequenas violências.

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Tambéns.

Eu também bebo cerveja. Eu também danço sozinho em casa, e sempre ando nas ruas cantarolando com o meu iPod, enquanto todos olham torto. Antes era o Discman, e antes disso, o Walkman. Eu também tenho idéias, planos. Eu também entro no Orkut achando que alguma coisa vai mudar e acho tudo um saco. Eu também odeio acordar cedo. Eu também choro em filme triste, também tenho pena de animais perdidos e também gosto de Coca-cola de latinha, bem gelada, com gelo e limão. Eu também quero emagrecer, também gosto dos meus amigos e também tenho saudades de pessoas que não vejo mais - ou que não estão mais entre a gente. Eu também sei que o governo é uma merda mesmo sem saber exatamente o porquê. Também baixo música, também vejo o youtube e eu também faço contas, no fim do mês, para ver se o dinheiro dá. Eu também uso preto, eu também vou ao dentista, e também compro em liquidação. Eu também me acho especial, uso argumentos de auto-caridade para não sofrer tanto quanto perco alguém e também sinto uma certa esperança nova no Reveillon. E eu, também, acho que um dia vou voltar para ti.

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Sobrepeso.

Ia à escola todo dia, quando moleque, nunca faltava. Sofria como um cachorro na China, odiava tudo, da minha roupa até o mais bacana dos inspetores. Até o meu material me fazia sofrer - e duas vezes, pelas brigas da minha mãe que reclamava da bagulhada que eu carregava nas costas, e da própria mochila, que eu fingia não estar tão pesada justamente para confrontá-la. Eu achava que precisava estar preparado para tudo e levava coisas que não pareciam ter utilidade real, como pacotes de sal, livros de ficção e alguns tocos de madeira. Sempre acreditei que eu fosse viver uma aventura e não voltar para casa. Achava que se um dia a fome apertasse, eu poderia comer o sal dos pacotinhos de papel e assim evitar dores de cabeça que eu sentia, quando a insônia me atacava e eu não podia ir até a cozinha para não acordar a família toda. Os pedaços de pau eu realmente não lembro para que estavam lá, mas me eram muito preciosos. As vezes eu passava todo o intervalo olhando para algum deles, deixava formigas andarem pela superfície e as observava, como uma câmera hoje em dia segue um maltrapilho em shoppings da zona sul. Meus livros sim, este tinham função. Eram os que me acompanhavam quando não havia mais ninguém em volta disposto a não prestar atenção a aula, sempre idiota. Eu costumava me perder de tal forma, que não era incomum o texto fazer com que a minha risada rasgada interrompesse os professores, treinando-me para respostas rápidas e desculpas esdrúxulas - ratificando essa fama injusta e dolorosa que eu tenho de louco. Um dia eu sai de casa para a tal aventura, e nunca mais voltei, e cá estou escrevendo em um computador velho. Pouco mudou, eu ainda saio de casa pronto para o que for, cinco cartões, cheques, iPod com música para duas semanas e um celular desses pequenos, leves. Minha mãe não mais reclama de mim, eu sempre como de madrugada - comida também. Mas não importa o que eu faça ainda sofro com o peso que carrego nas costas.

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Regret.

Saio do banheiro do boteco classudo que costumava ser 24 horas, mas que agora fecha às 2h. Que decadência, eu acho. Lavo as mãos e me chama a atenção um daqueles mostruários de cartões gratuitos. Eu pego um meio transparente, verde, de uma cerveja. Olho o plástico e leio “arrependa-se do que você não fez”. Houve vários dias da minha vida em que acordei, ainda tonto, numa cama enorme e disse a mim mesmo, vociferando; “Ainda bem que eu não fiz aquilo”. Nunca me arrependi do que não fiz, ao contrário, sempre me orgulhei quando consegui vencer a liberdade que o alcool me dá para dizer o que eu realmente sinto, e cometer as idéias insanas que passam pela minha cabeça. Logo pensei no inverso, ou melhor, na outra opção… arrepender-se do que se tenha feito e cheguei a seguinte conclusão: o pessoal da comunicação da Heineken precisa saber que eu existo e assim parar de falar bobagem.

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Quando o sangue estanca.

A gente combina dessa forma. Eu não te ligo, você não me telefona. Você finge para si mesmo que não quer que eu ligue e eu finjo para mim que esqueci de tudo que você me disse, quase chorando. Você finge que eu não sou ninguém quando te ligo e eu finjo achar normal essa sua indiferença. Eu bebo, sofro, e às vezes choro. Mas você, ridícula, se violenta negando o que sente e o que quer de verdade. Você acredita que vai vencer a tua dor, e eu me adequo a ela, e assim, tenho uma válvula de escape. Eu permito que o teu falso desprezo me corroa a alma, enquanto olho para um italiano baixinho, meio metido, patolar uma prostituta. Você me apresentou a ele, lembra, falando do nosso futuro. Não sei se foi um ato falho, mas a nojeira que ele é como pessoa me mostra o quanto a sua índole vale e o quanto o meu desespero é sem sentido.

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