Archive for March, 2007
Las cores de la revolución!
Eu lavo bem uma garrafa de Fanta Limão, e seco com aquela flanela que ficava no chão do teu carro, lembras? Louise vem com um balde de querosene. Ela furtou da casa que agora não é mais nossa, mas dos franceses filhos-da-puta que nos processaram sem dó. Eles dormiam e ela foi até a churrasqueira, perto do riacho. Acho. Era lá que ficava não? Pois eu encho a garrafa e depois ponho parte da tal flanela para dentro dela. Tampo com a rolha da ultima champanha que tomamos, um pouco antes de morreres, minha amada. Acho que uma semana antes. Tua filha ainda não entende o que eu faço, mas me trouxe o combustível que está aqui, nas minhas mãos. Repito todo o processo com outra garrafinha, desta vez de Mineirinho. Esta, ao contrário da outra, não tem aquele ponto fraco embaixo, que tanto nos ajudou a não precisar ir até o hospital quando nos excedíamos no sexo. Tu te recordas que foi o teu pai, austero, militar e médico, que nos disse no jantar, com horror, o porquê daquela bolinha afundada na base do casco? - e que foi nessa mesma noite que, no quarto que me deixaram dormir, um tanto assombrado, tu apareceste com uma delas e um pote de manteiga, revolucionando o que eu entendia por coito? Pois ainda bem que não gostavas de Mate-couro, como eu, pois teríamos problemas com esta daqui. Eu uso agora como pavio a camiseta estragada, depois que tentei rasga-la na nossa primeira noite, querendo me fazer de forte, e que guardo até hoje. Todos esses anos ela me foi um símbolo da minha tolice, e agora eu a uso para deixar de ser otário. Louise continua sem entender bem, mas ela confia no pai - sempre o fez, como tu. E de posse do meu zippo, agora cheio como explicou um amigo no bar ontem - onde eu bebia à falta tua - eu parto para a casa que teu pai construiu. Que espero que lamba com o mesmo fogo que tu, lá dentro e por tantos anos, me lambias.
Sem comentários.Sempre que o ar me falta.
Sempre que o ar me falta, eu te vejo na foto. Sempre tão longe de mim.
Sempre que o ar me falta, tu me beija na boca, devagar, puxando minha mão para a tua nuca.
Sempre me deixas louco, sempre com medo, sempre invencível.
Sempre que o ar me falta tenho a ti na minha mente, e lembro, tão fácil é o contorno das tuas curvas. Sempre perfeitas.
Sempre que o ar me falta, é o telefone, piscando o teu nome que devia estar sempre ali, e tão raramente está.
Sempre que o ar me falta, eu quero te ter. Sempre, só a ti, só para mim.
Tréplica.
São as nossas obrigações. Temos responsabilidades. Temos que trabalhar, muitos dependem de nós. É a falta de dinheiro, é a o excesso de gente em volta. É a falta de culpa, é o excesso de amor. São noites que eu não vejo o teu sorriso lindo, que não bebo quinino, que não vibro com a tua maquilagem. São as noites que tu não ouves a minha voz. São dias que tu não estás onde deverias, tardes ocupadas com assuntos chatíssimos. São as horas que passas preocupada com a tua família, e eu, em menor escala, com a minha. Temos sim, corações enormes baby. Mas tu ocupas o meu com folga.
São as perguntas que tu sabes que eu não posso responder. São as respostas que eu não estou pronto para ouvir. Tu me provocas, eu te seduzo. Tu me chamas e eu atendo. Tu me queres e eu aceito. São os nossos amigos, a nossa história e a nossa bagagem. É a tua cama, é a minha, ainda maior sem ti… é o meu corpo, e o teu. É o som do teu telefone gritando quando eu ligo, e é a minha alma, morrendo sempre que me ligam e não és tu do outro lado.
O Rei Do Pecado.
O tempo passa, sinto as conseqüências. Eu vivo cada dia como se fosse o último. Como os brasileiros, eu tenho certeza da impunidade. Como as brasileiras, gostoso. Enganei-me a vida toda achando que o tempo ia diminuir a minha sensibilidade, transformar-me em um cínico. Não o fez, não o fará, ao contrário. O preciosismo pela paixão, a necessidade da identificação na outra metade, a fé de que será eterno… é isso que me move, e este sentimento refina-se a cada noite que passo me sentindo especial por não desistir de ser eu mesmo. Não me vulgarizo, divido bem o que é diversão e o que realmente tem valor para mim. As duvidas sempre continuarão, mas talvez elas deixem de me tirar o sono. Os medos também, eles me ocupam os sonhos, e uma metade das noites em claro. A outra é preenchida por ti, onde quer que tu estejas, representada no corpo de alguma dama que bebeu demais ou que gostou da minha barba imponente. Eu peco, sim, mas nos excessos, por obsessões particulares e por amar demais. Eu peco por falar a verdade, sempre, para quase qualquer pessoa. Eu peco, pois, às vezes minto para mim.
Sem comentários.Vampirismo.
É assim, vou te contar. No fundo eles queriam o que eu procuro, um sentimento puro, não bobo, imaturo, mas puro. No fundo eles invejam quem tem isso no peito. Quem não liga para os outros, para como dinheiro ou beleza pode influenciar no quanto se é amado. Quem quer alguém de verdade, de corpo e alma. No fundo eles sabem disso e, mais do que eu e tu, desejam sinceramente que fossem assim. Mas não são, não conseguem, são fracos. O caminho mais fácil é sempre o da aparência, o do medo e o da crítica. O caminho mais fácil é sempre vil, que toma tempo, energia e sofrimento. Sofrimento deles, meu e o teu também. Eu te amo querida mas saiba que estamos sujeitos a isso. E enquanto eu fico reclamando de quem critica toda e qualquer roupa que eu vista, sempre, eles se reúnem, um julgando o outro, um se mostrando para o outro, e sempre, sempre invejando o que amor que te dei. São horas, e noites, e meses, e anos… São décadas falando o que há de pior, rindo dos nossos erros, e sofrendo em comunhão por terem almas tão podres, tão fracas. São décadas sonhando, à noite em casa, ou chorando no banheiro do Belmonte, por um momento como o que eu tive a primeira vez que ouvi da tua boca que tu me amavas. E como a ultima, ontem.
Sem comentários.Sobre a minha amante.
Ela não faz o que eu quero, não se empenha. Não tem sapatos adequados às minhas fantasias, mas tem cabelos lindos e se veste de preto - mas sem achar que o mundo é feito de perdedores. Não atende os meus telefonemas por que não ouve, e é verdade, eu acredito. Não está solteira mas as vezes se sente só. Sexta de manhã e ela me faz sorrir. Sexta de manhã e ela me inspira. São mundos de gente acordando todo dia com uma disposição incrível para serem mais amados, entram em academias, gastam tubos com fraudes de comunicação, precisam se sentir quistos, precisam se sentir desejados. Sofrem tanto para sofrer menos. Estamos na sociedade de consumo, onde precisamos ser consumidos para, à noite, antes de chorar, nos sentirmos melhores que os amigos de infância, que tanto nos machucaram. Precisamos ser felizes. Ela também. Mas o que me fascina nessa mulher que usa plataformas para tentar equiparar a sua estatura a sua grandeza - impossível, digo, joga esta merda fora, desista - é o fato dela não só querer ser feliz como admitir isso para si mesma. E toda sexta-feira de manhã, para mim.
Sem comentários.Sonia é a mulher do poste.
São horas e horas escutando a mesma música. Eventualmente, nem que seja por cansaço, eu me identifico nela. Letras de música pop são como a mulher do poste, a cartomante que tem frases prontas para impressionar qualquer pessoa que a ela procura. E sempre acerta algum nervo, pois nós somos tão óbvios - não somos? Pois a música em questão é de uma ídola da minha adolescência, que ainda me levanta, que ainda me mexe. Eu a achava linda, apesar de ser gordinha e ruiva - de um tipo de ruiva estranho, não como essas moças que eu canto no bingo. Ardia com vontades platônicas ao olhar suas fotos em 12 polegadas e tremi quando ela entrou no palco, no Scala, para fazer playback e tomar dinheiro de um ilustrador pouco talentoso. Scala que, hoje, é um bingo. Enfim, eu ouço e ouço, paro, tomo um suco, ouço de novo. As vezes canto. Admito que ainda acho ela muito atraente, talvez por motivos diferentes. Uma vez um amigo me disse que gostava de mulher de moleton. Eu entendi aquilo como um apego à simplicidade, não como ele quis dizer na verdade - como uma pedofilia simbólica. Ela é assim, simples. Ela é a prova da falta da auto-estima, da subserviência amorosa, do desespero passional. Ela seria a principal atriz da ópera da frustração que a minha vida musicou. Ela é uma falsa imagem de sucesso, com provas e mais provas de falha. Ela é, talvez, a identidade que eu noto quando ouço as suas canções. Read more
Sem comentários.100.
E a verdade vem a tona, como o Nautilus de Verne. Não sou esse mito que eu mesmo ajudei a construir. Talvez esse mito só exista quando eu fecho os olhos ouvindo no iPod as músicas que eu gostaria que fossem minhas, vá saber. Mas o fato é que sou uma pessoa humilde, em todos os aspectos possíveis. Não quero luxo, não ligo. Pareço um cara exigente, mas na verdade eu gosto das coisas simples. Os queijos que eu consumo, que te encheram os olhos no outro dia, são iguarias menores, compradas com moedas, diretamente de um criador de cabras sem plano dentário. Minha vida me permite beber litros de suco de laranja, e isso parece criar uma esfera de extravagância em minha volta digna da casa do Michael Jackson. Compro tudo em quantidade justamente porque sou simples, mudo pouco, tenho hábitos. Valorizo meus amigos, ligo para minha mãe no fim da tarde e pergunto sobre a vida. Eu cumprimento todos no meu prédio, mesmo sem respostas adequadas, pois isso é o que eu quero para mim, uma vida simples e feliz. E isso me satisfaz. As vezes pareço um tolo, bebendo champanha como água. Gosto das bolhinhas. Eu finjo ser um cara deprimido e rio de mim mesmo a noite. É uma maneira agressiva de ser humilde, que, creia, sou. Eu mascaro, muitas vezes minha timidez com arrogância. É esquizofrênico, eu sei. Mas se você pensar bem, ser elogiado por todo mundo que respeito e ainda assim não acreditar, ou admitir, que eu tenha algum valor é, de fato, muita esquizofrenia. Este é o centésimo exemplo, nesta fase nova, de que não falo coisa com coisa. Nunca disse uma só verdade aqui, mas também nunca menti. Vejo beleza em axiomas que não acredito. Escrevo um texto choroso sobre um amor perdido pensando em Rosbife. Escrevo chorando de verdade sobre falcatruas, esquemas, e fraudes. Rio, enlouqueço e bebo - desisto de tudo e volto para cá. Para alimentar esse mito, que talvez só exista quando eu lembro de nós dois juntos.
Sem comentários.Escambo.
O que eu preciso fazer para ter as tuas mãos na minha nuca de novo? Foram doces importados - alfajores argentinos, barras suíças e balas da rainha - foram jantares, vídeos, e mais vídeos. Foram beijos roubados, muitos ofegantes. Trilhas sonoras idiossincráticas, e palavras ditas bem baixinho perto do ouvido, contrariando a letra da música, pedindo silêncio. O que eu preciso para vê-la esparramada na minha sala, dona do meu espaço, tentando me seduzir e sendo seduzida, tentando mandar em mim e sendo minha escrava. Gritando, me apertando, me mordendo. Machucando querendo dizer que gosta, reclamando do que te cativa, amando ser diferente. O que eu preciso para te ter aqui, responda e quem sabe, um dia, esse teu fogo apaga. Quem sabe.
Sem comentários.Tê-la: Jogo.
Sou do tipo de homem de que joga para ganhar. Eu luto, eu me esmero, eu me dedico. Eu estudo o oponente e faço com que todas as suas jogadas sejam previsíveis. Eu penso antes de qualquer coisa, eu sou sempre o melhor. Eu tenho de ser o melhor. E quando vejo que estou perdendo ao invés de vacilar, eu aquieto e viro o jogo, rápidamente, de uma vez só. Tem sido assim toda essa longa vida. Eu sou do tipo de homem que não sabe perder.
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