Archive for April, 2007
Sobre a escrita.
Eu deveria escrever sobre uma italiana baixinha que morava nas redondezas do meu bairro de infância. Sobre o quanto ela era diferente, inadequada. Sua mãe sempre reclamava sobre a vida que ela levava, saindo com ternos extra-largos, com gravatas, cintos e meias combinando, em cores cintilantes. As vezes sabia-se que ela virava a esquina da nossa rua, pois ela estava sempre cantando com uma voz esganiçada. Muito católica e muito segura. Mas eu não ouso. Minha inadequação sempre foi maior que a dela, mas a segurança dela me inspirou. Eu deveria escrever sobre um surfista que eu conheci. Ora ele ameaçava me bater, ora ele me tratava com dignidade e me ensinava sobre coisas que até hoje eu não experienciei. Certa vez, poucos anos atrás, ele tentou me atropelar, sem sucesso. Eu poderia escrever sobre uma loja que pertencia a um fiscal da aduana, que apreendia discos importados e os vendia, a preços módicos. Houve uma época, no começo dos CDs, em que todas as fitas k-7 estrangeiras entraram numa promoção, e eu andava a pé para casa para compra-las, uma a uma, com a tarifa do ônibus. Uma delas me causou tanta curiosidade que tive de repensar meus conceitos artísticos. Outra, me fez mudar de país. Uma terceira me fez adquirir a fama de um sujeito vanguardista - fama que mantenho sem esforço algum hoje em dia. Mas eu não escrevo sobre nada disso. Eu perco minhas noites preciosas ouvindo musicas gravadas em mono e pensando em formas de te expurgar da minha vida, as vezes em forma de texto, as vezes em forma de choro.
Sem comentários.Completíssima.
Enquanto tu fazes do chocolate o teu melhor amigo, e do álcool um amante ingrato, eu sigo a minha vida sem me preocupar muito. Penso em ti, e te admiro de longe. Mas ainda não tenho ganas de me envolver, não isso não. Eu te olho e te desejo, com calma, em segredo. Sem pressa, sem metas e sem tanta convicção que um dia serás minha. Mas o que eu sei, bem no fundo, é que caso chegue o dia do teu sorriso ser causado pelas minhas frases feitas, ao teu ouvido, e o teu arrepio pela minha mão na tua nuca, serás bem mais feliz e completa que agora.
Sem comentários.Casal.
Ela entra com calma na sala, com passos pequenos, sem olhar para cima. Um observador atento como eu perceberia que a sua saia preta ficou presa ao batente por uma fração de segundo, mas ela foi esperta e com um movimento suave e rápido consertou. Nessa hora, quem percebesse o tremer da mão dela veria o quanto estava nervosa. Entra achando-se horrível, mal vestida, e sem muito o que dizer - pensando em comida e feminismo. Ele estava sentado, numa das cadeiras que cobriam a parede esquerda da sala. Lia a seção de esportes de jornal barato - mas convenhamos, todo jornal tem a mesma linguagem na parte de esportes. Ele mexe o joelho freneticamente, como se estivesse nervoso, mas é falta de cálcio mesmo. Quando levanta os olhos e vê que mulher interessante e bonita entrou na sala, sua primeira reação foi de puxar o pé da perna que tremia, e que vestia um sapato surrado, com uma abertura pequena na frente. Puxou para baixo da cadeira e na penumbra escondeu o que achava tão feio - um sapato velho. Talvez ele tivesse medo que ela a julgasse como ele julga as pessoas. Ela finge que não mas está muito tensa. E procura uma revista, desta vez com um movimento brusco, sem fingir delicadeza, porque estava desconcentrada, pensando em quantos dias estava se masturbando sem parar. Ele levanta os olhos do jornal, bem de leve e volta com pressa para a leitura. Tenta se concentrar, afinal ele precisa daquela informação para poder interagir com os outros homens. Ele acha que se falar sobre qualquer outra coisa não será respeitado. Ele acha que se falar de amor vão confundi-lo com um viado, e isso… ah isso nunca. Ele acha que ela é perfeita, e que nunca olharia para ele. Ela acha que ele é a ultima bolacha do pacote, e que quer voltar para casa logo para pensar nele com a luz do seu quarto apagada. Um outra porta abre, uma enfermeira chama o próximo paciente, enquanto eu saio da sala e me dirijo ao caixa para mostrar o meu cartão do plano de saúde.
Sem comentários.Mentira.
Depois de passar anos lendo histórias de amor escritas por virgens, eu passei a perceber algo estranho nos meus sonhos. Os meus fazem mais sentido que a realidade - não parece difícil não é? Os meus sonhos tem pé e cabeça, tem seios e curvas. Eles fazem tanto sentido que me marcam - e às vezes me enganam no dia a dia, quando lembro de fatos que tenho certeza que são reais mas que aconteceram só enquanto eu dormia. Muitas outras vezes eu sou chamado a atenção sobre fatos que realmente ocorreram, no mundo dos vivos, mas que eu não lembro - ou porque quis esquecer ou porque são insólitos demais para serem reais. Será que são? Eu durmo e sofro, as vezes mais intesamente do que nesta vida mundana e competitiva… mas sempre te encontro, sempre… sempre linda. Eu durmo e vejo que nada foi em vão, e que talvez, nessa realidade irreal, tudo o que aconteceu entre a gente é mentira.
Sem comentários.Shanna Tová!
É um bom ano mesmo. São múltiplas mensagens, e-mails, contatos, ligações e ereções. Sou eu encantado por tê-la na minha vida de vez, dominando toda e qualquer hora que as nossas vidas nos deixam. Sou eu em jejum para perder um pouco de barriga, e rezando por 25 horas para que ela chegue, tranqüila e feliz - como o Yom Kippur, que por sorte vem cheio de graças. Às vezes eu penso em quanto tempo eu perdi, e em quantos anos eu poderia ter gritado aos berros Shanna Tová, mas no fundo eu sei que esse hiato foi preciso. No fundo eu lembro que eu sussurrava bem baixinho, numa espécie de lembrete pessoal, para eu me convencer que um dia eu a teria de vez.
Sem comentários.Sobre os teus ombros.
São parcos detalhes que me fazem te querer. As curvas do teu ombro, tão pálido, e assim, tão atraente. Dá-me ganas de morder, sem alô, sem olá, o teu pescoço longilíneo. Tão longe e tão presente, tu és aquela que eu tento conquistar. É a hora de pensar realmente o que eu tenho à minha volta e porque tu não estás aqui. Sou eu sozinho a olhar o que tens para me oferecer, e às vezes, sorrir com as tuas frases espetaculares. Sou eu, mesmo acompanhado, pensando no dia que eu vou ter a sorte de te ver ao vivo, e de apertar as tuas mãos, assim como me aperta o peito cada novidade que tenho sobre ti. Tão dedicada és com o que fazes que me maltratas, não tendo tempo para os meus devaneios, e talvez por isso eu queira tanto, um dia repousar nos teus ombros minhas mãos e meus medos.
Sem comentários.A Bela da Tarde.
Algumas vezes ela engasga quando ouve um comentário pernóstico, sempre acha que é com ela. Casada, com um bebê, uma sogra gorda morando consigo e dois cartões de crédito para pagar. Não pensa em outra coisa que não na melhor amiga, que enriqueceu de um dia pra outro casando-se com um milionário - queria ter essa sorte. Trabalha como secretária num escritório no centro, e às vezes encontra-se com um cliente da firma num casebre malcheiroso na Lapa. Sempre, por causa das insistentes insinuações dela, quando começaram a ser ver, recebe umas notas altas assim que se despede. É isso mesmo, ele passa para ela um dinheiro dizendo olha, para te ajudar, vai comprar uma roupa pra ti. Não faz muita diferença, ela não compra mesmo. Ela encontra seus amigos do curso técnico, todos vivendo suas vidas aparentemente muito bem, e se sente um lixo. Conta tudo para a tal amiga, menos a parte do pagamento. Ela não se sente prostituta. Mas veja só, não ia pegar muito bem né? Ela é invejosa, ela desacredita as pessoas que estão a sua volta, desestimula mesmo. Não parece acreditar em nada, não respeita ninguém - mas finge quando sente que é necessário. Sempre conversa sobre o valor das coisas, o quanto cada um é chique por agir como age. Sempre está no cheque especial. E secretamente, pensa em um primo, que uma vez, há muito tempo, a rejeitou. Mal sabe ela que ele, hoje em dia, a teria, e que masturba-se pensando nela freqüentemente.
Sem comentários.Let me kiss you.
Às vezes eu ando nas ruas de Ipanema assobiando, de óculos escuros, shorts e botas pretas, e a tua imagem vem a minha cabeça. Eu andei por aí, eu vi de tudo. Eu vivi mais que eu mesmo imaginava ser possível. Fecho os olhos, por um segundo, e penso em alguém que me agrade, és tu. Mulheres passam, para lá e para cá, com pressa, querendo comprar roupas para, quem sabe, um dia conquistar um cara que sinta por elas o que eu tenho por ti. Pedintes me ignoram e esse é o lado bom de ser destoante. Pedintes me ignoram, talvez, porque sabem que eu não tenho nada de palpável para eles. Feferéu toca uns acordes que me soam familiares, mas ainda assim eu não me sinto em casa. As vezes um cigarro me faz lembrar da terra fria e cinza que eu entendo como lar, as vezes ele me ajuda a esquecer que não estou lá. Sou eu, sozinho, pensando no dia que eu vou ter os meus lábios molhados pela tua língua. Atravesso todas as ruas sem parar, não ligo muito, mas coincidentemente os carros sempre estão parados. Se o sol está alto, e me queima a nuca, eu tento desviar, andando nas marquises dos prédios que abrigam negócios antigos - mas de carros nunca. E se eu fui atropelado, três ou nove vezes, foi pelo teu sorriso, e pelo teu abraço, sempre constrangedor.
Sem comentários.Entra, que eu entro depois.
Enquanto tu vês a tua vida ser tomada por mentiras, traições e decepções eu sigo te esperando. Eu lido com gente que não se aceita, com mulheres carentes e com intrigas adolescentes. Eu não mereço isso, e tu muito menos. São meses, são anos, esperando para ouvir outra vez a tua risada dedicada. Para ver os teus olhos de avelã me olhando com atenção, e eu fingindo estar tranqüilo. São anos de estórias que não mudaram nada entre a gente. Nós vivemos, e vivemos e vivemos, mas não se passou um só dia. Só havia a saudade, e talvez por causa dela, tu estiveste no meu peito por tanto tempo, tão próxima, tão intima. São anos sem as tuas pernas sobre as minhas, sem o teu cigarro na minha boca. Anos sem as gentilezas que tu dizes ser viciada, mas que nada mais são que o reflexo da minha adoração por ti. São anos sem eu olhar para o lado, e, ao ver-te, saber que a vida vale a pena.
Sem comentários.Há coisas que merecem ser ditas.
Tu és doce, não boba. Tu procuras a felicidade, procuras um abrigo nesta vida tão sem sentido, um teto. Tu és linda, és bela. Tu confias em mim de graça, tu te dás para mim sem pestanejar. Há coisas que merecem ser ditas, e estas são algumas delas. Aguardo ansiosamente a hora que vou te encontrar em algum bar mal freqüentado para te cuspi-las, ao vivo, olhando nos teus olhos atentos. Olhos que tu fechas ao meu pedido, quando estamos juntos. Há coisas que merecem ser ditas, outras que precisam. Tu és incrível.
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