Archive for June, 2007

Mensagem para ti.

Era a hora d’eu usar isso aqui para passar alguma mensagem. Caso eu me perda pelo mundo, caso eu seja preso numa prisão cigana no meio do nada, caso eu morra… não sei. São várias as chances d’eu precisar me comunicar com os poucos que se importam e tu fazes parte deste grupo nada seleto, mas pequeno. Um dia estava na tua casa e alguém ligou. Percebi que querias privacidade e me ausentei por alguns momentos. Subi as escadas e fui ao banheiro, tão conhecido meu - tantos banhos eu tomei na tua casa, não? Eis que me apoio na pia e olho com cansaço para o espelho, vejo um sujeito com olheiras e um belo topete. Vejo outra coisa ao desviar o meu olhar desse sujeito que se parece tanto com o meu passado, um vidro de remédio encomendado. E é neste momento que eu tive a idéia que me salvou a vida naquele agosto tão quente. Num rótulo de remédio eu escrevi todos os códigos que precisavas para suceder na tua empreitada. Mandei-te de Londres e ninguém desconfiou, nem a alfândega, nem a tua governanta, nem o teu marido. Talvez eu use este meio para falar contigo. Talvez eu já o faça há décadas. Talvez eu nunca mais precise, pois quanto me olhas nos olhos não vês o meu passado, mas o meu futuro, e contigo.

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Backstabbing.

Ao invés de passar meia hora escrevendo sobre a dor da traição, dando um pequeno conforto a mim mesmo e achando que estou tirando algo ruim de dentro de mim, quando na verdade estaria alimentando mais e mais o ódio e a dor, eu decidi por falar de sinceridade. A clássica sinceridade, inimiga de tantos e tão desejada no mundo - mesmo pelos que não fazem muito uso dela. Sinceridade não pode ser confundida com falta de tato - assim como a pegada tigre não pode ser confundida com violência sexual. Nem mesmo pode passar por burrice social - tagarelar todo e qualquer defeito das pessoas abertamente pode te jogar numa masmorra solitária que nem Jack Bauer te salvaria. A sinceridade começa por si mesmo. Sabermos o que somos, o que queremos, sermos fiéis aos axiomas que saem da nossa boca numa mesa de bar quando nos dão a sonhada chance de falar tudo aquilo que pensamos sozinhos no ônibus, voltando para a casa neste trânsito desgraçado. Não aguento mais tanta gente levantando bandeiras que usam para lavar a calçada. Tanta hipocrisia institucionalizada - sem drama, não estou nem falando de drogas ou sexo, todo mundo mente sobre isso mesmo, é sócio-patológico. Preocupa-me essencialmente essa necessidade que todo mundo anda tendo de ser perfeito. De nunca errar, de se justificar sem que peçam, de já ter ouvido falar em tudo antes sob o risco de soar defasado culturalmente. Essa carência de dizer o que se pensa - oras basta escrever num blog qualquer e calar a boca durante a noite. As noites são feitas para a poesia e não para discursos decorados. As noites são feitas para os silêncio da cumplicidade e as vezes da dor. Não me aborreça com o que te fez passar o dia todo no espelho decorando o que dizer para mim. Sinceridade é dizer eu não sei. Sinceridade é dizer que não gosta dessas coisas, mas que as vezes tem vontade de saber como é. Sinceridade às vezes é trair, mas dizer que sente muito. Mas com vontade, sendo sincero.

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Vergonha.

Dentre todas as pessoas que eu conheço, eu sou o que menos tem vergonha. Ou medo. Não me ruborizo, não me comovo. Não me apaixono, não sofro. Não sei o que é temer, ou ter preocupações. Vivo cada noite como se fosse a última e de dia, maldigo qualquer pessoa que cruza o meu caminho. Rio dos outros por não serem tão seguros como eu sou. Eu acho patético as pessoas esconderem quem elas são realmente dos outros, porque eu nunca fiz isso. Mas a verdade é que eu sei o quão difícil é se expor, e deveria ser mais condescendente, como sou com as pobres almas que me servem o correio. Eu estrago amores com uma frase, trepo com mulheres casadas e conquisto meninas inocentes, por esporte mesmo. Muitos bebem para perder seus freios psicológicos mas eu bebo para cria-los. Eu bebo para cair antes de falar demais. Eu bebo para que no auge da minha loucura alcoólica, possa me lembrar de quem me corrompeu quando eu ainda tinha vergonha.

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Ostracismo.

Tenho comigo que a maior desgraça que pode me acontecer é o ostracismo. Não me importo com o mundo, nem com adolescentes que sem empolgam com tão pouco - basta um casaco de couro surrado e um cigarro, quiças um aviator no rosto. Mas eu não gostaria de ter meu telefone tirado do teu speed dial - nem das outras tantas mulheres perdidas que me ligam de madrugada para que eu prove que elas ainda são desejadas. Não gostaria nada de que me esquecessem na hora de consultar uma informação vital, como o nome do guitarrista do The Tramps ou do diretor d’O Ultimo Espetáculo. Não gostaria que a mãe das minhas amigas se esquecessem de quem eu sou, e mesmo rindo das botas que uso e que já rodaram o mundo ainda me oferecem o que há de melhor na geladeira delas, abertamente desejando que eu despose suas filhas - e quem sabe secretamente desejando ter a metade da idade para quem sabe desfrutar um pouco do meu tempo. Não gostaria de morrer em vão, mas não quero drama. O que eu não posso é deixar tanta experiência com o insólito se esvair de uma maneira boçal. Não posso. Há de acontecer com classe, ou ao contrário, da maneira mais porca e vil possível. Não quero a fama, não quero ser reconhecido, mas exijo que as duas duzias de pessoas que se lembrem de mim o façam com um sorriso no rosto.

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Mesmo que eu não esteja mais aqui.

Sempre que eu chego em casa, sem a tua mão nos meus dedos, eu ouço a música da Tootsie. Ouço dentro da minha cabeça, aquela grande, velha e com senso absoluto de música. Ouço essa música que diz para mim, olha, foi mais um dia puxado, mas esse apartamento que você entra sozinho, que é pequeno mas é só seu, é o símbolo da sua vitória que um dia há de chegar - aquelas coisas. Sempre que eu chego em casa, sem a minha nuca molhada pelos teus beijos no taxi, eu penso no dia em que vou te ter de novo. Na noite que vais suar a minha cama, mesmo no ar-condicionado. Na manhã que vais me acordar com um beijo e que vamos, sinceramente, assistir a um belo filme sem que as minhas mãos escorreguem pelas tuas curvas. Mesmo que não acabemos o tal filme, quero tentar começar a vê-lo, com afinco. Quero acreditar.

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