Archive for July, 2007

A+.

Nada era mais fácil para ela do que arrancar suspiros - de paixão dos meninos e de inveja das meninas. Andava sólida pelos corredores do colégio, sendo cumprimentada por todos, pelos esportistas, pelas patricinhas, pelos nerds e pelos professores - que achavam, secretamente ou não, que valeria a pena um processo e o fim de uma carreira no magistério para ter uma noite com a ninfeta. Ela exalava sensualidade, e segurança. Era o símbolo de um sucesso inalcançável - uma família bem sucedida e perfeita, notas máximas, e principalmente uma beleza rara para uma adolescente. Era o tipo de beleza que não se vê só com os olhos. E o leitor pode achar por um momento que a tal família vivia de aparências, e que o pai tinha uma vida dupla com uma concubina porto-riquenha, ou mesmo um travesti gostoso. Ou que era corrupto e que não se separava por chantagem. Mas não. O pai era um sujeito polido, que amava a esposa. Libido não era o seu forte, mas ainda assim, ainda tinha seus momentos íntimos e fazia a mãe da garota muito feliz - de verdade. Aliás felicidade era seu nome do meio, e o seu bom humor era a marca registrada desta quarentona que sabia cozinhar e receber convidados como poucos. Às vezes, é verdade, ela tinha alguns momentos de melancolia quando lembrava do pai perdido tão cedo, e da infância com as tias que teimavam em faze-la comer mais do que queria, tantos anos atrás. Mas essa melancolia nunca virou agressividade nem mesmo tristeza. A garota não era filha única, tinha um irmão 6 anos mais novo que já era um gênio na escola e se dava bem com o computador. Ela não tinha do que se queixar, e nunca pediu para ninguém gostar dela - e esse era o problema. A inveja era crescente justamente porque ela tinha tudo sem muito esforço. A inveja era tamanha que nem mesmo o mais paranóico dos homens perceberia o que acontecia no círculo feminino quando se falava dela. E ninguém, por 3 anos seguidos soube que toda semana, as vezes mais de uma noite, ela saia de casa escondida e ia até um posto de gasolina ser sodomizada por uma atendente da loja de conveniência, com quilos a mais e um pinto de plástico.

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Y.M.C.A.

Ela tinha passado boa parte da jovem vida estudando. Negou-se aos prazeres mundanos que nos edificam tanto quanto um livro empoeirado. Passou cinco anos sem aceitar vários convites triviais - como uma cerveja, em pubs locais, com colegas da faculdade, depois de aulas pouco estimulantes. Mas uma certa vez ela foi ao cinema ver um filme que a fazia lembrar de sua infância, quando morava com a avó. Era sábado, uma re-exibição. Sentiu-se uma irresponsável pagando o preço cheio, tendo algum momento para si mesma, que não era voltado para a sua formação - e no fundo sentiu-se viva, mesmo com tão pouco. Voltou para a casa sentindo-se culpada e com vergonha de sorrir, mas sorrindo mesmo assim. Era um fim de tarde com raios de sol laranja, dequeles que batem na janela mostrando a poeira da casa. Subiu até seu quarto de cara fechada, mesmo sabendo que estava sozinha na casa que dividia com sua amiga de colégio, e trancou a porta. Encostou-se relaxada no umbral que mostrava o banheiro e gargalhou, escorregando até o chão. Adormeceu.

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Benson.

Desde que comecei a fumar cigarros mais longos, destes mentolados, minha vida começou a passar mais vagarosamente. Eu não sabia o quanto estava condicionado a passar exatos 4 minutos fumando, e no começo sempre me dava vontade de apaga-lo quando ainda tinha um terço de tabaco. Comecei a respirar mais fundo, acredite se quiser, e curtir mais a pausa motivada por um vício tão nojento. Comecei a olhar mais para o terreno baldio que vejo da sacada do meu escritório, onde misturo nicotina e cafeína 5 vezes ao dia. Neste terreno tem um mendigo, que às vezes defeca na minha frente. Às vezes ele dorme, e às vezes, muito raramente e o pego olhando em minha direção com um olhar de cumplicidade. Foi esse mendigo quem me mostrou que nada vale tanto quanto a gente acha. Que em certas ocasiões temos que esquecer o que nos ensinaram, que temos que nadar contra a maré, que temos que nos arriscar. Se tudo der errado ainda vou ter onde dormir, onde cagar, e com um pouco de sorte, onde achar outro personagem para me inspirar.

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Fodástica.

Ela nunca teve tanta sorte. Acorda e dorme com um sorriso no rosto. Ela esqueceu de quem teve de matar e de quantas vezes morreu. Ela sonha com o seu dia a dia, mesmo as vezes durante o almoço, com os olhos abertos, em algum café no centro de Nice. Nunca se sentiu assim - parece a todo momento que acabou de sair do banho. Sente-se limpa, leve, bem disposta e feliz, sente-se nova. Sente-se como eu me sinto toda vez que eu a vejo sorrir.

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