Archive for October, 2007

Para Natália Lage.

Eu roubei o clima de uma outra cidade para fingir que ficava a vontade contigo, mas sempre que estava ao teu lado segurava uma certa ansiedade entre cada palavra que eu dizia. Não sabia que ela estava morta, não sabia de nada. Nunca me passou pela cabeça que ela pudesse ter sobrevivido, mas ainda assim, não sabia que estava morta. Éramos três, bebendo água fervida e ouvindo sinfonias de discos grossos, gravados em 45 rpm, numa vitrola que só tocava em 33 1/3. Achávamos tudo muito soturno, e por anos apreciamos Schubert tocado vagarosamente e 6 semi-tons abaixo da partitura, sem saber que estava errado. Soaria estranho agora mas na época nos era muito familiar e agradável. Eu, tu e ela, três heterossexuais apaixonadas uma pela outra. Três damas modernas que nunca souberam o que era regra, e ainda assim, nunca fizeram nada de errado. Eu te amava e era louca por ela. Tu me usavas mas só mentia para ela. E ela ficava ali a nos observar sem julgamentos e sem restrições. Eu te beijava, as vezes, e vivíamos como ninfas. Ao mesmo tempo masturbava-me com formas fálicas e pensava em um futuro e saudável romance com alguém que tivesse o que dizer. De novo, repito, não sabia que ela estava morta. E sabia que em nenhum lugar do mundo, em nenhuma cidade, com qualquer clima, haveria qualquer chance da minha inocência sobreviver, mas ainda não sabia que ela estava morta.

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Mais Possibilidades.

Eu poderia começar esse texto dizendo o quanto é difícil ser eu mesmo. Minhas dores, meus medos e meus desejos inatingíveis. Bobagem, discurso bonito para dizer o óbvio, que sou de carne e osso e que como todo mundo tenho sentimentos e vontades, ou o que o valha. Eu não peco sem vontade, eu não grito sem dor e não beijo sem paixão, ah isso não. Posso dizer também que não guardo rancores mas que desprezo gente mau-carater. Que me apaixono constantemente por coisas, ou frases, ou mesmo cores. Ontem me apaixonei pelo doirado do pão que comprei na padaria local. Colorações doiradas de acepipes que vão ao forno são figurinhas repetidas no meu álbum de paixões instantâneas. Posso confidenciar que não tenho muita paciência com homens e que a companhia de uma mulher, em qualquer circunstância, me agrada mais que a de um marmanjo. Prefiro ser atendido por mulheres, atender mulheres. Comprar de mulheres, vender para mulheres. Conversar com mulheres, discutir com mulheres. Prefiro mulheres, e ponto. E tu, sem dúvida és a minha favorita. Eu poderia começar esse texto dizendo o quanto eu gosto de ti. O quanto penso em ti, o quanto te desejo. Poderia mesmo.

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Melee.

Eu sei que você esperava mais de mim. Sei que não queria que eu me tornasse esse sujeito trapaceiro, que engana as pessoas ao seu bel prazer, que faz dos outros instrumentos para manter o seu hedonismo. Que traí, furta e frauda. Mas a sua ausência tem parte nisso. Não estou me justificando, nada disso. Cansei de culpar a maneira que o mundo me trata pelos meus desvios de conduta. Mas sei que se você ainda estivesse aqui eu não me tornaria esse guerreiro do dia-a-dia, o vilão sujo que batalha ferozmente nesta guerra que foi inventada por ele.

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