Archive for November, 2007

Carta ao morador do 303.

Paul,

sabendo da sua falta de paciência tentarei ser breve. Não gosto de a coisa ter chegado neste nível, onde tenho que escrever diretamente à você para explicar que há de errado na sua vida. Sei que a minha felicidade, meus inúmeros amigos e minhas noites de sexo - que envolvem mulheres jovens, bem dispostas e bem amadas - têm tirado um pouco o seu sono. Não pelo barulho, como ousa culpar, bem alto, bravejando aos quatro ventos - pela janela, digo. Acho que é o que eu tenho que te incomoda. Sua vida não poderia estar pior, eu vejo pelos seus constantes porres nada divertidos, em bares locais. Você está ficando menos e menos vaidoso meu caro, você anda fedendo, tente cuidar disso. Quando você grita a noite, incomodando quase todo o bairro, e virando piada entre os aposentados como você, eu vejo o quanto a sua dor é grande. Acho que era a hora de pensar o que te fez perseguir essa vida que lhe faz tão infeliz. Esse casamento de fachada, ou melhor, essa masculinidade de fachada, essa familia apertada em um quarto-sala para que você possa dizer aos que te bolinavam na escola militar que mora perto da praia. Essa tremenda disposição para ser uma pessoa amarga só pode vir de uma insatisfação eterna e interna não? Entenda, não que me incomode o fato de você fazer uma verdadeira algazarra porque eu te mostro um modelo de vida que você nunca ousou perseguir, o que me incomoda é o quanto uma criatura tão miserável me mostra o quanto eu sou feliz.

Eu não devia ler as notícias na dor dos outros.

Pete

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Sinapse.

Com cuidado corto com um pequeno alicate o elástico do meu porta-moedas, para que consiga esconder a tal foto. Não tem nada demais, eu sei, mas não quero que policiais a encontrem, e percam o respeito comigo na entrada de um novo país. Também não quero perder a foto. Dobro as meias que tu me destes e um isqueiro, que deixaste na mesa do bar na noite que eu te conheci, cuja devolução nunca acontecida usei tantas vezes como desculpa para te ver. Foram nove meses de pura alegria, e pura hipocrisia. Tal qual o ciclo reprodutivo, nossa paixão começou e acabou. Talvez a natureza tenha um plano, mas ainda não descobri qual é. Talvez eu conisga descobrir o que me faz acordar todo dia olhando para esta foto e não mais para os teus olhos. Read more

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Orçamento.

Eu fumarei até morrer, eu pularei sempre que achar que a distância é maior que a abertura das minhas pernas e que assim me machucarei. Eu comerei até doer o estômago, eu vomitarei em todos os símbolos que tenho como preciosos, e talvez nos teus também. Eu magoarei aqueles que acordaram de bom humor e talvez ainda faça algo indigesto e de muito mau gosto. Eu escreverei errado e rirei de quem me corrige, e de quem me ignora. Eu viverei quebrando toda e qualquer relação cultural que eu tenha com o meio, e assim provando a mim mesmo que estas referências são eternas e não se desprendem de mim. Eu vou me prostituir, eu vou ser promíscuo. Eu vou encantar pessoas que nunca foram encantadas, vou matar, vou roubar. Vou trapacear. Eu vou te esquecer.

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