Archive for March, 2008

Só uma coisa importa.

Eu acho o seguinte. O sujeito tem 40 e poucos anos, e conseguiu tudo na vida. Ele tem um excelente emprego, onde faz pouco, manda muito e ganha bem. É respeitado. Aprendeu sobre vinhos, viajou pela Ásia, leu os melhores livros. Tem dinheiro para se vestir muito bem, o mesmo dinheiro que comprou as revistas que aprimoraram o seu gosto. Comprou um carro importado e mora no melhor condomínio, do melhor bairro, da melhor cidade. Ele conseguiu ser o melhor, ter o que há de melhor, de mais fino. Divorciou-se, emagreceu. Malha, corre e come nos melhores restaurantes. Acontece que, ultimamente, carrega nos braços para lá e para cá um mulher que não bate com o que eu descrevi. Não faz sentido. É bonita, uma beleza comum, mas é bonita. Tem um corpo invejável, apesar de cobri-lo com parcas peças, e de qualidade baixa. Cabelo grande, liso, com dois ou três tons alourados. Não tem muito o que dizer, não viajou, não leu. E é isso, acabou. Não tem mais o que se falar. A pergunta que fica é para que esse sujeito procurou sofisticação em tudo na sua vida, menos na pessoa que devia compartilhar isso com ele…

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Boca suja.

Todo dia a minha falta de orgulho e de decência leva-me à caixa de correio, numa esperança tola de receber uma carta tua. Ao invés de vibrar de felicidade, caso houvesse, lá dentro, algo vindo de ti, acho que seria terrível. Taciturno, saio da cama, não importa com quem dividida, e vou a porta, antes mesmo de esvaziar minha bexiga que tanto sofre com o excesso de cerveja que me faz dormir. Não emito um som, nada, e abro, todos os dias, a caixa com o mesmo cuidado e respeito que uma mãe coruja troca as fraldas de seu primeiro filho. Não me contento com uma olhadela, olho com curiosidade, como se alguma coisa pudesse se esconder num recipiente tão minúsculo. Minha leitura diária não permite emoções, e acho que esse é o motivo da minha eterna espera. E tu já me destes alguma coisa, pois a falta que tu me fazes é sem dúvida meu maior bem. Seja o que for que tu venhas a me enviar, uma carta escrita pela tua mão delicada ou um telegrama feito numa máquina moderna, um cartão, uma nota…  seja o que for, não há demônio na terra que me faça imune ao seu conteúdo, e é essa certeza que me faz, todo dia, afogar o meu orgulho a noite, e abrir uma caixa de metal sujo pela manhã.

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