Archive for May, 2008

Cura a dor.

Hoje ao acordar eu percebi uma coisa. Eu nunca te vi errar, vacilar. Eu nunca te vi fazer alguma coisa que a minha tão clamada inteligência condenasse. Acho que isso ajudaria, definitavemente, a te tirar desse pedestal que eu te pus sabe lá porquê. Tu estavas em um outro país e disseste que tivera um dia cheio. Sentamos em uma cantina e tu escolheste a cadeira que olhava a televisão, passando alguma coisa do teu trabalho tão secreto. Pedimos uma pizza daquelas mal feitas e algo ou alguém nos interrompeu. Era algum tipo de mágico, ou membro de uma seita, algo assim. Eu pulei da baixa janela do restaurante em cima do sujeito, que subia em um cavalo e segui com ele para uma estrada de terra, tentando desesperadamente enforca-lo com um colar invisível - até que eu consegui! E foi nesta hora que eu te vi de novo, vindo atrás de mim com a tua amiga, e também a cavalo. Tu disseste alguma coisa bonita sobre o que eu fiz e me disse que ia me ajudar a desmascarar o sujeito.

Eu ouço melodias que toquei para uma mulher qualquer, sem nenhum escrúpulo, e acho que imagino o teu cantor favorito nelas. Eu discuto com pessoas que nunca vão te substituir e tento, sempre, não acordar dos sonhos que tenho contigo. Acho ainda que um dia eu enlouqueço, mas antes disso eu consigo te ver errar. Mas errar de verdade, não como no dia que te vi partir.

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Enganos.

Tento, por meio dessa língua, transformar os meus sentimentos em um texto bonito. Quem sabe eu consiga comover alguém, não seria a primeira vez. Sou o mais sincero para os outros, cuspo verdades a torto e a direita. Mas minto, varias vezes, para mim mesmo. Eu sei de absolutamente tudo que acontece comigo, de cada porque, de cada limite. Sei de tudo mesmo, das minhas fraquezas, das minhas qualidades, de como eu vou reagir a absolutamente qualquer coisa. Mas eu me engano, para tornar a vida mais interessante e para, quem sabe, não permitir que essa minha consciência arrogante interrompa a possibilidade de algo inusitado acontecer. Eu sabia, quando te vi naquele Fevereiro vagabundo, num café sofisticado, que tu eras minha. Eu sabia que eu era teu, que tinha findado a busca. Eu menti para mim mesmo, que não era tão claro, que não era tão fácil, pelo jogo da vida. Para continuar seguindo, sem risco de perder a graça. Mas a graça só aumenta. Foram meses sem retorno, meses fazendo o papel do caçador, e tu, o de ocupada - que tanto reprisas. Meses sabendo que aconteceria, e mentindo para mim mesmo, duvidando que sim. Read more

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Ode aos Amantes Bohemios.

Dias desses eu te contei sobre o quanto cada frase que tu me escreves me arrepia, e é sobre isso que eu deveria estar escrevendo agora - sobre esse arrepios, talvez sobre essas frases. Talvez eu devesse satisfazer as tuas dúvidas instintivas, sobre sexo, sobre o quanto eu te desejo - eu admito que poderia ser mais safado nas letras que te componho. Mas tem uma música me ecoando nos tímpanos, com uns acordes bonitos, que me fazem pensar em outra coisa em que também já conversamos, a rotina. Eu andei sonhando sobre algumas coisas que eu gostaria de ter e ser quando eu era garoto e eu acho que gostaria de falar contigo sobre elas. Eu assobio na rua canções de outras pessoas, e as vezes penso em ti - e quando estou no meu piano eu toco notas que me aparecem sem razão e que me fazem pensar que talvez tu sejas a pessoa mais indicada para assobia-las. Eu tento, sem sucesso, diminuir as coisas que eu tenho para te contar, bem baixinho, bem perto do teu ouvido rosado, com uma das mãos te acariciando o cabelo e a outra te puxando, de leve para mim, pelo teu pescoço branquíssimo. Mas é inútil e as vezes eu acho que ao tentar reduzir a quantidade de coisas que eu tenho para te mostrar acabo aumentando as perguntas que eu tenho para te fazer… Já te escrevi várias vezes sobre vários assuntos, e sempre tentei te trazer para mim. Ainda que eu saiba que, mesmo esquizofrênicamente, tu já és minha, eu não paro de te chamar. E quando tu puderes estar do meu lado toda manhã de domingo, fingindo que não há dia de semana e que Nutella não engorda, acordando de mansinho, aos poucos, com as pernas entre as minhas e a boca pertinho da minha nuca, eu vou me virar, de modo que os nossos narizes virem amantes e vou te contar uma história. Uma história que conta o quanto eu te quero todo dia da mesma forma e sempre de uma maneira diferente.

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De como um homem nos conformes virou uma bagunça.

Vejo e revejo fotos, poses, frases feitas, gírias da moda e leio o tempo todo a mesma coisa: ‘ama-me, aceita-me, eu faço qualquer coisa para isso!’ São todos sem exceção querendo ser quistos, como todo mundo - até quando se quer ser diferente. Se eu te digo agora que isso é um texto de amor, tu ficas perdida, confusa, pensando o que eu posso estar tramando com os meus dedos no teclado com acentos gráficos da língua que escrevo. São pessoas constantemente julgando as outras para que terceiras as julguem de acordo com o que todas, em uníssono, parecem dizer o tempo todo - que só há uma forma de felicidade. Talvez hajam vários caminhos, mas todos eles levam à mesma coisa, ao mesmo poder aquisitivo ideal, à mesma estrutura familiar, amigos, informações, opiniões, à mesma qualidade de sexo selvagem mas ao mesmo tempo careta, enfim, à uma série de caixinhas que todos tentam o tempo todo entrar. Eu sempre achei um privilégio enorme poder entrar nessas caixas e ainda assim não querer. Como quem despreza o ouro, jogando-o longe, no meio da lagoa, sabe? A gente acha que essas coisas são interessantes, sempre, mas uma hora vem um rolo compressor que lhe empurra para essas caixinhas por uma questão de sobrevivência. Se eu um dia achei graça em desprezar essas caixas, hoje eu vejo que eu nunca tive o privilégio da escolha. Nunca pude entrar, mas as minhas ilusões de grandeza certamente influenciadas pela minha leve esquizofrenia achavam que eu podia. Olha, eu sou homem, branco, hetero, bem nascido, sempre morei em bons bairros, com boa educação, sou saudável e inteligente. Com esse perfil eu já mataria 90% dos preconceitos idiotas que as pessoas têm. Não só me excluiria do alvo, como teria credenciais para ser o arqueiro não é? Mas eu teimei, e achei graça em confundir todo mundo. Até que eu fiquei confuso e comecei a acreditar em mim. Pois cada mês que se passa é como se o tal rolo compressor fosse rolando mais um milimetro, em câmera lenta. Eu sei que eu vou morrer sem entrar na caixinha, e agora estou vendo a minha vida passar nos meus olhos. E se há uma parte minha que entrou em alguma caixinha foi o meu amor por ti, e eu consigo ver o privilégio que é estar dentro dela.

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Talvez.

Talvez um dia eu volte e você seja minha para sempre. Talvez não. Mas a cada noite que você se cobrir antes de dormir, sentindo frio mesmo no alto verão, você vai lembrar, ainda que por um momento efêmero o quanto eu te quis. O quanto eu fiz para te provar que você é única. O quanto eu te dei pedindo tão pouco de volta. Talvez um dia deixe de doer, deixe de ser duro pensar o por quê do meu lado da cama estar sem você, mesmo frequentemente não estando vazio. Essa história que amor não mata tem de ser re-escrita. O que eu tenho por você matou toda e qualquer chance d’eu ser feliz sem o teu sorriso, e eu acho que talvez seja amor.

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Idiota em Polonês é Idiota

Os idiotas sentam em cafés na cidade com meia finas e cigarros franceses, falam sobre mitos americanos, sobre férias imaginárias e sobre a superficialidade. Falam sobre a vida rotineira, a vida tola - trabalhar, pagar contas, voltar para a casa. Olham com superioridade os outros que passam na rua e gargalham de amores dos outros, gargalham ferozmente dos outros. Os idiotas sabem melhor que ninguem. Eles sabem que promessas não custam nada, pois não valem nada. Sabem que a distância mata, que tudo no fundo não passa de sexo, de dinheiro e de segurança - ainda que disfarçada de auto-confiança. Os idiotas falam de casos como o nosso como quem ensina a fazer torradas. Os idiotas recriam e revivem casos como o nosso como profissão e às vezes sentem um pouco de falta de viver algo assim. Mas só ás vezes, e, te juro, a vontade passa rápido. Não é inveja, é curiosidade. Os idiotas sabem que no fundo, no fundo mesmo, o amor não existe.

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