Archive for June, 2008
Peter Zarustica visita Las Vegas - Parte 02
Saio do banho disposto a me divertir pois eu sei que os próximos dias serão de pura tensão. Ela está deitada, acho que adormeceu finalmente. Volto para o closet abotoando uma camisa e visto o terno azul claro que denuncia que não sou daqui - não pela cor pálida e pouco usual, mas pelo seu corte, com lapelas curtas e sem bolsos. Faltam as meias, ei-las, e os sapatos. Ah, falta também um lenço. Se houve uma coisa que o meu pai me ensinou além de tudo sobre especulação imobiliária foi a necessidade de um lenço na vida de um homem. Sento-me num banco que parece feito para os pianos de Elton John e meus olhos pegam um brilho, de soslaio. Eu me agacho e vejo que é a chave que vim carregando com todo o cuidado desde a França, numa boceta Louis Vutton tipo necessáire. O que ela estava fazendo no chão? Olho para a bolsa maior, e vi a tal necessáire dentro dela, fechada. Estranho. Volto os olhos para a cantora, que, desinibida, dorme o sétimo sono, com as pernas abertas, mostrando uma depilação que parece ter sido feita em Miami - mas foi feita por ela mesma, na minha presença, ontem a tarde. Bom, não há muito o que fazer, ponho a chave no meu pequenino molho preso às minhas calças com uma mini-algema e saio do quarto. O sapato não é virgem, mas está lustrado, e nenhum idiota pode questionar o meu cacife neste hotel. Acho até que passarei as próximas horas sem gastar qualquer tostão - o estilo de gestão hoteleira americana me poupa qualquer trocado caso achem que eu estou disposto a perde-los sem esforço no Bacarat. Pois, não me importa, aperto o botão do elevador com um sede de champanha que me faria pagar qualquer conta por algumas taças d’ouro líquido. As portas se abrem, são dois sujeitos meio deslocados, meio adolescentes. Eu entro no elevador, e quero fazer uma piada como de costume, mas eles estão com iPods e eu desisto sem tentar. O que me lembra, tenho que silenciar o meu celular.
Sem comentários.Sobre as respostas que a gente inventa para si mesmo.
As vezes a gente não encontra pessoas na vida que sejam cruéis o suficiente para nos contar a verdade. Eu sei que eu nunca quis ser essa pessoa. Portanto eu minto. Minto por omissão, e ás vezes dou uma outra desculpa. E não me orgulho disso, mas sem dúvida não me envergonho. Há certas mentirinhas que são comuns até a um santo, como hoje eu estou ocupado, ou mesmo você é capaz. Mas há outras que requerem um certo nível de sangue-frio, que, por mais que eu faça parecer o contrário, não tenho. Eu não quero dizer a verdade porque eu não quero ser o responsável pelo suicídio de ninguém. É nesse nível. Também há o respeito, que ás vezes é tão grande que eu me pergunto se a tal verdade calada é tão verdadeira mesmo. Mas é. E dizer por aí, pelas costas, para outros ouvidos é sim, um ato baixo e de desespero, e isso sim eu me orgulho de não fazer. Se eu não preciso do confronto eu não preciso inventar respostas para provar a mim mesmo que estava certo. Nada disso. Mas eu tenho certeza que as vezes as minhas omissões geram questionamentos que as outras pessoas decidem responder da melhor maneira possível. Da maneira mais eficiente para explicar a rejeição. Funciona, eu saio como vilão e o outro lado sai confiante, e o melhor, vivo.
Sem comentários.Peter Zarustica visita Las Vegas - Parte 01
Ei-lo, o hotel. É doirado, brilha, mas não tem o luxo que estou acostumado na Europa. Vejo uns mancebos tentando fotografar a minha companhia, e tenho certeza que é por minha causa. Não pelo meu ego inchado, mas pela situação. É a primeira vez que me permitem visitar os Estados Unidos da América, depois do caso da mala, em 1987, e acho que o mundo tem interesse em quem está comigo. O que diabos estava acontecendo? Onde eu estava com a minha cabeça naquela época? Enfim, o fato se resume a mim e quem me acompanhava naquela noite e uns magrelos que nos perseguiram desde o aeroporto com câmeras digitais. Ela achava que era o alvo dos paparazzi. Eu sabia que não. Ela era uma cantora em plena decadência que ainda tinha delírios de grandeza. Eu a conheci em Dormans, no fim de semana que passei caçando patos com o meu amigo Julio Iglesias. Furei o olho de seu filho, que paquerava a tal cantora. Eu estive longe dos mundo ocidental quando ela fez algum sucesso e não sabia direito quem ela era, mas achei que tinha um certo valor e que suava gelado. Sim. Suar gelado é altamente atraente para um homem como eu. Eu também sabia que viria para Las Vegas, e o seu sotaque me gritava ‘sou americana‘ - portanto comecei a conversa com um convite. Conversa que só acabou mais tarde na banheira do quarto de hóspedes de Julio, com vista para o rio La Marne.
Eu digo a ela, hipócrita e condescendente como toda mulher gosta. Querida, eu vou te proteger dos paparazzi. você não quer ser fotografada com essa roupa amassada da viagem, quer? Virei o jogo. Agora ela não quer ser fotografada. Seguro na sua mão como quem diz ‘espera’ e saio do carro, sozinho. Deixo os moleques me fotografarem na frente da limousine e aperto suas mãos com 3 notas escocêsas de 100 libras dobradas entre os dedos. Eles vão embora e eu sorrio aliviado para o motorista que saiu do carro em solidariedade. Aliviado pois acho realmente que se me vissem aqui com uma ex-Clube do Mickey a minha visita não passaria desapercebida em tablóides de donas de casa. Não estou aqui para comer essa garota, isso eu fiz muito na França. Eu estava ali para quebrar o maior dos cassinos do mundo. E olha, não por dinheiro, por incrível que pareça - já que minha vida parece movida a isso. Eu farei isso por vingança. Por incrível que pareça.
Sem comentários.O Sorriso Perfeito.
Sabe-se lá quando eu vou poder escrever para ela de novo - ele pensou. Estava, como sempre, sem sono. Os motivos flutuam, mas dormir é tão difícil para ele quanto socialização para a maioria das pessoas. Eis que desta vez não era o futuro que lhe tirava o sono - mas o presente. Uma dor pontuda no peito causada por um amor despedaçado. Ele começa:
Dói-me a distância, a ruptura e a falta que tu me fazes. Dói-me saber que ainda me queres, e saber que sou teu. Foram alguns minutos de uma conversa estranha e apática que me farão pensar por um punhado de anos. Não há chances d’eu fechar meus olhos sem te ver. E o que mais arde é que ao abri-los não te vejo mais.
Eis que o sujeito pára. Respira e acende um cigarro. Continua, mesmo sem ter mais o que dizer.
Doí-me ter a certeza que a tua vida foi escrita para mim e que a minha não existe sem ti.
Está piegas, pensou. Eu devia me concentrar no meu romance, tão perto do fim - murmurou para si mesmo. Mas a vontade de tirar da própria alma o que ele ainda tinha para dizer é maior. Então ele apaga o cigarro que mal foi tragado e beberica uma dose de arak com água gasosa. Empurra a mão pesada contra a própria testa e volta à carta.
E essa dor há de matar-me - eu sei. Nada mais funciona, nada mais tem graça. Não abro mais a minha boca com medo de chorar. Não tenho fome, mas ando bebendo demais. Não durmo, não sonho, mas tenho pesadelos. No meio da minha bagunça, do meu bom-humor e da minha taquicardia reinavas tu, com o teu sorriso perfeito. E agora que não o tenho mais comigo, não sei mais imitá-lo.
E nesse momento ele percebeu que talvez o tal sorriso perfeito dela fosse também uma imitação. Lembrou de uma noite que a deixou ir, tarde da noite… e antes de voltar para a cama, passou no banheiro para se lavar. E no espelho velho daquele apartamentinho alugado ele viu um sujeito com uma bocarra enorme, rindo com todos os dentes para fora.
Sem comentários.Para com isso!
Se tu viras os olhos cada vez que ele te chama a atenção, para! Para com isso. Para com essa estória de fingir que te preocupas com os mendigos do teu país catando comida nos lixos, quando tu e eu sabemos que só o que fazes mesmo é reclamar deste sujeito. É um toque de celular que te tiras do sério, ou um olhar. As suas críticas te atingem como um petardo e não deveria ser assim. Eu corro, ás vezes, eu tento. Eu tento te ajudar, tenho segurar a tua onda. Nunca a dele. Não me importa o que ele faz. O que me importa é como tu reages. Tu não gostas de mim, mas sentes a minha falta quando eu estou longe, e isso já me é o suficiente para não desistir de fazer a tua vida um pouco menos hipócrita e infantil. Porque? Para com tanta pergunta!
Sem comentários.Song To Say Goodbye
O que não adianta é ficar pensando no porquê não. O porquê não a gente sabe. Mas eu me pego, e sei que vou me pegar por muito tempo, pensando no porquê de ter acontecido. No porquê de duas pessoas que nasceram para se ter não conseguem ficar juntas. Vamos, alguém tem de se identificar! Não é possível que a história mais repetida do mundo não comova a leitora. O que me surpreende é o fato de eu conseguir ver e entender a imaturidade de ambas as partes. E eu te digo o porquê da imaturidade, pois esse porquê eu sei. Porque maturidade vem de experiência e a gente não encontra tantas cara-metade assim na vida. Aliás, se encontrássemos, acho que seria uma boa idéia mudarmos o nome para cara-terço, ou cara-quarto. Cara-n, para os superficiais. Então os dois fazem bobagens, falam bobagens. Titubeiam, erram. É natural, ainda mais quando se é inexperiente. A gente sai de casa pensando em tudo que pode dar errado. E se o pneu furar - eu tenho estepe - e se me assaltarem - tenho seguro no cartão, eu não reajo - e se eu precisar voltar para a casa correndo - eu pego um taxi, et cetera, et cetera, et cetera. Ninguém sai de casa pensando em como agir se encontrar a alma gêmea. Pensando bem ninguém sai de casa pensando no que fazer se algo de bom acontecer. Como reagir. Se eu fui um promíscuo era porque eu estava te procurando, e agora que eu achei eu não preciso mais dessa máscara. Se eu traí para te ter, eu estava sendo muito, mas muito fiel a mim mesmo, ao que eu queria e a como minha alma se sentia plena quando estava contigo. Não adianta a freguesa ficar lendo as minhas linhas e tentar se achar aqui, aviso, não vai. Se tu és a que me mata e me cura, não estás em texto, nem em fotos. Estás na dor.
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