Archive for October, 2008
Uma coca-cola e dois canudos.
Ela não sabia nem mais o que queria. Não sabia mais o que era bom. Ela sabia que não mais queria se sentir tão só. Ela sabia que não mais queria ficar a sós consigo mesma - estava enlouquecendo. Estava de pé, em um balcão na esquina de uma rua movimentadíssima de Ipanema, rascunhando em um papel o que escreveria. Vinte palavras. Só vinte. Pensou por um momento em desistir, mas logo mudou de ideia, sem jeito por já ter chegado até ali, por já ter incomodado a moça dos classificados. Não sabia se mentia, se omitia, se maquiava. Não sabia se queria sexo, se queria amor. Ela não conseguia entender como alguém que chegou onde ela chegou, profissionalmente, que viajou o mundo todo, enfim, que já teve as experiências que ela teve,não conseguia nem ao menos segurar a caneta direito. O pavor que estava sentindo em se descrever ali, em vinte palavras, era insustentável. E para um homem qualquer, que pode não ter higiene, que pode não ter caráter. Quem vai julga-la é simplesmente alguém que pode comprar um jornal. Mas ela não estava com o medo de ser julgada, se ela chegasse a ser julgada já seria um avanço. Ela deixa a caneta cair, e lacrimeja pedindo desculpas a todos que a aguardavam. Não consegue mesmo, não adianta. Ela não consegue em vinte palavras escrever quem é e que tipo de pessoa quer encontrar.
Sem comentários.Até dói.
Sempre que me sentia mal, eu olhava o álbum de fotos que ele fez, e que publicou num desses sítios da web. À festa em que a maioria das fotos foi tirada, uma década atrás, estávamos todos. Todos os amigos, os amantes, as paixões perdidas e as que agora começam a aflorar. Todos lindos, jovens e felizes. Sempre que eu me pegava chorando eu acessava o tal álbum de fotos. Em uma delas, que me mostra de lado, fazendo pose, com um dos anfitriões, tem como legenda “LINDA!!!” - assim mesmo, em caixa alta, com três exclamações berrantes. Sempre me fez rir, pois era ele mesmo quem assinava cada legenda. E como éramos muitos, são muitos também os comentários. Ganhava horas e horas os lendo. Vários destes sao dele mesmo, que adicionava informações, elogios e mimos às legendas e aos outros comentários, as vezes não muito simpáticos, como alguns que fiz sem pensar, depois de beber para me fazer de boba nos bares da capital. Eu sempre soube do meu comportamento agressivo mas só agora sinto os resultados dele. Eu as vezes ficava notando o quão exageradamente atencioso ele era. O quão elegante, mesmo com uma fama contrária. O quanto ele deixava todos nós excitados, felizes. Até que um dia, de tanto olhar as mesmas notas, eu percebi uma coisa que não tinha percebido.
A data.
A data de um comentário específico era de 3 anos atrás. Assinada por ele, e sem dúvida escrita por ele. Ele não tinha a necessidade de se mostrar macho, e as vezes se permitia não ser tão cool. Nunca houve alguém tão cool quanto ele, e por isso mesmo ele sempre parecia o mais interessante de todos, até quando não queria parecer. Ele escreveu, embaixo da tal foto minha, depois de meia dúzia de outros comentários: Linda mesmo, até dói. Ele não estava mais vivo há 3 anos atrás. Mas ninguém além dele escreveria isso.
Sem comentários.Sobre o que eu não soube dizer.
A surpresa vem como de forma perversa, disfaçada de obviedade, de repetição. Seria apenas mais uma, mais um ✔ no caderno, mais um roteiro para as horas de solidão. Mas mostrou-se algo mais, mostrou-se completa, cheia de imperfeições e de actos intempestivos. Chegou como um tropeção, e mal olhou para trás. Chegou me falando de coisas que eu queria ouvir, e reclamando de tudo que me aborrece, mas que a minha fantasia adolescente não me deixava perceber.
Sem comentários.A vida é o que acontece enquanto não se está a fazer anos.
Todos olhando para ti, sabes? De um jeito meio maldoso, julgando-te, negando-te. Não sei explicar. E não é algo que me veio às tripas, não sou complexado. Era real, chegaram a apontar e tudo o mais. Coisa muito ruim. Uma energia que não harmonizava com a excitação que me apossou nos dias anteriores ao evento. Nada de glamour, nada de elegância, umas pessoas definitivamente mal intencionadas, outras desinteressadas e apáticas. Todos sem exceção vesidos de preto. Todos mascarados, e com um ar de superioridade, como se fosse os donos da festa. Eu sabia que não ali não era o meu lugar, mas como eles sabiam? Eu tive vontade de sair dali e ir para uma loja de discos - onde sempre me sinto muito bem - mas estava sem dinheiro. Quase te liguei. Não sabia que já tinhas voltado do teu retiro, na praia. Acabou que eu nem aproveitei muito, as minhas expectativas foram por água abaixo e quando a encontrei, não tinha mais vontade de nada.
Sem comentários.Nunca pensei.
Apesar de já ter passado por tudo isso antes eu ainda me sinto um novato, ainda não sei o que fazer. O que eu sei é que temos que seguir a intuição. As pessoas não mudam, já dizia a Srta Keys. Eu não posso perder o que há de melhor em mim esperando pelo dia em que eu vou convence-la a dar o que eu espero dela. E por melhor de mix não estou falando da minha juventude, das minhas ereções ininterruptas, ou do meu dinheiro. Mas do resto da minha inocência e do grama e meio que ainda me sobra de romantismo. Estou falando do choque que sinto ao lhe olhar nos olhos, do fervor que me aquece o peito quando penso nela. Do orgulho, da admiração e da esperança de ter uma vida que há muito havia desistido de procurar. Nunca pensei que fosse estar nesta situação. Sobre as lágrimas de sangre que chorei não vou comentar, não há porquê. Não a comparo com dores, e muito menos com os prazeres. Mas confesso que as vezes eu espero um sussurro no ouvido, de cumplicidade erótica, como aquele da pilastra, ou um simples elogio, como o que eu ouvi num daqueles taxis que eu abusava e que me amaldiçoaram. Eu gosto do jeito que tu me tratas. Eu gosto do jeito que tu me seduzes. Bastava isso. Bastava um pedido impossível, uma surpresa. Para ser sincero bastava uma atenção.
Sem comentários.O lar é um conceito romantizado.
O lar é um conceito romantizado, o amor é uma série de check boxes onde availiamos muito frívolamente o quanto ganhamos e o quanto perdemos nos dando à alguem. O lar é onde o seu travesseiro da sorte está, onde fica a pia onde a sua caneca favorita está para ser lavada. A gente passa tanto tempo procurando por amor que às vezes esquece para que precisava tanto de um. A gente quer um para contar tudo que passa pelas nossas mentes quando os olhos fechamos. Conheço quem se preocupa tanto em perder celulites, sob o medo eterno da rejeição, quando no fundo o foco deveria ser com a quantidade de sorrisos e carinhos a gente dá e por consequencia, recebe. Esses valores que lutamos contra todo dia nos corrompem. Essa vinheta vive e morre na esperança de que alguém a leia e acorde do sonho da trivialidade e perceba que não só de acordes maiores se faz uma canção popular. Não só com o que nos dizem, ouvimos, com o que nos mostram, vemos. Não só com acertos acertamos.
Sem comentários.








