2012.

Encontro-me sem as pernas, com um pouco de pena de mim mesmo. Tudo o que me resta é a tua imagem tatuada no meu cérebro. São horas como essa que me fazer esquecer que estou num cubículo sujo, cheirando a mofo, com ruídos de ratos vindo das paredes e larvas no chão sujo junto aos restos de comida barata. Um quarto e sala podre, na pior parte de Sheffield, enquanto tu estás a milhas de distância nas Olimpíadas de Londres. Tão perto e tão longe. Bebes a champanha que te ensinei a escolher, decerto com alguém mais jovem, num carro automático que vale mais que a minha vida. Sinto tua falta mas não sinto dor, mereço essa vida por tudo o que fiz. Não guardo rancores, desejo-te o melhor. Guardo apenas a marca da cera quente, que me deixaste no braço na última vez que te vi. Sei que a vida valeu a pena, só por causa daquela tarde chuvosa. Eu sinto o teu cheiro quando fecho os olhos e isso me mantém vivo. Não me toco, não ouso competir contigo. Deixo que a minha mente te represente, ainda que falte o toque. A vela era a tua arma no nosso jogo amoroso, e usaste-a muito bem, conseguindo tudo o que queria – inclusive a minha alma, e para sempre. Eu viajo, adormeço nesta mesma cadeira que agora estou te rabiscando essa carta, e começa o ritual. És tu, em lembrança, a assoprar o meu ouvido, balbuciando que me querias. São os teus longos cachos, que mesmo falsos, ainda me causam calafrios ao imagina-los nos meu peito. As tuas unhas, entrando devagar por dentre os meus cabelos e meus dedos escorregando por todos as tuas curvas. Não me mexo, por alguns segundos – ou horas talvez. Mas é quando minha mão dura e calejada vem ao antebraço, de leve, e sente a cicatriz que tu me deixastes, que eu sinto as minhas pernas de novo.