A Bela da Tarde.

Algumas vezes ela engasga quando ouve um comentário pernóstico, sempre acha que é com ela. Casada, com um bebê, uma sogra gorda morando consigo e dois cartões de crédito para pagar. Não pensa em outra coisa que não na melhor amiga, que enriqueceu de um dia pra outro casando-se com um milionário – queria ter essa sorte. Trabalha como secretária num escritório no centro, e às vezes encontra-se com um cliente da firma num casebre malcheiroso na Lapa. Sempre, por causa das insistentes insinuações dela, quando começaram a ser ver, recebe umas notas altas assim que se despede. É isso mesmo, ele passa para ela um dinheiro dizendo olha, para te ajudar, vai comprar uma roupa pra ti. Não faz muita diferença, ela não compra mesmo. Ela encontra seus amigos do curso técnico, todos vivendo suas vidas aparentemente muito bem, e se sente um lixo. Conta tudo para a tal amiga, menos a parte do pagamento. Ela não se sente prostituta. Mas veja só, não ia pegar muito bem né? Ela é invejosa, ela desacredita as pessoas que estão a sua volta, desestimula mesmo. Não parece acreditar em nada, não respeita ninguém – mas finge quando sente que é necessário. Sempre conversa sobre o valor das coisas, o quanto cada um é chique por agir como age. Sempre está no cheque especial. E secretamente, pensa em um primo, que uma vez, há muito tempo, a rejeitou. Mal sabe ela que ele, hoje em dia, a teria, e que masturba-se pensando nela freqüentemente.