Acorde suspenso

Não sei se foi a lógica que me fez te ligar, te falar sem medo sobre a vida, sobre as coisas que me perturbavam, me assustavam… Decerto houve uma dose de hormônios e processos químicos. Não me enganam mais os românticos, os tolos. Não são deles o meu receio, o tempo que eu gasto racionando o que eu sinto. Se houve um conflito internacional que afectara o sudeste da Ásia, por causa de reacções químicas — um sorriso maldoso, uma erecção, uma aflição qualquer — não há de ser essa tua escapulida que vai mudar o mundo. Testemunharemos as consequências, sejam elas quais forem e se tudo der errado, quiçá teremos que começar outra vez, quem sabe em outra cidade, em outro país. Quem sabe começaremos uma actividade para o animar-nos ao ócio, como coleccionar selos. Se tu perdes tempo escrevendo livros que não serão lidos pelos teus contemporâneos, com sorte pelos dos teus filhos, eu faço o mesmo, com discos que não rodam em vitrolas das minhas décadas de ouro. São as notas certas, mas não decido se eu estou feliz ou triste, se é um acorde maior ou menor — deixo em suspenso. ‘Decido depois’ — mas sabemos que não existe o temporário, tudo é perene. Se tu perdes tempo sensibilizando a tua teoria matemática, eu repito o erro, racionalizando as mesmas reacções químicas que me fizeram te ligar e te falar do meu dia.