Algo há de ceder

Pois se fui eu quem primeiro perdeu a paciência, foi ela quem perdeu a razão. Ela que levantou a voz diversas vezes sem motivo. Ela que não queria mais fazer sentido nos seus argumentos. Era a raiva de quem já havia sido tão requisitada, tão venerada e cobiçada, e agora não possuía ninguém ao seu lado. Eram seis da manha e ela pediu para que o garçom trouxesse seu bolo de aniversário. Estavam todos cansados – e eu, esgotado. Seis anos antes ela assoprara as velas em um grande estádio, com crianças, balões e fandangos. Agora éramos 9, muitos subalternos, que ali estavam por obrigação. Não seria constrangedor não fosse a sua própria decepção e seu olhar de descrença no que estava acontecendo. Ela percebeu que dali a coisa só pioraria e não parecia muito estimulada a continuar com aquilo. No dia seguinte, ligou dizendo que estava doente. Eu disse que sem ela não me valia a pena, que não contassem comigo. Isso não foi visto como um ato de fidelidade, por incrível que pareça. Foi visto como um ato de orgulho – como se eu quisesse, precisasse ou mesmo pudesse agir de tal forma. Na outra semana, assumidos os erros, nos vimos, numa casa com pouca mobilia mas com algumas garrafas de champanha doce. Dois dias depois ela se foi.