Até dói.

Sempre que me sentia mal, eu olhava o álbum de fotos que ele fez, e que publicou num desses sítios da web. À festa em que a maioria das fotos foi tirada, uma década atrás, estávamos todos. Todos os amigos, os amantes, as paixões perdidas e as que agora começam a aflorar. Todos lindos, jovens e felizes. Sempre que eu me pegava chorando eu acessava o tal álbum de fotos. Em uma delas, que me mostra de lado, fazendo pose, com um dos anfitriões, tem como legenda “LINDA!!!” – assim mesmo, em caixa alta, com três exclamações berrantes. Sempre me fez rir, pois era ele mesmo quem assinava cada legenda. E como éramos muitos, são muitos também os comentários. Ganhava horas e horas os lendo. Vários destes sao dele mesmo, que adicionava informações, elogios e mimos às legendas e aos outros comentários, as vezes não muito simpáticos, como alguns que fiz sem pensar, depois de beber para me fazer de boba nos bares da capital. Eu sempre soube do meu comportamento agressivo mas só agora sinto os resultados dele. Eu as vezes ficava notando o quão exageradamente atencioso ele era. O quão elegante, mesmo com uma fama contrária. O quanto ele deixava todos nós excitados, felizes. Até que um dia, de tanto olhar as mesmas notas, eu percebi uma coisa que não tinha percebido.

A data.

A data de um comentário específico era de 3 anos atrás. Assinada por ele, e sem dúvida escrita por ele. Ele não tinha a necessidade de se mostrar macho, e as vezes se permitia não ser tão cool. Nunca houve alguém tão cool quanto ele, e por isso mesmo ele sempre parecia o mais interessante de todos, até quando não queria parecer. Ele escreveu, embaixo da tal foto minha, depois de meia dúzia de outros comentários: Linda mesmo, até dói. Ele não estava mais vivo há 3 anos atrás. Mas ninguém além dele escreveria isso.