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Maldades, minúcias e mesquinharias.

Não era birra. Eu realmente preferia cruzar as pernas, me sentia mais à vontade, ainda que deitado. Não me lembro de ter feito nada de propósito, para irritar digo. Não tenho tempo para maldades, minúcias e mesquinharias. Não tenho tempo para pensar no que possa ou não te ofender. Acordo cedo, durmo tarde para termos o pão na mesa — o pão que eu mesmo faço. Ando rápido, falo rápido, passo por grosseiro. Sou directo, sou assertivo. A cada segundo que perco com trivialidades eu ouço um tic-tac ensurdecedor, como se eu fosse morrer em poucos dias e estivesse perdendo tempo na fila do banco. Dói-me e enlouquece-me, como a falta que tu me fazes.

Acorde suspenso

Não sei se foi a lógica que me fez te ligar, te falar sem medo sobre a vida, sobre as coisas que me perturbavam, me assustavam… Decerto houve uma dose de hormônios e processos químicos. Não me enganam mais os românticos, os tolos. Não são deles o meu receio, o tempo que eu gasto racionando o que eu sinto. Se houve um conflito internacional que afectara o sudeste da Ásia, por causa de reacções químicas — um sorriso maldoso, uma erecção, uma aflição qualquer — não há de ser essa tua escapulida que vai mudar o mundo. Testemunharemos as consequências, sejam elas quais forem e se tudo der errado, quiçá teremos que começar outra vez, quem sabe em outra cidade, em outro país. Quem sabe começaremos uma actividade para o animar-nos ao ócio, como coleccionar selos. Se tu perdes tempo escrevendo livros que não serão lidos pelos teus contemporâneos, com sorte pelos dos teus filhos, eu faço o mesmo, com discos que não rodam em vitrolas das minhas décadas de ouro. São as notas certas, mas não decido se eu estou feliz ou triste, se é um acorde maior ou menor — deixo em suspenso. ‘Decido depois’ — mas sabemos que não existe o temporário, tudo é perene. Se tu perdes tempo sensibilizando a tua teoria matemática, eu repito o erro, racionalizando as mesmas reacções químicas que me fizeram te ligar e te falar do meu dia.

B&W

Tinha mais animais de estimação que amigos, tinha mais livros que discos. Mais fotos que lembranças. Nunca fora convidado a qualquer festa. De forma que quando ele fez a sua propria, foi maravilhosa, estranha e incrível. O convite era uma carta, pessoal, exclusiva. Assinada com rubrica e sentimento. No meio da semana, no meio da tarde. Jovens semi-nus, cachorros e canapés. Damas com cigarrilhas e vestidos longos, rindo alto e descalçando-se esparramadas ao sofá. Gordos, magros, negros e chatos rindo, sem mesmo ter tido chance de alcançar o bar. A casa toda, o jardim, o segundo andar. A banheira, hora com uma garota de cabelos curtos, hora, com garrafas vazias de champanha. A piscina. Tatuagens e perucas. A falta de culpa, a falta de vergonha e a falta de perdão.

Sobre bebês, asfalto e o sul da França

Nada me desespera mais do que ter de enviar cartões de felicidades à casais que recebem um novo filho. Há algo de histérico no meu comportamento e penso sempre em cortar relações com estas pessoas - por muitas vezes o faço. Não quero mais bebês neste mundo e não quero me relacionar com eles. Não quero mais pessoas que repetirão os mesmos erros que todos repetem. Canso. Não me anima ver uma nova geração de estúpidos. Todos são, porque estes não serão? É o sujeito que usa o asfalto de má qualidade para ter outro contrato em alguns anos. É esse tipo de coisa, não me tragam mais pessoas ao mundo! Hora dessas eu corro e faço o que faria ao envelhecer, retiro-me ao sul da França e esqueço que existem amigos, familia ou mesmo novos bebês.

As vantagens e desvantagens de sermos geniais.

Se o meu esmero é feito de dor, haja propulsão. Não o faço por lamento, faço insistindo em te esquecer, ou tentando te trazer de volta por desprezo - algo novo, para variar. Se nós dois nos permitimos errar, criando neologismos como desculpa, desta vez erramos feio. E se a tua tristeza é mascarada por uma falsa arrogância, a minha é sonsa e mostra a cara. Mas nada de reclamações, afinal, pertencemos à um clube que não aceita outros sócios, somos exclusivos e por isso melhores que os outros. Usamos a depressão como desculpa para vestirmos moleton - mas nascemos para isso. Eu minto, digo que não, mas acordo com a sensação de que o meus olhos passaram algumas horas olhando nos teus, e te aceitando como posso te ter. Á noite. Ao sonhar.

Envolvimento

São as horas que passam vagarosamente e não a vida que é um tédio. Não posso delegar a culpa, infelizmente. Não serve para mim não serve para o cosmos. Pois, como alguém que ao sair do restaurante não consegue pensar na futura refeição eu me sinto, sem querer socialização qualquer pelos próximos meses. Queria pular as festas que tenho que ir, fazendo quem me conhece bem sorrir de nervoso pelo meu excesso de cinismo. Queria mesmo não te-las, mas sou popular, sou ídolo de gordos com vidas chatas e de crianças que almejam o estrelato sem saber sapatear. Sou sempre convidado e sempre acho tudo muito chato. Cada convite é mais uma obrigação e, de novo, não posso delegar culpa. Ao menos te poupo destas e de outras. E não te envolvo.

Sete

Durmo sete horas toda noite. Sete horas, não preciso de cronômetro, tampouco de despertador. A matemática fica perversa quando eu estou acordado. Não fico acesso por dezessete mas sim por dezesseis. O meu dia tem 23 horas e não adianta reclamar. Se hoje eu durmo às dez da noite, amanhã eu durmo às nove. Depois às oito e então às sete, até que no meio da tarde eu preciso dormir. Mas não tem problema, pois em sete dias eu já estou indo dormir pela manhã. E depois de madrugada. Isso me gera uma miríade de peculiaridades e uma vida diferente. Tenho quinze dias a mais no ano, todos mal aproveitados. Acordo em horas incomuns, onde não tenho a quem dar bom-dia. Durmo em horários em que muitos estão no dentista, ou açougue. Não há desordem, a matemática não falha. Mas o mundo tem outra conta e acha que a minha está errada.

Subo ou desço

Não foi uma cerveja que tomei, ainda que importada. Não foi afeição à pessoa ou mesmo à idéia. Não mesmo. Foi o desespero. Ou melhor foi o medo, o pavor de não saber absolutamente nada do que aconteceria. Nada. A falta de uma bússola, fosse ela magnética ou ideológica. Eu não sabia o que eu queria, o que seria de mim e como seria o dia seguinte. Eu nem mesmo apostaria as parcas moedas que tinha no bolso que o sol nasceria em algumas horas. Eu não sabia, não sabia mesmo. E pensando bem, ainda não sei.

Zero negativo.

Eis que chega a era onde a arte perdeu a graça e o valor, onde tudo e todo mundo é genial, onde nada mais parece autentico ou mesmo genuíno. Quando o que parece interessar os outros é o místico… é o metafísico, o mágico. O que fascina é o impossível. Pois é nesse mundo que eu levanto da cama com parcas forças para tentar de novo. É nesse mundo que eu secretamente tento ser um herói de mim mesmo, ainda que parecendo um vilão nos olhos de alguns, e um tolo aos ouvidos de outros. Ou outras. A minha motivação deixou de ser tão romântica, não tento provar à vida que ela está certa, ou que o cigarro não mata. Não tento provar a mim que vale a pena nem que não vale. Só tento fazer com que pare de doer um pouquinho para que na próxima vez que eu me levantar eu me sinta menos ilógico.

Encomenda que chega no dia certo.

Eis o texto que me pediste. Não é uma carta de amor, mas encosta no sentimento, já que o sinto, ainda que de mansinho, por ti. Não é um texto que tenta mudar as coisas como elas são, como foram, ou como serão. Não é um texto sobre nós, mas sobre ti. És mais do que capaz de encher alguns livros, ainda mais essas poucas linhas, com essa tua coisa que chamam de personalidade. És, minha cara, única e bastante interessante. Nada de firulas, nada de efeitos especiais. Um sorriso e só. Mas por dentro essa história de querer ser feliz a qualquer custo, de querer o melhor e ao mesmo tempo de querer tão pouco. Essa força que titubeia, vez ou outra, mas que não finda. Sobre fatos mundanos, sobre amenidades, nada se fala, não é preciso. Mas das coisas que o cinismo mata, das coisas que valem a pena, das coisas que nos motivavam a todos quando éramos mais novos. Isto de se crer em sinais, em símbolos, em datas - ainda que conscientemente saibamos nós dois que estes não devem ser muito levados a sério. Aliás quando levar-se a sério, e quando não. São as verdades pessoais que ficam nas mesmas gavetas, no mesmo andar da loja de departamentos. São essas setas que me indicam o tamanho da delícia que é te conhecer, e ter te encontrado. E o quiça que o passado perdeu ou que o futuro espera é pequeno - e é para ser pequeno. É para ser irrelevante. O que vale é essa dinâmica estranha de se sentir em casa, de querer bem, de ser sempre parcial. O que vale é o hoje, os docinhos que abrem o apetite de uma vida um pouco nova um pouco velha. Um pouco mais perto e tão distante - não parece? Mas um passo na jornada eterna da felicidade. E é tudo isso que faz de ti única. Eu sou um espectador cúmplice, um advogado das motivações e um patrocinador das dúvidas e das certezas. Eu sou um privilegiado e tu és uma honra. Essa não é uma carta de amor. Essa é uma carta que mostra como um espelho devia se comportar na tua casa, aos teus olhos. Ainda que não todo dia, ao menos hoje, e sempre que tu precisares.