Boca suja.

Todo dia a minha falta de orgulho e de decência leva-me à caixa de correio, numa esperança tola de receber uma carta tua. Ao invés de vibrar de felicidade, caso houvesse, lá dentro, algo vindo de ti, acho que seria terrível. Taciturno, saio da cama, não importa com quem dividida, e vou a porta, antes mesmo de esvaziar minha bexiga que tanto sofre com o excesso de cerveja que me faz dormir. Não emito um som, nada, e abro, todos os dias, a caixa com o mesmo cuidado e respeito que uma mãe coruja troca as fraldas de seu primeiro filho. Não me contento com uma olhadela, olho com curiosidade, como se alguma coisa pudesse se esconder num recipiente tão minúsculo. Minha leitura diária não permite emoções, e acho que esse é o motivo da minha eterna espera. E tu já me destes alguma coisa, pois a falta que tu me fazes é sem dúvida meu maior bem. Seja o que for que tu venhas a me enviar, uma carta escrita pela tua mão delicada ou um telegrama feito numa máquina moderna, um cartão, uma nota…  seja o que for, não há demônio na terra que me faça imune ao seu conteúdo, e é essa certeza que me faz, todo dia, afogar o meu orgulho a noite, e abrir uma caixa de metal sujo pela manhã.