Cadeira de balanço.

Canto pelas ruas de um subúrbio como se não soubesse que a minha voz arranhada incomoda a tantos. Canto alto, pulo e danço enquanto paro numa vitrina – mas rapidinho, pois volto a pular. Penduro-me nos postes como Gene Kelly e ajo como se não houvesse ninguem nas ruas. Mas há, e me observam. Minhas meias de cores gritantes, meus cabelos esvoaçantes e despenteados e minha animação irritante. As vezes grito mais alto quando vejo que me percebem de soslaio, só para que a pessoa fique sem graça de me olhar. Adoro isso, fazer com que as pessoas traiam seus próprios valores. Compro uma fatia de pizza, dessas gigantes, bem gordurosas, e continuo o ritual cantando com a boca cheia, segurando-a com uma das mãos levantadas, e acenando para crianças com a outra. Elas vibram ao me ver, dentro do carro dos pais, que dirigem apressados. Não uso walkman, ou iPod. Canto o que me vem na cabeça, na lingua que eu quiser, mesmo que eu não a conheça. Canto músicas tão antigas que não sei se realmente existiram. Mas todas contam a mesma história, e no refrão eu sempre desafino.