Carta ao morador do 303.

Paul,

sabendo da sua falta de paciência tentarei ser breve. Não gosto de a coisa ter chegado neste nível, onde tenho que escrever diretamente à você para explicar que há de errado na sua vida. Sei que a minha felicidade, meus inúmeros amigos e minhas noites de sexo – que envolvem mulheres jovens, bem dispostas e bem amadas – têm tirado um pouco o seu sono. Não pelo barulho, como ousa culpar, bem alto, bravejando aos quatro ventos – pela janela, digo. Acho que é o que eu tenho que te incomoda. Sua vida não poderia estar pior, eu vejo pelos seus constantes porres nada divertidos, em bares locais. Você está ficando menos e menos vaidoso meu caro, você anda fedendo, tente cuidar disso. Quando você grita a noite, incomodando quase todo o bairro, e virando piada entre os aposentados como você, eu vejo o quanto a sua dor é grande. Acho que era a hora de pensar o que te fez perseguir essa vida que lhe faz tão infeliz. Esse casamento de fachada, ou melhor, essa masculinidade de fachada, essa familia apertada em um quarto-sala para que você possa dizer aos que te bolinavam na escola militar que mora perto da praia. Essa tremenda disposição para ser uma pessoa amarga só pode vir de uma insatisfação eterna e interna não? Entenda, não que me incomode o fato de você fazer uma verdadeira algazarra porque eu te mostro um modelo de vida que você nunca ousou perseguir, o que me incomoda é o quanto uma criatura tão miserável me mostra o quanto eu sou feliz.

Eu não devia ler as notícias na dor dos outros.

Pete