Cartas de amor não existem se não forem escritas para a segunda pessoa, e esta é para ti.

Faze um favor. É a última coisa que eu vou te pedir, e para o resto da vida. Fala. Fala comigo. Gasta uma tarde do teu precioso tempo e me liga. Marcaremos naquele café novo, ou na livraria. Fala, desembucha. Cospe. Xinga. Grita, chora. Sério. Mas pela última vez. Mata, se for o caso. Eu preciso tirar isso tudo de dentro de mim. Não há ciência, crença ou teoria que me convença que eu preciso dessa dor no peito – mas o teu desprezo me canta que mereço. Não mereço. Cai o escudo, cai a educação. Dize o que sempre te machucou. Dize o que sempre te tirou o sono. Abre o teu medo. Não posso passar mais um dia achando que eu fui a culpa de tudo. Não há mais qualquer razão para fazeres de mim o algoz. Já cumpro a pena e qualquer que seja a verdade, não vou ser absolvido. Mas eu preciso de clemência, de um anestésico. Para de me fazer me odiar por ter te perdido. O meu tolo sonho já deixou há muito de ser possível - somente posso almejar uma migalha de paz, ainda que seja pequena e dolorosa. Faze, peço-te. Só preciso de uma coisa. Cospe.