Casal.

Ela entra com calma na sala, com passos pequenos, sem olhar para cima. Um observador atento como eu perceberia que a sua saia preta ficou presa ao batente por uma fração de segundo, mas ela foi esperta e com um movimento suave e rápido consertou. Nessa hora, quem percebesse o tremer da mão dela veria o quanto estava nervosa. Entra achando-se horrível, mal vestida, e sem muito o que dizer – pensando em comida e feminismo. Ele estava sentado, numa das cadeiras que cobriam a parede esquerda da sala. Lia a seção de esportes de jornal barato – mas convenhamos, todo jornal tem a mesma linguagem na parte de esportes. Ele mexe o joelho freneticamente, como se estivesse nervoso, mas é falta de cálcio mesmo. Quando levanta os olhos e vê que mulher interessante e bonita entrou na sala, sua primeira reação foi de puxar o pé da perna que tremia, e que vestia um sapato surrado, com uma abertura pequena na frente. Puxou para baixo da cadeira e na penumbra escondeu o que achava tão feio – um sapato velho. Talvez ele tivesse medo que ela a julgasse como ele julga as pessoas. Ela finge que não mas está muito tensa. E procura uma revista, desta vez com um movimento brusco, sem fingir delicadeza, porque estava desconcentrada, pensando em quantos dias estava se masturbando sem parar. Ele levanta os olhos do jornal, bem de leve e volta com pressa para a leitura. Tenta se concentrar, afinal ele precisa daquela informação para poder interagir com os outros homens. Ele acha que se falar sobre qualquer outra coisa não será respeitado. Ele acha que se falar de amor vão confundi-lo com um viado, e isso… ah isso nunca. Ele acha que ela é perfeita, e que nunca olharia para ele. Ela acha que ele é a ultima bolacha do pacote, e que quer voltar para casa logo para pensar nele com a luz do seu quarto apagada. Um outra porta abre, uma enfermeira chama o próximo paciente, enquanto eu saio da sala e me dirijo ao caixa para mostrar o meu cartão do plano de saúde.