Archive for 'Curitiba'

Ruído e pausa.

Há coisas sobre nós que não podemos falar. Não ousamos. Sobre nós dois e sobre nós mesmos. Para outros, para nós… Há rituais, ritmos e represálias. Não há o toque mas há uma língua. Escrevemos em códigos que só nós dois deciframos, ás vezes nem isso. Escrevemos porque precisamos, com um aperto no peito e um alívio entre as pernas. Há dúvidas e há certezas. Há ruído. Há a pausa. Mas como nem tudo é imperfeito, há também a electricidade. Há coisas que não podemos falar. Mas não há nada que não podemos ouvir.

Encomenda que chega no dia certo.

Eis o texto que me pediste. Não é uma carta de amor, mas encosta no sentimento, já que o sinto, ainda que de mansinho, por ti. Não é um texto que tenta mudar as coisas como elas são, como foram, ou como serão. Não é um texto sobre nós, mas sobre ti. És mais do que capaz de encher alguns livros, ainda mais essas poucas linhas, com essa tua coisa que chamam de personalidade. És, minha cara, única e bastante interessante. Nada de firulas, nada de efeitos especiais. Um sorriso e só. Mas por dentro essa história de querer ser feliz a qualquer custo, de querer o melhor e ao mesmo tempo de querer tão pouco. Essa força que titubeia, vez ou outra, mas que não finda. Sobre fatos mundanos, sobre amenidades, nada se fala, não é preciso. Mas das coisas que o cinismo mata, das coisas que valem a pena, das coisas que nos motivavam a todos quando éramos mais novos. Isto de se crer em sinais, em símbolos, em datas – ainda que conscientemente saibamos nós dois que estes não devem ser muito levados a sério. Aliás quando levar-se a sério, e quando não. São as verdades pessoais que ficam nas mesmas gavetas, no mesmo andar da loja de departamentos. São essas setas que me indicam o tamanho da delícia que é te conhecer, e ter te encontrado. E o quiça que o passado perdeu ou que o futuro espera é pequeno – e é para ser pequeno. É para ser irrelevante. O que vale é essa dinâmica estranha de se sentir em casa, de querer bem, de ser sempre parcial. O que vale é o hoje, os docinhos que abrem o apetite de uma vida um pouco nova um pouco velha. Um pouco mais perto e tão distante – não parece? Mas um passo na jornada eterna da felicidade. E é tudo isso que faz de ti única. Eu sou um espectador cúmplice, um advogado das motivações e um patrocinador das dúvidas e das certezas. Eu sou um privilegiado e tu és uma honra. Essa não é uma carta de amor. Essa é uma carta que mostra como um espelho devia se comportar na tua casa, aos teus olhos. Ainda que não todo dia, ao menos hoje, e sempre que tu precisares.