Archive for 'Manchester'

Diferente.

Olha o que eu poderia fazer. Por partes, eu poderia te conquistar. Eu poderia te mostrar umas coisas diferentes, e ouvir a tua opinião. Mostrar-te um lado teu que conheces, mas que não confias, não acreditas. Eu poderia entrar na tua vida de mansinho, de vez em quando. Sumir, e então voltar, com mais força. Eu poderia sussurrar-te uns elogios sinceros, umas mensagens de duplo sentido, às vezes. Falar ao telefone, mesmo interurbano, ou escrever-te uns bilhetes, dentro de livros. Fotografar-me sem foco para ti. E depois…. ignorar as tuas fraquezas como quem não as vê. Jogar muito sujo mas sempre dentro das regras. Deixar-te a vontade para abnegar quem te abraça. A vontade não falta. Olha, eu poderia te comer.

Foste amada.

Decerto que me pergunto o porquê do teu sorriso incessante quando fala comigo, mesmo depois desse tempo todo, mas tenho uma ou nove teorias que promovem meu ego um pouquinho. Mas não te questiono, não te confronto. Eu deixo acontecer, e procuro por sinais de que me provariam que eu seria aceito de volta à tua cama. Mas a minha amizade é sincera, te quero bem. Não te cumprimento por interesse — ainda que eu guarde o nosso quente passado em cenas gravadas na minha mente, não misturo as coisas. Trato-te como se entre nós nunca houve nada, nunca vi teus mamilos duros, nunca te fiz tremer nos meus braços. Guardo essa memória para momentos muito íntimos, onde me permito pensar nas poucas tardes em que eu te tive. Nunca dividimos contas, nunca acordamos um com o outro. Nunca tivemos esses apelidos de amantes, ou mesmo uma vida juntos, mas tu foste amada. Não fizemos tatuagens, não nos declaramos em Roma. Não brigamos por ciúmes, mas tu foste amada. Ainda que por algumas tardes, quando eu te fazia sorrir incessantemente.

Acorde suspenso

Não sei se foi a lógica que me fez te ligar, te falar sem medo sobre a vida, sobre as coisas que me perturbavam, me assustavam… Decerto houve uma dose de hormônios e processos químicos. Não me enganam mais os românticos, os tolos. Não são deles o meu receio, o tempo que eu gasto racionando o que eu sinto. Se houve um conflito internacional que afectara o sudeste da Ásia, por causa de reacções químicas — um sorriso maldoso, uma erecção, uma aflição qualquer — não há de ser essa tua escapulida que vai mudar o mundo. Testemunharemos as consequências, sejam elas quais forem e se tudo der errado, quiçá teremos que começar outra vez, quem sabe em outra cidade, em outro país. Quem sabe começaremos uma actividade para o animar-nos ao ócio, como coleccionar selos. Se tu perdes tempo escrevendo livros que não serão lidos pelos teus contemporâneos, com sorte pelos dos teus filhos, eu faço o mesmo, com discos que não rodam em vitrolas das minhas décadas de ouro. São as notas certas, mas não decido se eu estou feliz ou triste, se é um acorde maior ou menor — deixo em suspenso. ‘Decido depois’ — mas sabemos que não existe o temporário, tudo é perene. Se tu perdes tempo sensibilizando a tua teoria matemática, eu repito o erro, racionalizando as mesmas reacções químicas que me fizeram te ligar e te falar do meu dia.

As vantagens e desvantagens de sermos geniais.

Se o meu esmero é feito de dor, haja propulsão. Não o faço por lamento, faço insistindo em te esquecer, ou tentando te trazer de volta por desprezo – algo novo, para variar. Se nós dois nos permitimos errar, criando neologismos como desculpa, desta vez erramos feio. E se a tua tristeza é mascarada por uma falsa arrogância, a minha é sonsa e mostra a cara. Mas nada de reclamações, afinal, pertencemos à um clube que não aceita outros sócios, somos exclusivos e por isso melhores que os outros. Usamos a depressão como desculpa para vestirmos moleton – mas nascemos para isso. Eu minto, digo que não, mas acordo com a sensação de que o meus olhos passaram algumas horas olhando nos teus, e te aceitando como posso te ter. Á noite. Ao sonhar.

Envolvimento

São as horas que passam vagarosamente e não a vida que é um tédio. Não posso delegar a culpa, infelizmente. Não serve para mim não serve para o cosmos. Pois, como alguém que ao sair do restaurante não consegue pensar na futura refeição eu me sinto, sem querer socialização qualquer pelos próximos meses. Queria pular as festas que tenho que ir, fazendo quem me conhece bem sorrir de nervoso pelo meu excesso de cinismo. Queria mesmo não te-las, mas sou popular, sou ídolo de gordos com vidas chatas e de crianças que almejam o estrelato sem saber sapatear. Sou sempre convidado e sempre acho tudo muito chato. Cada convite é mais uma obrigação e, de novo, não posso delegar culpa. Ao menos te poupo destas e de outras. E não te envolvo.

Zero negativo.

Eis que chega a era onde a arte perdeu a graça e o valor, onde tudo e todo mundo é genial, onde nada mais parece autentico ou mesmo genuíno. Quando o que parece interessar os outros é o místico… é o metafísico, o mágico. O que fascina é o impossível. Pois é nesse mundo que eu levanto da cama com parcas forças para tentar de novo. É nesse mundo que eu secretamente tento ser um herói de mim mesmo, ainda que parecendo um vilão nos olhos de alguns, e um tolo aos ouvidos de outros. Ou outras. A minha motivação deixou de ser tão romântica, não tento provar à vida que ela está certa, ou que o cigarro não mata. Não tento provar a mim que vale a pena nem que não vale. Só tento fazer com que pare de doer um pouquinho para que na próxima vez que eu me levantar eu me sinta menos ilógico.

Algo há de ceder

Pois se fui eu quem primeiro perdeu a paciência, foi ela quem perdeu a razão. Ela que levantou a voz diversas vezes sem motivo. Ela que não queria mais fazer sentido nos seus argumentos. Era a raiva de quem já havia sido tão requisitada, tão venerada e cobiçada, e agora não possuía ninguém ao seu lado. Eram seis da manha e ela pediu para que o garçom trouxesse seu bolo de aniversário. Estavam todos cansados – e eu, esgotado. Seis anos antes ela assoprara as velas em um grande estádio, com crianças, balões e fandangos. Agora éramos 9, muitos subalternos, que ali estavam por obrigação. Não seria constrangedor não fosse a sua própria decepção e seu olhar de descrença no que estava acontecendo. Ela percebeu que dali a coisa só pioraria e não parecia muito estimulada a continuar com aquilo. No dia seguinte, ligou dizendo que estava doente. Eu disse que sem ela não me valia a pena, que não contassem comigo. Isso não foi visto como um ato de fidelidade, por incrível que pareça. Foi visto como um ato de orgulho – como se eu quisesse, precisasse ou mesmo pudesse agir de tal forma. Na outra semana, assumidos os erros, nos vimos, numa casa com pouca mobilia mas com algumas garrafas de champanha doce. Dois dias depois ela se foi.

Licensed to be wrong.

Sobre o que eu fiz naquele carro ninguém perguntava. Todos me olhavam, com um misto de pena e curiosidade. Todos apertavam o meu ombro, depois de um rápido e constrangedor cumprimento – ás vezes eu acho que só eu percebo essas coisas. Eu havia deixado uns papeis em um envelope no porta-luvas e tudo o que eu queria era sair dali, pega-los e me mandar. Mas não era a hora, eu tinha que dar algumas explicações, cumprir tradições sociais a ter o meu ombro apertado por pessoas que eu não ligo muito. E aquele garoto de olhos claros que estava dormindo no sofá me deixava em paz. Lembrava o meu irmão, quando pequeno e me dava uma sensação de que eu estava na minha infância quando eu tinha a certeza de que tudo sempre ia se resolver. A certeza de que eu não pagaria o preço. A verdade é que eu não estava abalado. Nem preocupado. Sabia das conseqüências e sabia que não tinha como escapar.

Siga-me.

Eu mando fotos. Eu me exponho a toda hora. Eu digo o que penso, grito as vezes. Eu ligo. Eu escrevo em sitio da rede, mando mensagens eletrônicas e deixo recados em fóruns digitais. Mas acontece que eu não compartilho dessa egolatria generalizada que todos parecem ter. Eu queria muito que você entendesse que eu não faço isso por atenção. Eu não poso para as fotos que mando, mas são minhas afinal. Não sei se o que eu penso, ou escrevo, merece destaque – seja aqui ou em um texto de 140 letras. Eu não acho que as minhas raízes e minhas historias pessoas possam ser chamadas de conteúdo. Nada disso. Eu não quero ser amado por tantos, com seguidores e amigos virtuais. Eu espalho a minha alma por aí para ver se o graveto pega fogo. Eu me exibo sem orgulho, sem classe. Eu não procuro ser amado. O que eu queria mesmo era ser compreendido.

Débito

Comprou um celular novo e um vestidinho. Comprou um par de botas, uma carteira de couro tingido e meias longas que vão até o seu joelho arredondado. Comprou um livro importado com fotos de senhoras idosas fazendo sexo. Também uma biografia de um ícone gay dos anos 90. Ainda, antes de voltar para a casa, ela tomou um café meio amargo e uma água com gás no restaurante de um hotel de um designer famoso.
Chega enfim ao seu prédio, com um sorriso cansado, que evapora ao entrar no elevador e ver no espelho o próprio rosto. Entra no apartamento, larga as bolsas, sentando no sofá meio sem jeito. Respira por um segundo e pega o celular novo. Olha atentamente para a tela, e titubeia. Lembra do email que recebeu de manhã cedo. Ela quer ligar para alguém, mas não sabe quem. Ela anda pela agenda com os dedos, devagar, considerando cada nome, inclusive o de desafetos. Não há para quem ligar nesta tarde de quinta-feira e, num relance, olhando para todas as sacolas de compras jogadas pelo tapete da sala, Chrissie percebe que falhou.