Archive for 'Manchester'

Licensed to be wrong.

Sobre o que eu fiz naquele carro ninguém perguntava. Todos me olhavam, com um misto de pena e curiosidade. Todos apertavam o meu ombro, depois de um rápido e constrangedor cumprimento - ás vezes eu acho que só eu percebo essas coisas. Eu havia deixado uns papeis em um envelope no porta-luvas e tudo o que eu queria era sair dali, pega-los e me mandar. Mas não era a hora, eu tinha que dar algumas explicações, cumprir tradições sociais a ter o meu ombro apertado por pessoas que eu não ligo muito. E aquele garoto de olhos claros que estava dormindo no sofá me deixava em paz. Lembrava o meu irmão, quando pequeno e me dava uma sensação de que eu estava na minha infância quando eu tinha a certeza de que tudo sempre ia se resolver. A certeza de que eu não pagaria o preço. A verdade é que eu não estava abalado. Nem preocupado. Sabia das conseqüências e sabia que não tinha como escapar.

Siga-me.

Eu mando fotos. Eu me exponho a toda hora. Eu digo o que penso, grito as vezes. Eu ligo. Eu escrevo em sitio da rede, mando mensagens eletrônicas e deixo recados em fóruns digitais. Mas acontece que eu não compartilho dessa egolatria generalizada que todos parecem ter. Eu queria muito que você entendesse que eu não faço isso por atenção. Eu não poso para as fotos que mando, mas são minhas afinal. Não sei se o que eu penso, ou escrevo, merece destaque - seja aqui ou em um texto de 140 letras. Eu não acho que as minhas raízes e minhas historias pessoas possam ser chamadas de conteúdo. Nada disso. Eu não quero ser amado por tantos, com seguidores e amigos virtuais. Eu espalho a minha alma por aí para ver se o graveto pega fogo. Eu me exibo sem orgulho, sem classe. Eu não procuro ser amado. O que eu queria mesmo era ser compreendido.

Débito

Comprou um celular novo e um vestidinho. Comprou um par de botas, uma carteira de couro tingido e meias longas que vão até o seu joelho arredondado. Comprou um livro importado com fotos de senhoras idosas fazendo sexo. Também uma biografia de um ícone gay dos anos 90. Ainda, antes de voltar para a casa, ela tomou um café meio amargo e uma água com gás no restaurante de um hotel de um designer famoso.
Chega enfim ao seu prédio, com um sorriso cansado, que evapora ao entrar no elevador e ver no espelho o próprio rosto. Entra no apartamento, larga as bolsas, sentando no sofá meio sem jeito. Respira por um segundo e pega o celular novo. Olha atentamente para a tela, e titubeia. Lembra do email que recebeu de manhã cedo. Ela quer ligar para alguém, mas não sabe quem. Ela anda pela agenda com os dedos, devagar, considerando cada nome, inclusive o de desafetos. Não há para quem ligar nesta tarde de quinta-feira e, num relance, olhando para todas as sacolas de compras jogadas pelo tapete da sala, Chrissie percebe que falhou.

Estragão.

Eu achava graça quando alguma pessoa querendo a minha aprovação, geralmente insegura, começa a me perguntar o que eu acho das coisas antes de emitir a própria opinião. Quando são homens, querem achar o que temos em comum. Quando mulheres, elas querem empatia pelo meio da critica, querem descobrir algo que detestamos juntos. Sempre sorri quando a conversa chegava nesse nível, depois da meia duzia de porradas que eu dava nos conceitos mais pessoais e solidos da vitima, fazendo-a se envergonhar das próprias palavras. Ai vem um silencio efemero, e logo depois o milagre. Cada frase que sai da boca da pessoa foi repensada 3 vezes, ensaiada na hesitação. Eu não acho mais graça nessa dança toda, mas ainda danço. Parte por costume, parte por uma moral esquisita - eu acho que estou prestando um serviço a criança, mostrando a ela que o mundo não é branco e preto, que as coisas não são bem como elas pensam. Que nada realmente importa. Pois bem. Depois de tanto tempo sendo esse professor poderoso, esse alvo de inveja, admiração e repulsa, eu descobri uma coisa. Não tem graça pular fases. Não tem graça aprender sobre a propria miseria em meia hora. Não tem graça não errar, não falar bobagem, não gastar o primeiro salário em algo inútil e caro achando que o mundo vai te olhar com mais interesse. Eu percebi que eu sou um estraga-prazeres.

Minha foto em anexo.

Olá,
não devia fazer isso mas estou te respondendo. Segue a foto pedida. Não foi tirada por um fotografo profissional, pois está devidamente enquadrada. Não aparento estar de bom-humor, mas ainda assim estou sorrindo. Não costumo mostrar-me em fotos como a maioria das pessoas. Não tento recriar uma situação de diversão, de convívio social. Não tiro fotos com copos na mão, alongando todos os músculos da face. Não tenho vontade de demonstrar num pedaço de papel o quão divertida foi a minha noite no bar, ou mesmo quantos amigos tenho. Segue esta mesma, que tirei na minha sala de banho, em um dia ensolarado - mas frio. Eu tinha acabado de receber a notícia que ela havia me deixado, mas não estava muito triste. O reflexo no espelho a direita é do entregador, da mercearia da esquina. Ele veio me deixar as várias garrafas de agua e vinho que comprei para o meu aniversário, que acabei não festejando aquele ano. Ele me teve a simpatia de tirar a foto. Peço-te que não a publique antes de consultar meu editor, por obséquio.

Charme

Charme não, quis dizer elegância. Elegância é agradecer os gestos dos outros, desejar bom dia mesmo aos carrancudos, e esperar a parceira gozar. Confunda elegância com viagens ao exterior que te dou um sopapo,  sem charme algum. Mas no rosto, olhando nos teus olhos, com hombridade. Não uma facada nas costas - muito deselegante. Elegância não é aceitar o comportamento sexual do outro, isso é educação - ou admiração velada. Também não é apertar a mão de quem agora acarinha quem já foi tua, isso é um sinal de que tu sabes que não és maior que o ciclo da vida, e de que prezas a civilidade. Elegância não é falar outras linguas, mas ser generoso e  autêntico em toda frase. Elegância é ir ao sono sabendo que todos à tua volta sabem quem tu amas e quem tu detestas, sem jogos, sem mentiras, sem necessidade de perdão. E dormir bem.

Sobre Nina Campos

Senão um simples playboy sem muita paciência para tecnologia, quem sou eu? Senão um mulherengo avesso à rotina, senão um hedonista. Não passo de mais um homem, diferente talvez por saber de suas fraquezas e forças, e por ter como alimentar seus simples hábitos. O dinheiro me fez viajar, me deu cultura e várias ressacas, por certo. Mas este não me deu mulheres, só facilitou o modo com que eu as trato. E eis que encontro alguem que não se anima com as minhas champanhas, com as minhas altas gorjetas ou com o meu chauffeur. Essa tal de Nina Campos não tem sentimentos. Ela não responde aos meus sinais, como todas as outras. É como um computador que não sei programar. Eis a verdade, Nina Campos é um robô.

Atmosfera

Não era para ser assim, mas sucumbi aos apelos dos teus, que me atazanaram aos montes pedindo que eu te escrevesse. Não houve nada, não houve culpa. Tu não és a responsável por nada, não causastes o fogo - acho que nem te aquecestes com ele. Eu achava inocentemente que isso era notório, mas ao que parece, a tua vida tem sido sufocada por duvidas e sentimentos inúteis como a culpa. Pois, eximas esse teu peito da dor pois de ti não guardo nada além de superficialidades. Para te ser sincero acho que toda a balbúrdia não teria sido, caso eu entrasse naquele bendito avião que me levaria para longe. Talvez esta carta seria diferente. Talvez de saudades minhas, talvez de alívio.

Sobre a futilidade e o exercício do ego.

O meu total desacordo com o ambiente em que vivo, onde falo uma língua para comprar pão e outra para ganhá-lo, é a causa desses atos tão contraditórios. Ou talvez a conseqüência. Este sítio é um exemplo da minha dissonância existencial, onde escrevo para ninguém e ainda assim decido gastar alguns milhares da moeda local para mantê-lo - e renova-lo. É como a frígida, feia, que teima em mandar o vestido de noiva para tinturaria todo ano, mesmo sabendo que nunca vai se casar. Ao menos meus textos não vieram de um brechó em liquidação por conta de um despejo. Acho também que a fantasia da coitada, a de um dia, quem sabe viver o que vê em novelas diurnas não pode ser comparado com a minha futilidade, minha vaidade estética. Ainda que eu imagine que talvez alguém me leia neste canto aqui, meu sonho nunca foi ser achado - mas sim, achar-me. Quem sabe algum dia desses uma doce leitora me escreva dizendo que me leu e que sabia o que eu estava falando, ou que me achou másculo, tendo somente essa papagaiada toda que pus para enfeitar as escritas como referência. Quem sabe. Mas essa nunca foi a idéia.

Haja forças, haja estímulo, devo eu aqui continuar a contar umas coisas que há muito me esqueci - ou ao menos o quis. Devo rasbicar coisas na minha cabeça e as digitar sem um backspace sequer, sem titubeio, como quem desabafa o discurso que ensaiou no espelho de um hotel barato. Eu devo acima de tudo, entre o fato e a lenda, publicar a mentira, a sujeira que a faria enrubescer, mas que adorna meu ego. Como este novo desenho.

Minha falta de ambição.

Você já deveria saber da minha falta de ambição. Aliás, me admira muito essa sua frase. Você já deveria saber que eu teimo em esquecer que existem outros, que eu criei um mundo só meu onde eu convido umas pessoas perdidas para me apreciarem. Uma piada interna que só eu acho graça mas que muitos riem. Eu acho que é uma questão de identidade, ás vezes. Acho que eu atraio perdidos pois eu mesmo não sei onde estou. Ou mesmo para onde vou. Eu te disse várias vezes que não queria falar sobre isso, mas você me provocou - então vamos lá. Não quero, não gosto. Obrigado mas não quero me submeter à escolha, à competição. Não é uma questão de orgulho, não mesmo. Não tenho medo de perder. Acho que o que eu temo é ganhar.