Archive for 'Manchester'

Uma coca-cola e dois canudos.

Ela não sabia nem mais o que queria. Não sabia mais o que era bom. Ela sabia que não mais queria se sentir tão só. Ela sabia que não mais queria ficar a sós consigo mesma - estava enlouquecendo. Estava de pé, em um balcão na esquina de uma rua movimentadíssima de Ipanema, rascunhando em um papel o que escreveria. Vinte palavras. Só vinte. Pensou por um momento em desistir, mas logo mudou de ideia, sem jeito por já ter chegado até ali, por já ter incomodado a moça dos classificados. Não sabia se mentia, se omitia, se maquiava. Não sabia se queria sexo, se queria amor. Ela não conseguia entender como alguém que chegou onde ela chegou, profissionalmente, que viajou o mundo todo, enfim, que já teve as experiências que ela teve, não conseguia nem ao menos segurar a caneta direito. O pavor que estava sentindo em se descrever ali, em vinte palavras, era insustentável. E para um homem qualquer, que pode não ter higiene, que pode não ter caráter. Quem vai julga-la é simplesmente alguém que pode comprar um jornal. Mas ela não estava com o medo de ser julgada, se ela chegasse a ser julgada já seria um avanço. Ela deixa a caneta cair, e lacrimeja pedindo desculpas a todos que a aguardavam. Não consegue mesmo, não adianta. Ela não consegue em vinte palavras escrever quem é e que tipo de pessoa quer encontrar.

Até dói.

Sempre que me sentia mal, eu olhava o álbum de fotos que ele fez, e que publicou num desses sítios da web. À festa em que a maioria das fotos foi tirada, uma década atrás, estávamos todos. Todos os amigos, os amantes, as paixões perdidas e as que agora começam a aflorar. Todos lindos, jovens e felizes. Sempre que eu me pegava chorando eu acessava o tal álbum de fotos. Em uma delas, que me mostra de lado, fazendo pose, com um dos anfitriões, tem como legenda “LINDA!!!” - assim mesmo, em caixa alta, com três exclamações berrantes. Sempre me fez rir, pois era ele mesmo quem assinava cada legenda. E como éramos muitos, são muitos também os comentários. Ganhava horas e horas os lendo. Vários destes sao dele mesmo, que adicionava informações, elogios e mimos às legendas e aos outros comentários, as vezes não muito simpáticos, como alguns que fiz sem pensar, depois de beber para me fazer de boba nos bares da capital. Eu sempre soube do meu comportamento agressivo mas só agora sinto os resultados dele. Eu as vezes ficava notando o quão exageradamente atencioso ele era. O quão elegante, mesmo com uma fama contrária. O quanto ele deixava todos nós excitados, felizes. Até que um dia, de tanto olhar as mesmas notas, eu percebi uma coisa que não tinha percebido.

A data.

A data de um comentário específico era de 3 anos atrás. Assinada por ele, e sem dúvida escrita por ele. Ele não tinha a necessidade de se mostrar macho, e as vezes se permitia não ser tão cool. Nunca houve alguém tão cool quanto ele, e por isso mesmo ele sempre parecia o mais interessante de todos, até quando não queria parecer. Ele escreveu, embaixo da tal foto minha, depois de meia dúzia de outros comentários: Linda mesmo, até dói. Ele não estava mais vivo há 3 anos atrás. Mas ninguém além dele escreveria isso.

Sobre o que eu não soube dizer.

A surpresa vem como de forma perversa, disfaçada de obviedade, de repetição. Seria apenas mais uma, mais um ✔ no caderno, mais um roteiro para as horas de solidão. Mas mostrou-se algo mais, mostrou-se completa, cheia de imperfeições e de actos intempestivos. Chegou como um tropeção, e mal olhou para trás. Chegou me falando de coisas que eu queria ouvir, e reclamando de tudo que me aborrece, mas que a minha fantasia adolescente não me deixava perceber.

A vida é o que acontece enquanto não se está a fazer anos.

Todos olhando para ti, sabes? De um jeito meio maldoso, julgando-te, negando-te. Não sei explicar. E não é algo que me veio às tripas, não sou complexado. Era real, chegaram a apontar e tudo o mais. Coisa muito ruim. Uma energia que não harmonizava com a excitação que me apossou nos dias anteriores ao evento. Nada de glamour, nada de elegância, umas pessoas definitivamente mal intencionadas, outras desinteressadas e apáticas. Todos sem exceção vesidos de preto. Todos mascarados, e com um ar de superioridade, como se fosse os donos da festa. Eu sabia que não ali não era o meu lugar, mas como eles sabiam? Eu tive vontade de sair dali e ir para uma loja de discos - onde sempre me sinto muito bem - mas estava sem dinheiro. Quase te liguei. Não sabia que já tinhas voltado do teu retiro, na praia. Acabou que eu nem aproveitei muito, as minhas expectativas foram por água abaixo e quando a encontrei, não tinha mais vontade de nada.

Nunca pensei.

Apesar de já ter passado por tudo isso antes eu ainda me sinto um novato, ainda não sei o que fazer. O que eu sei é que temos que seguir a intuição. As pessoas não mudam, já dizia a Srta Keys. Eu não posso perder o que há de melhor em mim esperando pelo dia em que eu vou convence-la a dar o que eu espero dela. E por melhor de mix não estou falando da minha juventude, das minhas ereções ininterruptas, ou do meu dinheiro. Mas do resto da minha inocência e do grama e meio que ainda me sobra de romantismo. Estou falando do choque que sinto ao lhe olhar nos olhos, do fervor que me aquece o peito quando penso nela. Do orgulho, da admiração e da esperança de ter uma vida que há muito havia desistido de procurar. Nunca pensei que fosse estar nesta situação. Sobre as lágrimas de sangre que chorei não vou comentar, não há porquê. Não a comparo com dores, e muito menos com os prazeres. Mas confesso que as vezes eu espero um sussurro no ouvido, de cumplicidade erótica, como aquele da pilastra, ou um simples elogio, como o que eu ouvi num daqueles taxis que eu abusava e que me amaldiçoaram. Eu gosto do jeito que tu me tratas. Eu gosto do jeito que tu me seduzes. Bastava isso.  Bastava um pedido impossível, uma surpresa. Para ser sincero bastava uma atenção.

O lar é um conceito romantizado.

O lar é um conceito romantizado, o amor é uma série de check boxes onde availiamos muito frívolamente o quanto ganhamos e o quanto perdemos nos dando à alguem. O lar é onde o seu travesseiro da sorte está, onde fica a pia onde a sua caneca favorita está para ser lavada. A gente passa tanto tempo procurando por amor que às vezes esquece para que precisava tanto de um. A gente quer um para contar tudo que passa pelas nossas mentes quando os olhos fechamos. Conheço quem se preocupa tanto em perder celulites, sob o medo eterno da rejeição, quando no fundo o foco deveria ser com a quantidade de sorrisos e carinhos a gente dá e por consequencia, recebe. Esses valores que lutamos contra todo dia nos corrompem. Essa vinheta vive e morre na esperança de que alguém a leia e acorde do sonho da trivialidade e perceba que não só de acordes maiores se faz uma canção popular. Não só com o que nos dizem, ouvimos, com o que nos mostram, vemos. Não só com acertos acertamos.

30 dias para o fracasso.

Soube que andas com uma aí que te pôe para baixo, que ri de ti. Que não te dá a atenção que mereces e que te desrespeita constantemente. São poucas as horas do dia agora, mas não acordei cedo - ainda não fui para a cama. Andei lendo sobre homens talentosos e ouvi essa tua história, entre o sibilar das páginas viradas pelos meus dedos curtos e grossos. Alguem me sussurrou. Alguém me disse que tu tens um mês entregue á tua própria sorte para fazê-la perceber que estás definhando. Sorte meu caro, sorte. Um mês pode não parecer nada mas forma hábitos. Conta para ela que sabes de tudo, conta que sabes dos seus complexos, conta que sabes dos seus medos. Conta quais as coisas que tu dissestes e que são inverdades, joga limpo. Meta as fuças dela suas mentiras e verdades, fale das que foram, e fale das que ainda vêm. Eu, teu amigo, te dou um mês. Um mês, depois, não te aborreço mais com cobranças, ok? Mas diga a ela que não mais queres alguém que só observa, mas que não participa.

Eu não o convidei, não venha.

Diga a ele que eu não gosto de ninguém. Diga que me irrita muito a sua capacidade de ser o mesmo sempre, não importam as mudanças climáticas, não importam as mortes. Sei lá, inventa uma desculpa. Diga que eu o acho chato. Diga que eu não tenho tempo para pessoas que não querem ser melhores, que não tenho paciência para quem está estagnado mentalmente. Diga isso, estagnado mentalmente. Ou diga que nunca fui muito com a cara dele e que eu não admito traições. Isso parece pesado, não diga isso não. Até porque admito, não admito com ele pois não vou com a sua cara. Diga o que quiser, numa boa, mas lembre-o que é pessoal.

A experiência maléfica

Há um filme com o Johnny Butter em que se conta a história de um italiano pobre, que passou a vida comendo arroz, e que um belo dia comeu risoto, talvez por caridade de alguém. O sujeito não conseguiu mas suportar a idéia de voltar para o arroz. Assim é a experiência maléfica, onde tentamos algo que sabemos que será insuportavelmente maravilhoso, e que há uma grande chance de não mais conseguirmos viver sem o resultado. Assim são os dois. Ousaram frases românticas, posições selvagens e conversas fantasiosas, sempre com resultados fantásticos. Talvez o pragmatismo dos dois cante que esse sentimento, tão vivo, tão forte, e tão prazeiroso, é o que os mantém e os manterão para sempre unidos, e felizes. Mas a experiência maléfica passa dos limites e sabe que a causa não é a audácia sexual. E os dois não tem qualquer chance de serem felizes sem um ao outro por um outro motivo. Porque o que eles veêm quando fecham os olhos, o que sentem quando desejam, quando almejam, não mais pode ser alcançado sem que os dois se toquem, dizendo com o corpo “estou aqui, vai dar tudo certo”.

Jujubas milenares.

Eu tento manter o teu lado infantil, que tanto me fascina, vivo, de várias formas. Essa terceira personalidade, depois da alta executiva e da amante mais fogosa que um homem pode ter. Essa criança que foge com os olhos por timidez das coisas mais triviais, sorrindo e admitindo vergonha. É o cachorro que te trouxe do interior do país, numa tarde chuvosa e que sujou nosso sofá no seu primeiro minuto em casa. Ou o armário em forma de sarcófago egípcio que temos na sala, repleto de balas, revistas e dvds de comédias romanticas. São essas pequenas coisas que eu apoio só pelo prazer de ver o brilho nos teus olhos lindos. Só pelo prazer de ver os teus dentes me ofuscando de tão brancos e grandes… As vezes eu misturo as coisas, te ligo numa reunião dizendo o que farei contigo a noite, ou trago jujubas milenares para a nossa cama, e te ofereço enquanto te chupo violentamente. Eu nunca vou precisar de outra mulher pois tenho todas em uma. E tu nunca vais precisar de outro homem, uma vez que nunca vais me entender por completo.