Clalisse

Nunca tinha ouvido essa variação antes. Foi quando eu visitei uma amiga, do passado. Na sala, um futon enorme e no quarto, que não ousei entrar, sua filha, de sete anos, que eu nunca conheci. Ela ficou me falando de coisas frívolas enquanto assistia a televisão, tentando não prestar atenção em mim. Falou-me da filha, Clalissa, que em breve acabaria os afazeres escolares, e saíria do quarto para acompanha-la numa visita. Algo como ‘tenho pouco tempo’. Eu queria entender isso, porque nunca tive esse tratamento antes… por parte dela… nestas situações. Conversamos sobre websites, domínios, nomes, e a cada segundo de conversa mole ela me parecia mais linda. Ela virou-se quando eu sugeri um domínio para a filha dela, e por um segundo eu achei que era atenção… mas era a campainha.

Entraram dois sujeitos bem diferentes do cenário que eu via ali. Um apartamento grande, na Zona Sul, de uma princesa bem relacionada – salvo a lacuna que é a nossa amizade – e dois sujeitos gordos, bem feios, de chinelos gastos, bermudas velhas e camisas de times locais surradas e curtas entram, sem cerimônia e com uma intimidade assustadora. Ela os recebeu com graça, e com o sorriso que já me fez tomar veneno pela falta que sempre me fez, os apontou o futon e entrou na ala intima da casa gargalhando. Eu não ouvia o que os trogloditas tinham a dizer. Mas a cena toda me pareceu meu bizarra, como num filme nacional. Ela voltou depois de uns minutos e vejo de relance Clalisse passando por trás, indo ao banheiro. Minha amiga sentou-se entre os mocorongas, rindo, e com a camisa do Vasco. Estranho. Tentei brincar, causar algum tipo de laço, me inserir na conversa. Disse-lhe que ela estava com dois sujeitos de mal gosto, uma vez que seus times eram adversários. Alguma risada educada foi solta e a intimidade continuou. E eu, bastante deslocado, fui até o banheiro conhecer Clalisse.

Clalisse, falei, é você? E fui entrando no banheiro. Ela foi a porta, nua, mas sem inibição, como todas as meninas de 7 anos. Era praticamente albina, cabelos louros enormes e bem claros, olhos azuis, e sobrancelhas falhas. Clalisse me cumprimentou secamente estendendo a mão, puxando meus olhos do seu rosto para ela. E esse foi a hora que eu me choquei, pela primeira vez em muitos anos. Clalisse era hermafrodita e tudo o que queria era fugir dali o quanto antes possível.