De como um homem nos conformes virou uma bagunça.

Vejo e revejo fotos, poses, frases feitas, gírias da moda e leio o tempo todo a mesma coisa: ‘ama-me, aceita-me, eu faço qualquer coisa para isso!’ São todos sem exceção querendo ser quistos, como todo mundo – até quando se quer ser diferente. Se eu te digo agora que isso é um texto de amor, tu ficas perdida, confusa, pensando o que eu posso estar tramando com os meus dedos no teclado com acentos gráficos da língua que escrevo. São pessoas constantemente julgando as outras para que terceiras as julguem de acordo com o que todas, em uníssono, parecem dizer o tempo todo – que só há uma forma de felicidade. Talvez hajam vários caminhos, mas todos eles levam à mesma coisa, ao mesmo poder aquisitivo ideal, à mesma estrutura familiar, amigos, informações, opiniões, à mesma qualidade de sexo selvagem mas ao mesmo tempo careta, enfim, à uma série de caixinhas que todos tentam o tempo todo entrar. Eu sempre achei um privilégio enorme poder entrar nessas caixas e ainda assim não querer. Como quem despreza o ouro, jogando-o longe, no meio da lagoa, sabe? A gente acha que essas coisas são interessantes, sempre, mas uma hora vem um rolo compressor que lhe empurra para essas caixinhas por uma questão de sobrevivência. Se eu um dia achei graça em desprezar essas caixas, hoje eu vejo que eu nunca tive o privilégio da escolha. Nunca pude entrar, mas as minhas ilusões de grandeza certamente influenciadas pela minha leve esquizofrenia achavam que eu podia. Olha, eu sou homem, branco, hetero, bem nascido, sempre morei em bons bairros, com boa educação, sou saudável e inteligente. Com esse perfil eu já mataria 90% dos preconceitos idiotas que as pessoas têm. Não só me excluiria do alvo, como teria credenciais para ser o arqueiro não é? Mas eu teimei, e achei graça em confundir todo mundo. Até que eu fiquei confuso e comecei a acreditar em mim. Pois cada mês que se passa é como se o tal rolo compressor fosse rolando mais um milimetro, em câmera lenta. Eu sei que eu vou morrer sem entrar na caixinha, e agora estou vendo a minha vida passar nos meus olhos. E se há uma parte minha que entrou em alguma caixinha foi o meu amor por ti, e eu consigo ver o privilégio que é estar dentro dela.