Desculpas.

E eis que o dia chegou. Ela olhou para baixo, para o chão. Duas gotas do café quente no seu sapato estilo boneca, de couro endurecido, marrom. Ela prefereria a queimadura no peito do pé ao dano ao seu par de calçados favorito. Mas foi ao olhar para baixo, que ela percebeu tudo. Em um impeto quase que instintivo, ao ser esbarrada por mim, na cafeteria da biblioteca, ela se perguntou onde estava. Ela ensaiou olhar para mim, em um acesso de raiva, mas as gotas de café pulando a fizeram checar sua roupa. E olhando para o chão, em frações de um segundo, ela soube que era hora de agir, ou de desistir. Ela não é mais criança. Não há mais chances, ela não vai ‘crescer’ mais. O seu emprego temporário a mantem há 6 anos, e sua procura por um namorado anda, no mínimo, pouco eficiente – suas amigas já estão pensando em desquite. As gotas do café, escorregando pelo couro e tocando o chão sujo de concreto estão sincronizadas com uma única lágrima gorda que lhe escorrega pela face. Não vai haver outra chance – ela pensa – isso não é um rascunho. Essa é a minha vida. Nessa altura eu já estava no elevador, depois de pedir desculpas em vão.