Enganos.

Tento, por meio dessa língua, transformar os meus sentimentos em um texto bonito. Quem sabe eu consiga comover alguém, não seria a primeira vez. Sou o mais sincero para os outros, cuspo verdades a torto e a direita. Mas minto, varias vezes, para mim mesmo. Eu sei de absolutamente tudo que acontece comigo, de cada porque, de cada limite. Sei de tudo mesmo, das minhas fraquezas, das minhas qualidades, de como eu vou reagir a absolutamente qualquer coisa. Mas eu me engano, para tornar a vida mais interessante e para, quem sabe, não permitir que essa minha consciência arrogante interrompa a possibilidade de algo inusitado acontecer. Eu sabia, quando te vi naquele Fevereiro vagabundo, num café sofisticado, que tu eras minha. Eu sabia que eu era teu, que tinha findado a busca. Eu menti para mim mesmo, que não era tão claro, que não era tão fácil, pelo jogo da vida. Para continuar seguindo, sem risco de perder a graça. Mas a graça só aumenta. Foram meses sem retorno, meses fazendo o papel do caçador, e tu, o de ocupada – que tanto reprisas. Meses sabendo que aconteceria, e mentindo para mim mesmo, duvidando que sim. Da mesma forma eu me sinto agora. As duvidas, as inseguranças, os medos, são mentiras que eu invento para mim mesmo, para me sentir vivo, ainda que sofrendo – como alguém que se belisca para perceber que não sonha. Eu sofro a tua falta, ela é real. Mas o resto não passa de uma farsa complexa, que envolve cada tom da tua doce voz no meu ouvido sendo interpretado por um homem que não reconheço como sendo eu. Um homem que duvida. Porque se eu me esforçar um pouco, e olhar no fundo, eu sei. Eu sei bem, que não há qualquer chance no mundo de nos não ficarmos, para o resto da vida, felizes e juntos.