Fotografia de viagem.

São 3 e meia da manhã e eu tenho que acorda-la. Infelizmente, a menina do sorriso bonito não está entre a gente, nessa cama imensa. Não dormi tranqüilamente, toda hora eu acordava, pensando que era a hora, tentando lembrar de alguma coisa que podia estar faltando. Mas eu olhava para o lado e te via, sempre bela, com os olhos cerrados, os cachos doirados e a pele alva, respirando devagar. Eu toco o teu braço com calma, e me dá vontade de ficar ali. Nada, nem um movimento. Percorro então o teu braço com a ponta dos meus dedos, do ombro até o pulso, e tu sorris, com um jeito meio safado. É a hora? – bocejas, apalpando a mesinha atrás dos teus óculos. Acho que sim, 3 e meia. Vamos? - eu respondo tentando começar com calma a convivência diária e íntima que vai durar ao menos 3 meses. Minha mão volta a te tocar, puxando de leve a tua calcinha feita a mão. Tu me beijas, mas seguras a minha mão, negando o carinho. Tua boca é doce mesmo de manhã e isso me assusta. Sempre.

Meia hora depois estamos no carro do Sr. Meyer, no banco de trás. As mochilas com tudo que a gente acha que precisa estão na mala do carro, e a minha cabeça, no teu colo. Tu me acaricias, devagarinho, olhando com atenção o Rio de Janeiro pela última vez. E eu, depois de toda a excitação com a saída, checando tudo, fechando o apartamento, agora sinto-me relaxado. Ainda não amanheceu e passamos pelo bar em que maldizia toda noite o fato de morares tão longe, a tua distância. Ainda há pessoas bebendo, as mesmas de sempre. Botafogo é um bairro xerocado.

Mais meia hora. Cais do porto. Eu te ajudo a por a mochila e tu bufas de ansiedade. Perguntas-me sobre o zíper, que guarda a preciosa câmera. Tudo está tranqüilo querida - respondo - só falta um sorriso. Tu gargalhas. E eu vibro, secretamente, toda vez que vejo assim por minha causa. Subimos a rampa que descemos há três dias, quando chegamos de Santos, na nossa viagem de teste. Há um rádio ligado no fundo do pátio do navio, baixinho, tocando Nancy Sinatra, e um dos tripulantes pára a faxina para nos cumprimentar, sem jeito. Seguimos para o cubículo que nos deixaram ficar, à esquerda. É pequeno, com uma escotilha suja, uma lâmpada fraca, amarelada, e um colchão de solteiro, fino e duro – mas dormimos enroscados ali por uma semana e nos sentimos no Four Seasons. Temos uma hora até o navio sair – eu sussurro. Agaixo, e começo a retirar algumas coisas da mochila, e enquanto isso o teu jeito sapeca te faz olhar para fora da cabina, conferindo qualquer coisa e fechando a porta em seguida. Ouço o som da calcinha de seda feita a mão roçar a tua pele e me viro. Acho que dá para continuar agora… mas temos só uma hora! – dizes-me já quase nua, como se fosse uma bronca. Eu, ainda agachado, me viro e toco o teu umbigo com os lábios. É nessa hora que percebo que não precisamos de mochilas, nem de colchões ou camas extra-king-size. Precisamos do gosto um do outro em nossas bocas.