Idiot Box.

Acho engraçado essa galera que acha televisão a raiz de todo o mal. É patético rejeitar meios de comunicação de massa para parecer especial. Se a tevê é tão ‘mentirosa’ e ‘condescendente’ talvez crítica, informação e inteligência sejam qualidades necessárias para quem quer assistí-la. Eu aprendi muito vendo televisão. Na minha infância eu já era mestre na pratica da insônia, e via absolutamente quaisquer filmes que a madrugada tinha. Nunca tive videocassete e não sou de alugar dvds. Portanto toda a minha filmografia pessoal veio da televisão, e é, consequentemente, datada, uma vez que os filmes só chegam no corujão 25 anos depois de realizados. Séries americanas me ensinaram muito também, e mesmo sem nunca ter estado no país do beisebol explico vários de seus detalhes sócio-culturais aos meus amigos e parentes. O revés vem quando essa tonelada de informações interfere na minha vida, e isso tem acontecido desde Manimal. Eu comparo o que eu vejo entre a porta da minha casa e o Diagonal com o que assisto na Sony. Uma coisa que me chama a atenção é uma rotina que ocorre no ato sexual em todas as séries, até mesmo Sex And The City. Sempre que as pessoas acabam de transar, elas se descolam e desabam sincronizadamente na posicão convencional na cama de casal, sempre da mesma forma, seja o sexo bom o ruim, seja a história cômica ou sexy, com aquela camêra em cima da cama como um espelho no teto do motel barato. Eu me pergunto se eu sou um descoordenado ou se todos na vida real também ‘terminam’, como eu, cada hora em um lugar, e definitivamente nunca olhando para cima, debaixo de cobertas e paralelo a parceira, ou parceiras… Eu penso ao acordar se deveria tomar leite direto da caixa, afinal, moro sozinho – como se isso nunca fosse madatório nos seriados. Mas odeio leite puro, e acho meio nojento por a boca naquele papelão. Sou influenciado, admito. Eu, por exemplo, não saio com ninguem há séculos, mas tenho tido vários dates. E entenda, são dates, no melhor estilo Single Guy. Levo para jantar, pago a conta e espero o momento do Goodnight Kiss - que na Ipanema do meu Brasil foi adaptado para Hello Sex, coisa de país tropical, eu não tenho nada a ver com isso. Nas minhas tardes, quando vagas, chamo conhecidos para um café numa lanchonete de esquina, comento as esquisitices das pessoas que tenho conhecido e às vezes uma amiga pede uma big salad. Certa vez, imobilizado em casa, vi tantos episódios de Dead Like Me seguidos em mais uma madrugada insône, que numa terça, ao amanhecer, sai para comprar ingredientes para fazer waffles – que adoro pois provei antes dos sete anos. Sei todas as siglas e expressões da polícia e do exército ianques, por ter visto várias vezes todos os episódios de 24 e tantas outras séries de ação. Falando em 24, outro dia um date me disse que eu parecia o Charlie de Two and Half Men, o que me é inédito, uma vez que já perdi a conta de quantas vezes me notaram traços de Jack Bauer. E é essa a hora que eu deixo o leitor ver o quão envolvido estou; saibam, todos vocês, que no fundo eu não tenho nada a ver com ele, e sim com o Tony Almeida.