Let me kiss you.

Às vezes eu ando nas ruas de Ipanema assobiando, de óculos escuros, shorts e botas pretas, e a tua imagem vem a minha cabeça. Eu andei por aí, eu vi de tudo. Eu vivi mais que eu mesmo imaginava ser possível. Fecho os olhos, por um segundo, e penso em alguém que me agrade, és tu. Mulheres passam, para lá e para cá, com pressa, querendo comprar roupas para, quem sabe, um dia conquistar um cara que sinta por elas o que eu tenho por ti. Pedintes me ignoram e esse é o lado bom de ser destoante. Pedintes me ignoram, talvez, porque sabem que eu não tenho nada de palpável para eles. Feferéu toca uns acordes que me soam familiares, mas ainda assim eu não me sinto em casa. As vezes um cigarro me faz lembrar da terra fria e cinza que eu entendo como lar, as vezes ele me ajuda a esquecer que não estou lá. Sou eu, sozinho, pensando no dia que eu vou ter os meus lábios molhados pela tua língua. Atravesso todas as ruas sem parar, não ligo muito, mas coincidentemente os carros sempre estão parados. Se o sol está alto, e me queima a nuca, eu tento desviar, andando nas marquises dos prédios que abrigam negócios antigos – mas de carros nunca. E se eu fui atropelado, três ou nove vezes, foi pelo teu sorriso, e pelo teu abraço, sempre constrangedor.