Mensagem para ti.

Era a hora d’eu usar isso aqui para passar alguma mensagem. Caso eu me perda pelo mundo, caso eu seja preso numa prisão cigana no meio do nada, caso eu morra… não sei. São várias as chances d’eu precisar me comunicar com os poucos que se importam e tu fazes parte deste grupo nada seleto, mas pequeno. Um dia estava na tua casa e alguém ligou. Percebi que querias privacidade e me ausentei por alguns momentos. Subi as escadas e fui ao banheiro, tão conhecido meu – tantos banhos eu tomei na tua casa, não? Eis que me apoio na pia e olho com cansaço para o espelho, vejo um sujeito com olheiras e um belo topete. Vejo outra coisa ao desviar o meu olhar desse sujeito que se parece tanto com o meu passado, um vidro de remédio encomendado. E é neste momento que eu tive a idéia que me salvou a vida naquele agosto tão quente. Num rótulo de remédio eu escrevi todos os códigos que precisavas para suceder na tua empreitada. Mandei-te de Londres e ninguém desconfiou, nem a alfândega, nem a tua governanta, nem o teu marido. Talvez eu use este meio para falar contigo. Talvez eu já o faça há décadas. Talvez eu nunca mais precise, pois quanto me olhas nos olhos não vês o meu passado, mas o meu futuro, e contigo.