Mezzo conto.

Ela desceu as escadas com pressa, não estava se sentindo bem. A cada novo lance, as luzes do andar acendiam-se automaticamente e era cada vez mais difícil segurar o choro. Até que no segundo andar as luzes não acenderam, e ela se agarrou no corrimão. O pé esquerdo pisou em falso e o salto do scarpin agulha mezzo punto cedeu fazendo com que ela se agachasse, e ela desabou. Ela pensou em todas as estranhas coincidências que a vida nos mostra. E que por mais que se especule, por mais que se discuta, não são nada além de coincidências. Ela chorou pelo passado, chorou pelo presente e soluçou pelo futuro. Ela notou que pela primeira vez em anos estava sozinha em um lugar desconhecido, no escuro, mas sem medo. Nada poderia ser pior do que acabara de ver. Nada superaria o que sentira minutos antes, na ante-sala da CTI do hospital mais requisitado da cidade. Caro, moderno e com as luzes automáticas do segundo andar sem manutenção. Mas talvez as luzes estejam funcionando. Talvez elas não tenham ligado, justamente na hora em que bancar a moça adulta já não dava mais, por pura coincidência.