Milano Doc.

Lembro-me da boa época em que eu comia no Manekineko e não queria saber de pimenta. São vários os vôos na minha frente e a atendente repete: Para onde o senhor está indo? Eu nunca tive crises de idade, mas percebi que estava grandinho quando comecei a gostar mais de telejornal do que de séries, na mesma época que o mundo começou a me chamar de ‘senhor’. Sincronicidade é tudo, já me disse uma ladra certa vez. Pois bem, eu acho que essa promoção para Itália me apetece… É… acho que sim. Milano, per favore – disse querendo ser simpático e conseguindo um olhar de desprezo e uma digitação preguiçosa num terminal cinza. Também falo inglês, eu completaria se estivesse no Bexiga, mas estava num dos maiores aeroportos de Londres. Cheguei até ali num carro apertado, dirigido por um conhecido ruivo que passou todo o trajeto, de Brixton até Heathrow maldizendo quem o chamava de Ginger. Tiro do bolso mais uma dessas tais balas de pimenta, que até me agradam, mas que me lembram o saudosista que sou. Ainda espero conseguir dinheiro para comprar a casa em que eu passava frio na infância, mesmo sem muita noção de como. Pago no meu Amex Jobi 99 Libras, e saco do bolso umas moedas pesadas para a taxa de embarque.

Sento-me entre dois sujeitos, um mal-cheiroso e um gordo bem forte, que ultrapassava sua área de conforto para tirar o meu. Seus braços não cabiam no braço da cadeira do avião e a banha das pernas vazavam por debaixo do cobertor que ele usava. Fazia muito frio, é fato, mas o tecido adiposo somado à atividade que ele tinha acabado de fazer ao subir as escadas da nave me faziam indagar porque a pressa dessa coberta. Enfim, lá estava eu entre a falta de higiene e a falta de espaço. Estava indo para Milão, para a penthouse da modelo mais divertida da Europa e eu me sentia numa van para zona oeste. Ligo o phone no canal do Gatecrasher, mixado por Judge Jules, e toca Fatboy Slim. A música, Santa Cruz. Eu gargalho sozinho.

Uma hora depois começa Frasier no televisor da poltrona da frente, e eu só penso em uma taça de champanha. Viro-me para a esquerda, em direção ao corredor e esqueço de segurar a respiração. o maltrapilho realmente estava exalando o pior dos cheiros aceitos dentro de um avião. Lembrava peixe com algo alcoólico, barato, tipo Cinzano. Segurei a náusea e não pensei duas vezes. Levantei e fui até o toilete, e, enquanto eu espero a pessoa sair do cubículo a cortina da primeira classe se entreabre. Ali é o meu lugar, pensei, pedante como sempre. Depois pensei, meu bom gosto me torna sempre pedante.

Era uma loira, que é sabido, nunca me apetece de cara. Sentada, na primeira fila, na altura do meu cinto, ela se inclinava para procurar por uma aeromoça. Flight Attendant de cú é rola, aeromoça e aeromoço. Sempre vou chamar a TVS de TVS e o Metropolitan de Metropolitan. E o outro de Met. E o Jorge Ben de Jorge Ben, que merda é essa? Enfim, ela levanta os olhos devagar e me pergunta em inglês com sotaque: Você viu a aeromoça? E eu respondi com uma certa calma, me abaixando devagar e olhando nos olhos dela: Não sirvo eu? Ela sorri de lado, com a pontinha da língua nos dentes e inclina a cabeça para que os lindos cabelos lisos escondam o seu rosto, com muito, mas muito charme mesmo, e responde Per favore…