O amor deixa cego.

Eu olhei para trás para ver se tu estavas me olhando. A algazarra aconteceu da seguinte forma, um galalau com poucos dentes resolveu espezinhar o teu amigo, com alusões a sua homossexualidade notória. Eu não achei engraçado, não havia nada ali para se notar, comentar ou envergonhar-se. Cheguei perto e os olhos do babaca, ainda fixos no seu objeto de desejo, esperava uma reação qualquer, um choro, um empurrão, um beijo talvez. Olhei de novo para trás e não te vi, mas sei que estavas la, e deixei o copo na mesa para cuspir no maldito. Esse, obviamente ofendido, virou-se, e a minha mão o expeliu de perto de mim e da nossa mesa. Uma menina de uns 14 anos, acompanhada de um sujeito bigodudo gritou, e eu perdi a atenção por um segundo. Ele aproveitou para chegar perto rapidamente. Foi um soco no meu pescoço que me empurrou para a quina da parede e trouxe os teus olhos de volta para mim. O teu amigo, bastante nervoso e com alguma lacuna nos seus conceitos de gratidão resolveu fugir, fugiu mesmo, tu não viste. A criança começou a chorar e eu me recompus, levantei como um velho reumático. A porrada não foi forte, mas minhas costas bateram no ponto certo para me machucar… o mesmo omoplata que tu costumavas arranhar quando chegavas ao extase comigo. Eu adorava, mas sempre que me deixavas para ir ao encontro do teu escolhido eu tratava os riscos vermelhos na minha pele branca com alcool, para arder bastante e eu saber que há um preço pelo teu amor. Fui para cima do maldito meio sem preparação, mas consegui empurra-lo para a outra parede do bar. Minha mão foi mais rápida que meu bom senso e usou um copo de whiskey como projétil, que, eficientemente, cegou-o. Não estou orgulhoso, ainda tenho dúvidas sobre as consequências disso na minha consciência, mas insisti em doutrina-lo e sentei-lhe uma joelhada na barriga, atingindo sua fivela, que tenho certeza, o machucou bastante. Olhei para trás para ver se tu estavas me olhando, e te vi, a chorar. Eu, de pé, como novo, sem dor, talvez pelo excesso de alcool. Ele, cego e sangrando, caído. Eu não sei se ele ganhou, mas tenho certeza que eu perdi.