O que importa.

Entenda que eu não quero o mal de ninguém. Sei que muitos de vocês vão lembrar de mim como uma pessoa deprimida, amarga e agressiva. Mas eu sei que há várias lembranças minhas felizes, e talvez vocês possam se interessar em relembrá-las. Sei que pode parecer um ato suicida, mas a noite em que desci a Oscar Freire, desde lá de cima até os Jardins, numa HondaBiz á 105km/h, gritando, foi sensacional. Senti que a minha alma tinha tomado Alka Seltzer. Eu vibrava por dentro e por fora, e ainda assim mantive minha mão fixa no guidão – sabia que qualquer pedrinha podia fazer do meu rosto um para-choque de paralelepípedos.

Outro episódio que me passou pela cabeça foi o dia em que entrei numa limousine que não era minha, e acabei conhecendo a mulher mais fantástica que já conheci. Meu nervosismo não conseguia controlar meus sorrisos, que machucavam de verdade meus músculos faciais. Eu bebi, eu chorei, eu chutei a porta do carro alugado, meio sem jeito, e machuquei o pé. Mas tudo a fazia rir, e eu me sentia um Rei.

Nada grita mais alto que o som daquela boate que eu freqüentava nos idos de 99. Um buraco, numa área nada familiar, onde dois amigos passavam as noites de sexta me pagando drinks e me fazendo dançar. Muito. Poucas pessoas me viram tão eufórico na vida. Pouquíssimas me viram dançar daquele jeito. Mas o fato é que eu estava no meu auge. Era cantado por belas garotas, bebia sem medo, e me sentia um personagem do Ruben Fonseca, vivendo ao extremo. Ninguém pode dizer que conhece mais o submundo social do que eu. Ninguém que se mantenha dentro da lei, claro. Ninguém que tenha saído vivo para contar. E é essa a minha última chance.

Não quero o mal de ninguém, mas não me desculpo. Sei que cuspi, sei que berrei, que fui grosso, e que muitas e muitas vezes fui vulgar. Não há pecado que a morte não perdoe. Não há erro que a ausência não corrija. Não há religião, não há céu, não há inferno. O que importa, realmente, é se você amou.