O Sorriso Perfeito.

Sabe-se lá quando eu vou poder escrever para ela de novo - ele pensou. Estava, como sempre, sem sono. Os motivos flutuam, mas dormir é tão difícil para ele quanto socialização para a maioria das pessoas. Eis que desta vez não era o futuro que lhe tirava o sono – mas o presente. Uma dor pontuda no peito causada por um amor despedaçado. Ele começa:

Dói-me a distância, a ruptura e a falta que tu me fazes. Dói-me saber que ainda me queres, e saber que sou teu. Foram alguns minutos de uma conversa estranha e apática que me farão pensar por um punhado de anos. Não há chances d’eu fechar meus olhos sem te ver. E o que mais arde é que ao abri-los não te vejo mais.

Eis que o sujeito pára. Respira e acende um cigarro. Continua, mesmo sem ter mais o que dizer.

Doí-me ter a certeza que a tua vida foi escrita para mim e que a minha não existe sem ti.

Está piegas, pensou.  Eu devia me concentrar no meu romance, tão perto do fim - murmurou para si mesmo. Mas a vontade de tirar da própria alma o que ele ainda tinha para dizer é maior. Então ele apaga o cigarro que mal foi tragado e beberica uma dose de arak com água gasosa. Empurra a mão pesada contra a própria testa e volta à carta.

E essa dor há de matar-me – eu sei. Nada mais funciona, nada mais tem graça. Não abro mais a minha boca com medo de chorar. Não tenho fome, mas ando bebendo demais. Não durmo, não sonho, mas tenho pesadelos. No meio da minha bagunça, do meu bom-humor e da minha taquicardia reinavas tu, com o teu sorriso perfeito. E agora que não o tenho mais comigo, não sei mais imitá-lo.

E nesse momento ele percebeu que talvez o tal sorriso perfeito dela fosse também uma imitação. Lembrou de uma noite que a deixou ir, tarde da noite… e antes de voltar para a cama, passou no banheiro para se lavar. E no espelho velho daquele apartamentinho alugado ele viu um sujeito com uma bocarra enorme, rindo com todos os dentes para fora.