Ostracismo.

Tenho comigo que a maior desgraça que pode me acontecer é o ostracismo. Não me importo com o mundo, nem com adolescentes que sem empolgam com tão pouco – basta um casaco de couro surrado e um cigarro, quiças um aviator no rosto. Mas eu não gostaria de ter meu telefone tirado do teu speed dial – nem das outras tantas mulheres perdidas que me ligam de madrugada para que eu prove que elas ainda são desejadas. Não gostaria nada de que me esquecessem na hora de consultar uma informação vital, como o nome do guitarrista do The Tramps ou do diretor d’O Ultimo Espetáculo. Não gostaria que a mãe das minhas amigas se esquecessem de quem eu sou, e mesmo rindo das botas que uso e que já rodaram o mundo ainda me oferecem o que há de melhor na geladeira delas, abertamente desejando que eu despose suas filhas – e quem sabe secretamente desejando ter a metade da idade para quem sabe desfrutar um pouco do meu tempo. Não gostaria de morrer em vão, mas não quero drama. O que eu não posso é deixar tanta experiência com o insólito se esvair de uma maneira boçal. Não posso. Há de acontecer com classe, ou ao contrário, da maneira mais porca e vil possível. Não quero a fama, não quero ser reconhecido, mas exijo que as duas duzias de pessoas que se lembrem de mim o façam com um sorriso no rosto.