Sobre as respostas que a gente inventa para si mesmo.

As vezes a gente não encontra pessoas na vida que sejam cruéis o suficiente para nos contar a verdade. Eu sei que eu nunca quis ser essa pessoa. Portanto eu minto. Minto por omissão, e ás vezes dou uma outra desculpa. E não me orgulho disso, mas sem dúvida não me envergonho. Há certas mentirinhas que são comuns até a um santo, como hoje eu estou ocupado, ou mesmo você é capaz. Mas há outras que requerem um certo nível de sangue-frio, que, por mais que eu faça parecer o contrário, não tenho. Eu não quero dizer a verdade porque eu não quero ser o responsável pelo suicídio de ninguém. É nesse nível. Também há o respeito, que ás vezes é tão grande que eu me pergunto se a tal verdade calada é tão verdadeira mesmo. Mas é. E dizer por aí, pelas costas, para outros ouvidos é sim, um ato baixo e de desespero, e isso sim eu me orgulho de não fazer. Se eu não preciso do confronto eu não preciso inventar respostas para provar a mim mesmo que estava certo. Nada disso. Mas eu tenho certeza que as vezes as minhas omissões geram questionamentos que as outras pessoas decidem responder da melhor maneira possível. Da maneira mais eficiente para explicar a rejeição. Funciona, eu saio como vilão e o outro lado sai confiante, e o melhor, vivo.

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Peter Zarustica visita Las Vegas - Parte 01

Ei-lo, o hotel. É doirado, brilha, mas não tem o luxo que estou acostumado na Europa. Vejo uns mancebos tentando fotografar a minha companhia, e tenho certeza que é por minha causa. Não pelo meu ego inchado, mas pela situação. É a primeira vez que me permitem visitar os Estados Unidos da América, depois do caso da mala, em 1987, e acho que o mundo tem interesse em quem está comigo. O que diabos estava acontecendo? Onde eu estava com a minha cabeça naquela época? Enfim, o fato se resume a mim e quem me acompanhava naquela noite e uns magrelos que nos perseguiram desde o aeroporto com câmeras digitais. Ela achava que era o alvo dos paparazzi. Eu sabia que não. Ela era uma cantora em plena decadência que ainda tinha delírios de grandeza. Eu a conheci em Dormans, no fim de semana que passei caçando patos com o meu amigo Julio Iglesias. Furei o olho de seu filho, que paquerava a tal cantora. Eu estive longe dos mundo ocidental quando ela fez algum sucesso e não sabia direito quem ela era, mas achei que tinha um certo valor e que suava gelado. Sim. Suar gelado é altamente atraente para um homem como eu. Eu também sabia que viria para Las Vegas, e o seu sotaque me gritava ‘sou americana‘ - portanto comecei a conversa com um convite. Conversa que só acabou mais tarde na banheira do quarto de hóspedes de Julio, com vista para o rio La Marne.

Eu digo a ela, hipócrita e condescendente como toda mulher gosta. Querida, eu vou te proteger dos paparazzi. você não quer ser fotografada com essa roupa amassada da viagem, quer? Virei o jogo. Agora ela não quer ser fotografada. Seguro na sua mão como quem diz ‘espera’ e saio do carro, sozinho. Deixo os moleques me fotografarem na frente da limousine e aperto suas mãos com 3 notas escocêsas de 100 libras dobradas entre os dedos. Eles vão embora e eu sorrio aliviado para o motorista que saiu do carro em solidariedade. Aliviado pois acho realmente que se me vissem aqui com uma ex-Clube do Mickey a minha visita não passaria desapercebida em tablóides de donas de casa. Não estou aqui para comer essa garota, isso eu fiz muito na França. Eu estava ali para quebrar o maior dos cassinos do mundo. E olha, não por dinheiro, por incrível que pareça - já que minha vida parece movida a isso. Eu farei isso por vingança. Por incrível que pareça.

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O Sorriso Perfeito.

Sabe-se lá quando eu vou poder escrever para ela de novo - ele pensou. Estava, como sempre, sem sono. Os motivos flutuam, mas dormir é tão difícil para ele quanto socialização para a maioria das pessoas. Eis que desta vez não era o futuro que lhe tirava o sono - mas o presente. Uma dor pontuda no peito causada por um amor despedaçado. Ele começa:

Dói-me a distância, a ruptura e a falta que tu me fazes. Dói-me saber que ainda me queres, e saber que sou teu. Foram alguns minutos de uma conversa estranha e apática que me farão pensar por um punhado de anos. Não há chances d’eu fechar meus olhos sem te ver. E o que mais arde é que ao abri-los não te vejo mais.

Eis que o sujeito pára. Respira e acende um cigarro. Continua, mesmo sem ter mais o que dizer.

Doí-me ter a certeza que a tua vida foi escrita para mim e que a minha não existe sem ti.

Está piegas, pensou.  Eu devia me concentrar no meu romance, tão perto do fim - murmurou para si mesmo. Mas a vontade de tirar da própria alma o que ele ainda tinha para dizer é maior. Então ele apaga o cigarro que mal foi tragado e beberica uma dose de arak com água gasosa. Empurra a mão pesada contra a própria testa e volta à carta.

E essa dor há de matar-me - eu sei. Nada mais funciona, nada mais tem graça. Não abro mais a minha boca com medo de chorar. Não tenho fome, mas ando bebendo demais. Não durmo, não sonho, mas tenho pesadelos. No meio da minha bagunça, do meu bom-humor e da minha taquicardia reinavas tu, com o teu sorriso perfeito. E agora que não o tenho mais comigo, não sei mais imitá-lo.

E nesse momento ele percebeu que talvez o tal sorriso perfeito dela fosse também uma imitação. Lembrou de uma noite que a deixou ir, tarde da noite… e antes de voltar para a cama, passou no banheiro para se lavar. E no espelho velho daquele apartamentinho alugado ele viu um sujeito com uma bocarra enorme, rindo com todos os dentes para fora.

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Para com isso!

Se tu viras os olhos cada vez que ele te chama a atenção, para! Para com isso. Para com essa estória de fingir que te preocupas com os mendigos do teu país catando comida nos lixos, quando tu e eu sabemos que só o que fazes mesmo é reclamar deste sujeito. É um toque de celular que te tiras do sério, ou um olhar. As suas críticas te atingem como um petardo e não deveria ser assim. Eu corro, ás vezes, eu tento. Eu tento te ajudar, tenho segurar a tua onda. Nunca a dele. Não me importa o que ele faz. O que me importa é como tu reages. Tu não gostas de mim, mas sentes a minha falta quando eu estou longe, e isso já me é o suficiente para não desistir de fazer a tua vida um pouco menos hipócrita e infantil. Porque? Para com tanta pergunta!

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Song To Say Goodbye

O que não adianta é ficar pensando no porquê não. O porquê não a gente sabe. Mas eu me pego, e sei que vou me pegar por muito tempo, pensando no porquê de ter acontecido. No porquê de duas pessoas que nasceram para se ter não conseguem ficar juntas. Vamos, alguém tem de se identificar! Não é possível que a história mais repetida do mundo não comova a leitora. O que me surpreende é o fato de eu conseguir ver e entender a imaturidade de ambas as partes. E eu te digo o porquê da imaturidade, pois esse porquê eu sei. Porque maturidade vem de experiência e a gente não encontra tantas cara-metade assim na vida. Aliás, se encontrássemos, acho que seria uma boa idéia mudarmos o nome para cara-terço, ou cara-quarto. Cara-n, para os superficiais. Então os dois fazem bobagens, falam bobagens. Titubeiam, erram. É natural, ainda mais quando se é inexperiente. A gente sai de casa pensando em tudo que pode dar errado. E se o pneu furar - eu tenho estepe - e se me assaltarem - tenho seguro no cartão, eu não reajo - e se eu precisar voltar para a casa correndo - eu pego um taxi, et cetera, et cetera, et cetera. Ninguém sai de casa pensando em como agir se encontrar a alma gêmea. Pensando bem ninguém sai de casa pensando no que fazer se algo de bom acontecer. Como reagir. Se eu fui um promíscuo era porque eu estava te procurando, e agora que eu achei eu não preciso mais dessa máscara. Se eu traí para te ter, eu estava sendo muito, mas muito fiel a mim mesmo, ao que eu queria e a como minha alma se sentia plena quando estava contigo. Não adianta a freguesa ficar lendo as minhas linhas e tentar se achar aqui, aviso, não vai. Se tu és a que me mata e me cura, não estás em texto, nem em fotos. Estás na dor.

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Cura a dor.

Hoje ao acordar eu percebi uma coisa. Eu nunca te vi errar, vacilar. Eu nunca te vi fazer alguma coisa que a minha tão clamada inteligência condenasse. Acho que isso ajudaria, definitavemente, a te tirar desse pedestal que eu te pus sabe lá porquê. Tu estavas em um outro país e disseste que tivera um dia cheio. Sentamos em uma cantina e tu escolheste a cadeira que olhava a televisão, passando alguma coisa do teu trabalho tão secreto. Pedimos uma pizza daquelas mal feitas e algo ou alguém nos interrompeu. Era algum tipo de mágico, ou membro de uma seita, algo assim. Eu pulei da baixa janela do restaurante em cima do sujeito, que subia em um cavalo e segui com ele para uma estrada de terra, tentando desesperadamente enforca-lo com um colar invisível - até que eu consegui! E foi nesta hora que eu te vi de novo, vindo atrás de mim com a tua amiga, e também a cavalo. Tu disseste alguma coisa bonita sobre o que eu fiz e me disse que ia me ajudar a desmascarar o sujeito.

Eu ouço melodias que toquei para uma mulher qualquer, sem nenhum escrúpulo, e acho que imagino o teu cantor favorito nelas. Eu discuto com pessoas que nunca vão te substituir e tento, sempre, não acordar dos sonhos que tenho contigo. Acho ainda que um dia eu enlouqueço, mas antes disso eu consigo te ver errar. Mas errar de verdade, não como no dia que te vi partir.

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Enganos.

Tento, por meio dessa língua, transformar os meus sentimentos em um texto bonito. Quem sabe eu consiga comover alguém, não seria a primeira vez. Sou o mais sincero para os outros, cuspo verdades a torto e a direita. Mas minto, varias vezes, para mim mesmo. Eu sei de absolutamente tudo que acontece comigo, de cada porque, de cada limite. Sei de tudo mesmo, das minhas fraquezas, das minhas qualidades, de como eu vou reagir a absolutamente qualquer coisa. Mas eu me engano, para tornar a vida mais interessante e para, quem sabe, não permitir que essa minha consciência arrogante interrompa a possibilidade de algo inusitado acontecer. Eu sabia, quando te vi naquele Fevereiro vagabundo, num café sofisticado, que tu eras minha. Eu sabia que eu era teu, que tinha findado a busca. Eu menti para mim mesmo, que não era tão claro, que não era tão fácil, pelo jogo da vida. Para continuar seguindo, sem risco de perder a graça. Mas a graça só aumenta. Foram meses sem retorno, meses fazendo o papel do caçador, e tu, o de ocupada - que tanto reprisas. Meses sabendo que aconteceria, e mentindo para mim mesmo, duvidando que sim. Read more

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Ode aos Amantes Bohemios.

Dias desses eu te contei sobre o quanto cada frase que tu me escreves me arrepia, e é sobre isso que eu deveria estar escrevendo agora - sobre esse arrepios, talvez sobre essas frases. Talvez eu devesse satisfazer as tuas dúvidas instintivas, sobre sexo, sobre o quanto eu te desejo - eu admito que poderia ser mais safado nas letras que te componho. Mas tem uma música me ecoando nos tímpanos, com uns acordes bonitos, que me fazem pensar em outra coisa em que também já conversamos, a rotina. Eu andei sonhando sobre algumas coisas que eu gostaria de ter e ser quando eu era garoto e eu acho que gostaria de falar contigo sobre elas. Eu assobio na rua canções de outras pessoas, e as vezes penso em ti - e quando estou no meu piano eu toco notas que me aparecem sem razão e que me fazem pensar que talvez tu sejas a pessoa mais indicada para assobia-las. Eu tento, sem sucesso, diminuir as coisas que eu tenho para te contar, bem baixinho, bem perto do teu ouvido rosado, com uma das mãos te acariciando o cabelo e a outra te puxando, de leve para mim, pelo teu pescoço branquíssimo. Mas é inútil e as vezes eu acho que ao tentar reduzir a quantidade de coisas que eu tenho para te mostrar acabo aumentando as perguntas que eu tenho para te fazer… Já te escrevi várias vezes sobre vários assuntos, e sempre tentei te trazer para mim. Ainda que eu saiba que, mesmo esquizofrênicamente, tu já és minha, eu não paro de te chamar. E quando tu puderes estar do meu lado toda manhã de domingo, fingindo que não há dia de semana e que Nutella não engorda, acordando de mansinho, aos poucos, com as pernas entre as minhas e a boca pertinho da minha nuca, eu vou me virar, de modo que os nossos narizes virem amantes e vou te contar uma história. Uma história que conta o quanto eu te quero todo dia da mesma forma e sempre de uma maneira diferente.

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De como um homem nos conformes virou uma bagunça.

Vejo e revejo fotos, poses, frases feitas, gírias da moda e leio o tempo todo a mesma coisa: ‘ama-me, aceita-me, eu faço qualquer coisa para isso!’ São todos sem exceção querendo ser quistos, como todo mundo - até quando se quer ser diferente. Se eu te digo agora que isso é um texto de amor, tu ficas perdida, confusa, pensando o que eu posso estar tramando com os meus dedos no teclado com acentos gráficos da língua que escrevo. São pessoas constantemente julgando as outras para que terceiras as julguem de acordo com o que todas, em uníssono, parecem dizer o tempo todo - que só há uma forma de felicidade. Talvez hajam vários caminhos, mas todos eles levam à mesma coisa, ao mesmo poder aquisitivo ideal, à mesma estrutura familiar, amigos, informações, opiniões, à mesma qualidade de sexo selvagem mas ao mesmo tempo careta, enfim, à uma série de caixinhas que todos tentam o tempo todo entrar. Eu sempre achei um privilégio enorme poder entrar nessas caixas e ainda assim não querer. Como quem despreza o ouro, jogando-o longe, no meio da lagoa, sabe? A gente acha que essas coisas são interessantes, sempre, mas uma hora vem um rolo compressor que lhe empurra para essas caixinhas por uma questão de sobrevivência. Se eu um dia achei graça em desprezar essas caixas, hoje eu vejo que eu nunca tive o privilégio da escolha. Nunca pude entrar, mas as minhas ilusões de grandeza certamente influenciadas pela minha leve esquizofrenia achavam que eu podia. Olha, eu sou homem, branco, hetero, bem nascido, sempre morei em bons bairros, com boa educação, sou saudável e inteligente. Com esse perfil eu já mataria 90% dos preconceitos idiotas que as pessoas têm. Não só me excluiria do alvo, como teria credenciais para ser o arqueiro não é? Mas eu teimei, e achei graça em confundir todo mundo. Até que eu fiquei confuso e comecei a acreditar em mim. Pois cada mês que se passa é como se o tal rolo compressor fosse rolando mais um milimetro, em câmera lenta. Eu sei que eu vou morrer sem entrar na caixinha, e agora estou vendo a minha vida passar nos meus olhos. E se há uma parte minha que entrou em alguma caixinha foi o meu amor por ti, e eu consigo ver o privilégio que é estar dentro dela.

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Talvez.

Talvez um dia eu volte e você seja minha para sempre. Talvez não. Mas a cada noite que você se cobrir antes de dormir, sentindo frio mesmo no alto verão, você vai lembrar, ainda que por um momento efêmero o quanto eu te quis. O quanto eu fiz para te provar que você é única. O quanto eu te dei pedindo tão pouco de volta. Talvez um dia deixe de doer, deixe de ser duro pensar o por quê do meu lado da cama estar sem você, mesmo frequentemente não estando vazio. Essa história que amor não mata tem de ser re-escrita. O que eu tenho por você matou toda e qualquer chance d’eu ser feliz sem o teu sorriso, e eu acho que talvez seja amor.

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