Charme

Charme não, quis dizer elegância. Elegância é agradecer os gestos dos outros, desejar bom dia mesmo aos carrancudos, e esperar a parceira gozar. Confunda elegância com viagens ao exterior que te dou um sopapo,  sem charme algum. Mas no rosto, olhando nos teus olhos, com hombridade. Não uma facada nas costas - muito deselegante. Elegância não é aceitar o comportamento sexual do outro, isso é educação - ou admiração velada. Também não é apertar a mão de quem agora acarinha quem já foi tua, isso é um sinal de que tu sabes que não és maior que o ciclo da vida, e de que prezas a civilidade. Elegância não é falar outras linguas, mas ser generoso e  autêntico em toda frase. Elegância é ir ao sono sabendo que todos à tua volta sabem quem tu amas e quem tu detestas, sem jogos, sem mentiras, sem necessidade de perdão. E dormir bem.

Over the top.

Outro dia acordei com uma sensação estranha. Acordei me sentindo mais sábio. Sem petulâncias, sem exageros. Acordei percebendo coisas, muitas coisas, de uma tacada só. Sobre a simplicidade de algumas eu confesso que me interessei mais. Sobre como as coisas são mais simples que aparentam. Acho que de todo, muito pouca coisa se salva. Muito pouca coisa merece preocupação. Descobri que não vivo tanto no passado como eu achava, mas o utilizo como referência em tudo. Não há nada de errado nisso. Nada.

Há fatos que ocorreram em certas vidas que não devem ser comentados. Sobre estes eu tenho predileção, curto revisita-los na minha cabeça, como um esquizofrenico fofoqueiro. Encanto-me em recriar as estórias, as razões, os desfechos - e por muitas vezes minhas participações. Não há maior tabu que o da mentira, uma palavra carregada mas tão vital quanto a verdade. Sempre tive na mentira um aliado, e acredite, odeio mentir. Mesmo o fazendo, detesto. Mas eu vejo a mentira de uma forma mais versatil do que muitos - as vezes como entretenimento, as vezes como uma realidade alternativa. Eu soube a pouco a causa dos meus flertes inúmeros como moças de corpo estreito e moral larga. Não a causa - digo melhor assim - o porquê, desta busca tacitante. E assim que eu soube a razão essa volatilidade perdeu a graça. Assim como perdeu um pouco da graça ficar pensando como teria sido.

Sobre Nina Campos

Senão um simples playboy sem muita paciência para tecnologia, quem sou eu? Senão um mulherengo avesso à rotina, senão um hedonista. Não passo de mais um homem, diferente talvez por saber de suas fraquezas e forças, e por ter como alimentar seus simples hábitos. O dinheiro me fez viajar, me deu cultura e várias ressacas, por certo. Mas este não me deu mulheres, só facilitou o modo com que eu as trato. E eis que encontro alguem que não se anima com as minhas champanhas, com as minhas altas gorjetas ou com o meu chauffeur. Essa tal de Nina Campos não tem sentimentos. Ela não responde aos meus sinais, como todas as outras. É como um computador que não sei programar. Eis a verdade, Nina Campos é um robô.

Atmosfera

Não era para ser assim, mas sucumbi aos apelos dos teus, que me atazanaram aos montes pedindo que eu te escrevesse. Não houve nada, não houve culpa. Tu não és a responsável por nada, não causastes o fogo - acho que nem te aquecestes com ele. Eu achava inocentemente que isso era notório, mas ao que parece, a tua vida tem sido sufocada por duvidas e sentimentos inúteis como a culpa. Pois, eximas esse teu peito da dor pois de ti não guardo nada além de superficialidades. Para te ser sincero acho que toda a balbúrdia não teria sido, caso eu entrasse naquele bendito avião que me levaria para longe. Talvez esta carta seria diferente. Talvez de saudades minhas, talvez de alívio.

Sobre a futilidade e o exercício do ego.

O meu total desacordo com o ambiente em que vivo, onde falo uma língua para comprar pão e outra para ganhá-lo, é a causa desses atos tão contraditórios. Ou talvez a conseqüência. Este sítio é um exemplo da minha dissonância existencial, onde escrevo para ninguém e ainda assim decido gastar alguns milhares da moeda local para mantê-lo - e renova-lo. É como a frígida, feia, que teima em mandar o vestido de noiva para tinturaria todo ano, mesmo sabendo que nunca vai se casar. Ao menos meus textos não vieram de um brechó em liquidação por conta de um despejo. Acho também que a fantasia da coitada, a de um dia, quem sabe viver o que vê em novelas diurnas não pode ser comparado com a minha futilidade, minha vaidade estética. Ainda que eu imagine que talvez alguém me leia neste canto aqui, meu sonho nunca foi ser achado - mas sim, achar-me. Quem sabe algum dia desses uma doce leitora me escreva dizendo que me leu e que sabia o que eu estava falando, ou que me achou másculo, tendo somente essa papagaiada toda que pus para enfeitar as escritas como referência. Quem sabe. Mas essa nunca foi a idéia.

Haja forças, haja estímulo, devo eu aqui continuar a contar umas coisas que há muito me esqueci - ou ao menos o quis. Devo rasbicar coisas na minha cabeça e as digitar sem um backspace sequer, sem titubeio, como quem desabafa o discurso que ensaiou no espelho de um hotel barato. Eu devo acima de tudo, entre o fato e a lenda, publicar a mentira, a sujeira que a faria enrubescer, mas que adorna meu ego. Como este novo desenho.

Minha falta de ambição.

Você já deveria saber da minha falta de ambição. Aliás, me admira muito essa sua frase. Você já deveria saber que eu teimo em esquecer que existem outros, que eu criei um mundo só meu onde eu convido umas pessoas perdidas para me apreciarem. Uma piada interna que só eu acho graça mas que muitos riem. Eu acho que é uma questão de identidade, ás vezes. Acho que eu atraio perdidos pois eu mesmo não sei onde estou. Ou mesmo para onde vou. Eu te disse várias vezes que não queria falar sobre isso, mas você me provocou - então vamos lá. Não quero, não gosto. Obrigado mas não quero me submeter à escolha, à competição. Não é uma questão de orgulho, não mesmo. Não tenho medo de perder. Acho que o que eu temo é ganhar.

Forma e função.

Às vezes temos que dar ouvidos ao surreal. Nunca aos loucos, mas à loucura. Devemos ouvir menos aos nossos medos e mais aos nossos sonhos. Menos ao jornal e mais ao rádio. Menos aos pais e mais aos filhos. Às vezes devemos ouvir mais às criticas e menosprezar os elogios. Fazer o caminho mais longo, aceitar sem perguntar, mudar de idéia. Nem sempre, mas… às vezes, a teoria está errada.

Cabisbaixo.

Eu ando meio cabisbaixo. Não tenho muito estímulo para sorrir. Eu acho tudo chato, acho todos os pares de mãos mesquinhos e todas as almas corruptas. Vejo as coisas sob um ângulo sinistro, sobretudo às quintas-feiras quando percebo que mais uma semana está a acabar e com ela a tola expectativa de algo mudar. Não vejo mais graça em crianças, visto que não existe mais inocência, nem catarse. Não me animo em conquistas, sei o jogo, se o que vou conseguir, e sei como vão reagir a cada passo que já dei tantas vezes. Nem mesmo os pratos que aprendi a cozinhar ao Mar Mediterrâneo me fazem salivar. Mas as vezes, antes de dormir, o peito ressoa o coração palpitante, e me lembro de como eu quis ser feliz contigo.

Desculpas.

E eis que o dia chegou. Ela olhou para baixo, para o chão. Duas gotas do café quente no seu sapato estilo boneca, de couro endurecido, marrom. Ela prefereria a queimadura no peito do pé ao dano ao seu par de calçados favorito. Mas foi ao olhar para baixo, que ela percebeu tudo. Em um impeto quase que instintivo, ao ser esbarrada por mim, na cafeteria da biblioteca, ela se perguntou onde estava. Ela ensaiou olhar para mim, em um acesso de raiva, mas as gotas de café pulando a fizeram checar sua roupa. E olhando para o chão, em frações de um segundo, ela soube que era hora de agir, ou de desistir. Ela não é mais criança. Não há mais chances, ela não vai ‘crescer’ mais. O seu emprego temporário a mantem há 6 anos, e sua procura por um namorado anda, no mínimo, pouco eficiente - suas amigas já estão pensando em desquite. As gotas do café, escorregando pelo couro e tocando o chão sujo de concreto estão sincronizadas com uma única lágrima gorda que lhe escorrega pela face. Não vai haver outra chance - ela pensa - isso não é um rascunho. Essa é a minha vida. Nessa altura eu já estava no elevador, depois de pedir desculpas em vão.

De pequenino.

Sempre me parece nova, ainda que eu a tenha na minha cabeça pelos últimos 15 anos. Sempre fresca. Sempre interessante. Sempre me faz sorrir, querer cantar. Sempre. Sei o quanto isso é raro, sei o quanto vale. Eu a reservo, para os momentos de alta alegria, ou de raso humor, melancolia. Uso e abuso de mim e da minha inteligencia - ou melhor, da minha paciência - até o ponto em que acho que não mais aguentaria pensar nela. Mas esse ponto nunca chega, e assim eu sigo percebendo coisas novas na mesmíssima forma que me acompanha a tanto tempo. Nuances, detalhes, tons. De pequenino eu aprendi a notar o que passa desapercebido por muitos, e admito, sem modéstia, ser bom nisso. Eis que chega a hora em que eu a trago de volta a minha consciência e percebo - tem sido um sonho.