Subo ou desço

Não foi uma cerveja que tomei, ainda que importada. Não foi afeição à pessoa ou mesmo à idéia. Não mesmo. Foi o desespero. Ou melhor foi o medo, o pavor de não saber absolutamente nada do que aconteceria. Nada. A falta de uma bússola, fosse ela magnética ou ideológica. Eu não sabia o que eu queria, o que seria de mim e como seria o dia seguinte. Eu nem mesmo apostaria as parcas moedas que tinha no bolso que o sol nasceria em algumas horas. Eu não sabia, não sabia mesmo. E pensando bem, ainda não sei.

Zero negativo.

Eis que chega a era onde a arte perdeu a graça e o valor, onde tudo e todo mundo é genial, onde nada mais parece autentico ou mesmo genuíno. Quando o que parece interessar os outros é o místico… é o metafísico, o mágico. O que fascina é o impossível. Pois é nesse mundo que eu levanto da cama com parcas forças para tentar de novo. É nesse mundo que eu secretamente tento ser um herói de mim mesmo, ainda que parecendo um vilão nos olhos de alguns, e um tolo aos ouvidos de outros. Ou outras. A minha motivação deixou de ser tão romântica, não tento provar à vida que ela está certa, ou que o cigarro não mata. Não tento provar a mim que vale a pena nem que não vale. Só tento fazer com que pare de doer um pouquinho para que na próxima vez que eu me levantar eu me sinta menos ilógico.

Encomenda que chega no dia certo.

Eis o texto que me pediste. Não é uma carta de amor, mas encosta no sentimento, já que o sinto, ainda que de mansinho, por ti. Não é um texto que tenta mudar as coisas como elas são, como foram, ou como serão. Não é um texto sobre nós, mas sobre ti. És mais do que capaz de encher alguns livros, ainda mais essas poucas linhas, com essa tua coisa que chamam de personalidade. És, minha cara, única e bastante interessante. Nada de firulas, nada de efeitos especiais. Um sorriso e só. Mas por dentro essa história de querer ser feliz a qualquer custo, de querer o melhor e ao mesmo tempo de querer tão pouco. Essa força que titubeia, vez ou outra, mas que não finda. Sobre fatos mundanos, sobre amenidades, nada se fala, não é preciso. Mas das coisas que o cinismo mata, das coisas que valem a pena, das coisas que nos motivavam a todos quando éramos mais novos. Isto de se crer em sinais, em símbolos, em datas – ainda que conscientemente saibamos nós dois que estes não devem ser muito levados a sério. Aliás quando levar-se a sério, e quando não. São as verdades pessoais que ficam nas mesmas gavetas, no mesmo andar da loja de departamentos. São essas setas que me indicam o tamanho da delícia que é te conhecer, e ter te encontrado. E o quiça que o passado perdeu ou que o futuro espera é pequeno – e é para ser pequeno. É para ser irrelevante. O que vale é essa dinâmica estranha de se sentir em casa, de querer bem, de ser sempre parcial. O que vale é o hoje, os docinhos que abrem o apetite de uma vida um pouco nova um pouco velha. Um pouco mais perto e tão distante – não parece? Mas um passo na jornada eterna da felicidade. E é tudo isso que faz de ti única. Eu sou um espectador cúmplice, um advogado das motivações e um patrocinador das dúvidas e das certezas. Eu sou um privilegiado e tu és uma honra. Essa não é uma carta de amor. Essa é uma carta que mostra como um espelho devia se comportar na tua casa, aos teus olhos. Ainda que não todo dia, ao menos hoje, e sempre que tu precisares.

Sobre o mercado.

Enquanto outras tentavam falar o inglês comigo, você me disse oi em holandês. Meus truques, embustes e trapaças não me serviram muito bem – o dinheiro vem e vai fácil. Mas aprendi bastante, e te digo, é difícil alguém me impressionar. Pois o segredo de todo negócio é se diferenciar, se destacar. Ainda que no meu ramo, isso pode significar outra coisa. Ninguém me viu, ninguém me encontrou. Nunca viram meu rosto, a polícia nem mesmo tem fotos minhas disfarçado. Ninguém sabe se eu sou careca, alto, negro, mulher ou asiático. Eis que você me chama a atenção. Todas de scarpin, você de meias curtas brancas. Todas alisaram o cabelo, você o deixou ondulado. Todas vieram com muita sede ao pote, você veio de mansinho, meio tímida. Pois bem, eu não sei qual o seu negócio, mas você é muito boa nisso, e portanto não serve para mim.

Algo há de ceder

Pois se fui eu quem primeiro perdeu a paciência, foi ela quem perdeu a razão. Ela que levantou a voz diversas vezes sem motivo. Ela que não queria mais fazer sentido nos seus argumentos. Era a raiva de quem já havia sido tão requisitada, tão venerada e cobiçada, e agora não possuía ninguém ao seu lado. Eram seis da manha e ela pediu para que o garçom trouxesse seu bolo de aniversário. Estavam todos cansados – e eu, esgotado. Seis anos antes ela assoprara as velas em um grande estádio, com crianças, balões e fandangos. Agora éramos 9, muitos subalternos, que ali estavam por obrigação. Não seria constrangedor não fosse a sua própria decepção e seu olhar de descrença no que estava acontecendo. Ela percebeu que dali a coisa só pioraria e não parecia muito estimulada a continuar com aquilo. No dia seguinte, ligou dizendo que estava doente. Eu disse que sem ela não me valia a pena, que não contassem comigo. Isso não foi visto como um ato de fidelidade, por incrível que pareça. Foi visto como um ato de orgulho – como se eu quisesse, precisasse ou mesmo pudesse agir de tal forma. Na outra semana, assumidos os erros, nos vimos, numa casa com pouca mobilia mas com algumas garrafas de champanha doce. Dois dias depois ela se foi.

Licensed to be wrong.

Sobre o que eu fiz naquele carro ninguém perguntava. Todos me olhavam, com um misto de pena e curiosidade. Todos apertavam o meu ombro, depois de um rápido e constrangedor cumprimento – ás vezes eu acho que só eu percebo essas coisas. Eu havia deixado uns papeis em um envelope no porta-luvas e tudo o que eu queria era sair dali, pega-los e me mandar. Mas não era a hora, eu tinha que dar algumas explicações, cumprir tradições sociais a ter o meu ombro apertado por pessoas que eu não ligo muito. E aquele garoto de olhos claros que estava dormindo no sofá me deixava em paz. Lembrava o meu irmão, quando pequeno e me dava uma sensação de que eu estava na minha infância quando eu tinha a certeza de que tudo sempre ia se resolver. A certeza de que eu não pagaria o preço. A verdade é que eu não estava abalado. Nem preocupado. Sabia das conseqüências e sabia que não tinha como escapar.

Siga-me.

Eu mando fotos. Eu me exponho a toda hora. Eu digo o que penso, grito as vezes. Eu ligo. Eu escrevo em sitio da rede, mando mensagens eletrônicas e deixo recados em fóruns digitais. Mas acontece que eu não compartilho dessa egolatria generalizada que todos parecem ter. Eu queria muito que você entendesse que eu não faço isso por atenção. Eu não poso para as fotos que mando, mas são minhas afinal. Não sei se o que eu penso, ou escrevo, merece destaque – seja aqui ou em um texto de 140 letras. Eu não acho que as minhas raízes e minhas historias pessoas possam ser chamadas de conteúdo. Nada disso. Eu não quero ser amado por tantos, com seguidores e amigos virtuais. Eu espalho a minha alma por aí para ver se o graveto pega fogo. Eu me exibo sem orgulho, sem classe. Eu não procuro ser amado. O que eu queria mesmo era ser compreendido.

Débito

Comprou um celular novo e um vestidinho. Comprou um par de botas, uma carteira de couro tingido e meias longas que vão até o seu joelho arredondado. Comprou um livro importado com fotos de senhoras idosas fazendo sexo. Também uma biografia de um ícone gay dos anos 90. Ainda, antes de voltar para a casa, ela tomou um café meio amargo e uma água com gás no restaurante de um hotel de um designer famoso.
Chega enfim ao seu prédio, com um sorriso cansado, que evapora ao entrar no elevador e ver no espelho o próprio rosto. Entra no apartamento, larga as bolsas, sentando no sofá meio sem jeito. Respira por um segundo e pega o celular novo. Olha atentamente para a tela, e titubeia. Lembra do email que recebeu de manhã cedo. Ela quer ligar para alguém, mas não sabe quem. Ela anda pela agenda com os dedos, devagar, considerando cada nome, inclusive o de desafetos. Não há para quem ligar nesta tarde de quinta-feira e, num relance, olhando para todas as sacolas de compras jogadas pelo tapete da sala, Chrissie percebe que falhou.

Estragão.

Eu achava graça quando alguma pessoa querendo a minha aprovação, geralmente insegura, começa a me perguntar o que eu acho das coisas antes de emitir a própria opinião. Quando são homens, querem achar o que temos em comum. Quando mulheres, elas querem empatia pelo meio da critica, querem descobrir algo que detestamos juntos. Sempre sorri quando a conversa chegava nesse nível, depois da meia duzia de porradas que eu dava nos conceitos mais pessoais e solidos da vitima, fazendo-a se envergonhar das próprias palavras. Ai vem um silencio efemero, e logo depois o milagre. Cada frase que sai da boca da pessoa foi repensada 3 vezes, ensaiada na hesitação. Eu não acho mais graça nessa dança toda, mas ainda danço. Parte por costume, parte por uma moral esquisita – eu acho que estou prestando um serviço a criança, mostrando a ela que o mundo não é branco e preto, que as coisas não são bem como elas pensam. Que nada realmente importa. Pois bem. Depois de tanto tempo sendo esse professor poderoso, esse alvo de inveja, admiração e repulsa, eu descobri uma coisa. Não tem graça pular fases. Não tem graça aprender sobre a propria miseria em meia hora. Não tem graça não errar, não falar bobagem, não gastar o primeiro salário em algo inútil e caro achando que o mundo vai te olhar com mais interesse. Eu percebi que eu sou um estraga-prazeres.

Minha foto em anexo.

Olá,
não devia fazer isso mas estou te respondendo. Segue a foto pedida. Não foi tirada por um fotografo profissional, pois está devidamente enquadrada. Não aparento estar de bom-humor, mas ainda assim estou sorrindo. Não costumo mostrar-me em fotos como a maioria das pessoas. Não tento recriar uma situação de diversão, de convívio social. Não tiro fotos com copos na mão, alongando todos os músculos da face. Não tenho vontade de demonstrar num pedaço de papel o quão divertida foi a minha noite no bar, ou mesmo quantos amigos tenho. Segue esta mesma, que tirei na minha sala de banho, em um dia ensolarado – mas frio. Eu tinha acabado de receber a notícia que ela havia me deixado, mas não estava muito triste. O reflexo no espelho a direita é do entregador, da mercearia da esquina. Ele veio me deixar as várias garrafas de agua e vinho que comprei para o meu aniversário, que acabei não festejando aquele ano. Ele me teve a simpatia de tirar a foto. Peço-te que não a publique antes de consultar meu editor, por obséquio.