Enganos.

Tento, por meio dessa língua, transformar os meus sentimentos em um texto bonito. Quem sabe eu consiga comover alguém, não seria a primeira vez. Sou o mais sincero para os outros, cuspo verdades a torto e a direita. Mas minto, varias vezes, para mim mesmo. Eu sei de absolutamente tudo que acontece comigo, de cada porque, de cada limite. Sei de tudo mesmo, das minhas fraquezas, das minhas qualidades, de como eu vou reagir a absolutamente qualquer coisa. Mas eu me engano, para tornar a vida mais interessante e para, quem sabe, não permitir que essa minha consciência arrogante interrompa a possibilidade de algo inusitado acontecer. Eu sabia, quando te vi naquele Fevereiro vagabundo, num café sofisticado, que tu eras minha. Eu sabia que eu era teu, que tinha findado a busca. Eu menti para mim mesmo, que não era tão claro, que não era tão fácil, pelo jogo da vida. Para continuar seguindo, sem risco de perder a graça. Mas a graça só aumenta. Foram meses sem retorno, meses fazendo o papel do caçador, e tu, o de ocupada - que tanto reprisas. Meses sabendo que aconteceria, e mentindo para mim mesmo, duvidando que sim. Read more

Sem comentários.

Ode aos Amantes Bohemios.

Dias desses eu te contei sobre o quanto cada frase que tu me escreves me arrepia, e é sobre isso que eu deveria estar escrevendo agora - sobre esse arrepios, talvez sobre essas frases. Talvez eu devesse satisfazer as tuas dúvidas instintivas, sobre sexo, sobre o quanto eu te desejo - eu admito que poderia ser mais safado nas letras que te componho. Mas tem uma música me ecoando nos tímpanos, com uns acordes bonitos, que me fazem pensar em outra coisa em que também já conversamos, a rotina. Eu andei sonhando sobre algumas coisas que eu gostaria de ter e ser quando eu era garoto e eu acho que gostaria de falar contigo sobre elas. Eu assobio na rua canções de outras pessoas, e as vezes penso em ti - e quando estou no meu piano eu toco notas que me aparecem sem razão e que me fazem pensar que talvez tu sejas a pessoa mais indicada para assobia-las. Eu tento, sem sucesso, diminuir as coisas que eu tenho para te contar, bem baixinho, bem perto do teu ouvido rosado, com uma das mãos te acariciando o cabelo e a outra te puxando, de leve para mim, pelo teu pescoço branquíssimo. Mas é inútil e as vezes eu acho que ao tentar reduzir a quantidade de coisas que eu tenho para te mostrar acabo aumentando as perguntas que eu tenho para te fazer… Já te escrevi várias vezes sobre vários assuntos, e sempre tentei te trazer para mim. Ainda que eu saiba que, mesmo esquizofrênicamente, tu já és minha, eu não paro de te chamar. E quando tu puderes estar do meu lado toda manhã de domingo, fingindo que não há dia de semana e que Nutella não engorda, acordando de mansinho, aos poucos, com as pernas entre as minhas e a boca pertinho da minha nuca, eu vou me virar, de modo que os nossos narizes virem amantes e vou te contar uma história. Uma história que conta o quanto eu te quero todo dia da mesma forma e sempre de uma maneira diferente.

Sem comentários.

De como um homem nos conformes virou uma bagunça.

Vejo e revejo fotos, poses, frases feitas, gírias da moda e leio o tempo todo a mesma coisa: ‘ama-me, aceita-me, eu faço qualquer coisa para isso!’ São todos sem exceção querendo ser quistos, como todo mundo - até quando se quer ser diferente. Se eu te digo agora que isso é um texto de amor, tu ficas perdida, confusa, pensando o que eu posso estar tramando com os meus dedos no teclado com acentos gráficos da língua que escrevo. São pessoas constantemente julgando as outras para que terceiras as julguem de acordo com o que todas, em uníssono, parecem dizer o tempo todo - que só há uma forma de felicidade. Talvez hajam vários caminhos, mas todos eles levam à mesma coisa, ao mesmo poder aquisitivo ideal, à mesma estrutura familiar, amigos, informações, opiniões, à mesma qualidade de sexo selvagem mas ao mesmo tempo careta, enfim, à uma série de caixinhas que todos tentam o tempo todo entrar. Eu sempre achei um privilégio enorme poder entrar nessas caixas e ainda assim não querer. Como quem despreza o ouro, jogando-o longe, no meio da lagoa, sabe? A gente acha que essas coisas são interessantes, sempre, mas uma hora vem um rolo compressor que lhe empurra para essas caixinhas por uma questão de sobrevivência. Se eu um dia achei graça em desprezar essas caixas, hoje eu vejo que eu nunca tive o privilégio da escolha. Nunca pude entrar, mas as minhas ilusões de grandeza certamente influenciadas pela minha leve esquizofrenia achavam que eu podia. Olha, eu sou homem, branco, hetero, bem nascido, sempre morei em bons bairros, com boa educação, sou saudável e inteligente. Com esse perfil eu já mataria 90% dos preconceitos idiotas que as pessoas têm. Não só me excluiria do alvo, como teria credenciais para ser o arqueiro não é? Mas eu teimei, e achei graça em confundir todo mundo. Até que eu fiquei confuso e comecei a acreditar em mim. Pois cada mês que se passa é como se o tal rolo compressor fosse rolando mais um milimetro, em câmera lenta. Eu sei que eu vou morrer sem entrar na caixinha, e agora estou vendo a minha vida passar nos meus olhos. E se há uma parte minha que entrou em alguma caixinha foi o meu amor por ti, e eu consigo ver o privilégio que é estar dentro dela.

Sem comentários.

Talvez.

Talvez um dia eu volte e você seja minha para sempre. Talvez não. Mas a cada noite que você se cobrir antes de dormir, sentindo frio mesmo no alto verão, você vai lembrar, ainda que por um momento efêmero o quanto eu te quis. O quanto eu fiz para te provar que você é única. O quanto eu te dei pedindo tão pouco de volta. Talvez um dia deixe de doer, deixe de ser duro pensar o por quê do meu lado da cama estar sem você, mesmo frequentemente não estando vazio. Essa história que amor não mata tem de ser re-escrita. O que eu tenho por você matou toda e qualquer chance d’eu ser feliz sem o teu sorriso, e eu acho que talvez seja amor.

Sem comentários.

Idiota em Polonês é Idiota

Os idiotas sentam em cafés na cidade com meia finas e cigarros franceses, falam sobre mitos americanos, sobre férias imaginárias e sobre a superficialidade. Falam sobre a vida rotineira, a vida tola - trabalhar, pagar contas, voltar para a casa. Olham com superioridade os outros que passam na rua e gargalham de amores dos outros, gargalham ferozmente dos outros. Os idiotas sabem melhor que ninguem. Eles sabem que promessas não custam nada, pois não valem nada. Sabem que a distância mata, que tudo no fundo não passa de sexo, de dinheiro e de segurança - ainda que disfarçada de auto-confiança. Os idiotas falam de casos como o nosso como quem ensina a fazer torradas. Os idiotas recriam e revivem casos como o nosso como profissão e às vezes sentem um pouco de falta de viver algo assim. Mas só ás vezes, e, te juro, a vontade passa rápido. Não é inveja, é curiosidade. Os idiotas sabem que no fundo, no fundo mesmo, o amor não existe.

Sem comentários.

Sempre minha.

São todos os dias que passei sem saber o que é ter o teu carinho que me dizem todo segundo que tu és a única mulher para mim. São todas as outras que já tive, amontoadas em um canto do meu sotão, sem utilidade, sem graça nenhuma, sabendo que não serão revisitadas – nem mesmo na noite que eu te perder. São todas as lágrimas que me fizestes chorar quando pouco me amavas, ou quando pouco me mostravas. São todas as noites que te tive, em sonho ou nos meus braços, sempre em gozo, sempre únicas, sempre minha. São todas essas coisas, pequenas ou não, que me fazem morrer aos poucos cada vez que sinto que te perdi.

Sem comentários.

Mezzo conto.

Ela desceu as escadas com pressa, não estava se sentindo bem. A cada novo lance, as luzes do andar acendiam-se automaticamente e era cada vez mais difícil segurar o choro. Até que no segundo andar as luzes não acenderam, e ela se agarrou no corrimão. O pé esquerdo pisou em falso e o salto do scarpin agulha mezzo punto cedeu fazendo com que ela se agachasse, e ela desabou. Ela pensou em todas as estranhas coincidências que a vida nos mostra. E que por mais que se especule, por mais que se discuta, não são nada além de coincidências. Ela chorou pelo passado, chorou pelo presente e soluçou pelo futuro. Ela notou que pela primeira vez em anos estava sozinha em um lugar desconhecido, no escuro, mas sem medo. Nada poderia ser pior do que acabara de ver. Nada superaria o que sentira minutos antes, na ante-sala da CTI do hospital mais requisitado da cidade. Caro, moderno e com as luzes automáticas do segundo andar sem manutenção. Mas talvez as luzes estejam funcionando. Talvez elas não tenham ligado, justamente na hora em que bancar a moça adulta já não dava mais, por pura coincidência.

Sem comentários.

Só uma coisa importa.

Eu acho o seguinte. O sujeito tem 40 e poucos anos, e conseguiu tudo na vida. Ele tem um excelente emprego, onde faz pouco, manda muito e ganha bem. É respeitado. Aprendeu sobre vinhos, viajou pela Ásia, leu os melhores livros. Tem dinheiro para se vestir muito bem, o mesmo dinheiro que comprou as revistas que aprimoraram o seu gosto. Comprou um carro importado e mora no melhor condomínio, do melhor bairro, da melhor cidade. Ele conseguiu ser o melhor, ter o que há de melhor, de mais fino. Divorciou-se, emagreceu. Malha, corre e come nos melhores restaurantes. Acontece que, ultimamente, carrega nos braços para lá e para cá um mulher que não bate com o que eu descrevi. Não faz sentido. É bonita, uma beleza comum, mas é bonita. Tem um corpo invejável, apesar de cobri-lo com parcas peças, e de qualidade baixa. Cabelo grande, liso, com dois ou três tons alourados. Não tem muito o que dizer, não viajou, não leu. E é isso, acabou. Não tem mais o que se falar. A pergunta que fica é para que esse sujeito procurou sofisticação em tudo na sua vida, menos na pessoa que devia compartilhar isso com ele…

Sem comentários.

Boca suja.

Todo dia a minha falta de orgulho e de decência leva-me à caixa de correio, numa esperança tola de receber uma carta tua. Ao invés de vibrar de felicidade, caso houvesse, lá dentro, algo vindo de ti, acho que seria terrível. Taciturno, saio da cama, não importa com quem dividida, e vou a porta, antes mesmo de esvaziar minha bexiga que tanto sofre com o excesso de cerveja que me faz dormir. Não emito um som, nada, e abro, todos os dias, a caixa com o mesmo cuidado e respeito que uma mãe coruja troca as fraldas de seu primeiro filho. Não me contento com uma olhadela, olho com curiosidade, como se alguma coisa pudesse se esconder num recipiente tão minúsculo. Minha leitura diária não permite emoções, e acho que esse é o motivo da minha eterna espera. E tu já me destes alguma coisa, pois a falta que tu me fazes é sem dúvida meu maior bem. Seja o que for que tu venhas a me enviar, uma carta escrita pela tua mão delicada ou um telegrama feito numa máquina moderna, um cartão, uma nota…  seja o que for, não há demônio na terra que me faça imune ao seu conteúdo, e é essa certeza que me faz, todo dia, afogar o meu orgulho a noite, e abrir uma caixa de metal sujo pela manhã.

Sem comentários.

A pessoa é para o que nasce.

Eu percebi no meio da coisa toda, mas tem gente só percebendo agora. Não adianta o passado, o diploma, os contatos. Não adianta o berço. Nada disto traz para ti o bom-senso que precisas. Nada disto faz de ti competente, pois competencia não é saber o que fazer, é fazer. Não adianta trocar de ideia todo o tempo, tentar o impossivel. Adianta fazer. E eu fiz. Tu… tu não consegues decidir nem o nome do teu filho, e tivestes nove meses para tal. Tu não consegues executar nada, nem consegues mandar, pois quando se cumpre o pedido o prato já mudou, o apetite mudou. Tu não serves para isso. Aprenda, nada adiantou tudo até agora pois a tua miopia é gigante.

Sem comentários.

« Previous PageNext Page »