A vida é uma eterna sucessão de disapontamentos para quem tenta me mudar.

É essa a camisa, é esse o par de meias. É alto, o som da minha voz, o som da sala, o som da cidade, da rua. É largo o meu peito, são todos meus, todas minhas, mas eu só sou teu. Não me oponho a absolutamente nada que não se oponha aos meus habitos viciantes. Não sou oportunista, mas as vezes oportuno, e sempre, mas sempre importuno quem é pequeno. Não sou desonesto nem com o dinheiro dos outros nem com o que acredito - mas roubo corações sem pensar duas vezes. Sou assim, sou espaçoso pois os meus precisam de conforto. Sou o vilão, sou o que fala, sou o que pensa, sou o que aponta mas não sou o que julga. São esses os meios, são estas as letras. Sou eu.

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Sinfonia para Maio.

Acordo tarde após uma noite inteira em frente a tevê, passando de canal em canal e só parando para ver comerciais que me seduzem a comprar coisas que não preciso. Lavo o rosto mas o gosto amargo da minha boca não sai nem com listerine. Sinto a tua falta e vou ao piano. É assim que eu sei lutar, assim que eu fui treinado. Meu dedo pesado cai numa tecla que boceja uma nota… mas me soa muda - deve ser dó, que não sinto desde que tu me deixaste assim. Sou forte e continuo, pensando no quando eu quero quebrar todas as regras contigo. São três os dedos agora, não consigo mais que isso, não uso sétimas. É um acorde de esperança, um acorde assertivo. O começo de uma harmonia que me emociona, e que me identifica. É a trilha sonora da teu rosto insone, amassado, me olhando cheia de graça de longe, no fim da primavera mais longa da minha vida, no aeroporto mais sem-graça de Londres. São notas que, acho, com um violão e uma voz sorturna, podiam, quem sabe, me fazer sentir o tempo passar mais rápido.

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Essa é para quando você se esquecer de mim.

Essa é para quando você se esquecer de mim, assim mesmo, bem simples, bem popular, como em uma canção que toca na rádio. Bem coloquial, diferente de como tenho escrito desde que eu descobri para que serviu a biblioteca que meu pai me deixou de herança - devidamente lida, por puro ócio e inadequação adolescente e infantil. Esse texto é para quando eu estiver longe por tempo suficiente para que você tenha esquecido do quanto eu tentei te agradar, te amar e te comover. Aliás te fazer sorrir. Acho que se eu tive alguma importância na tua, perdão, na sua vida foi ter tentado insistentemente e muito eficientemente ter te feito rir (não consigo escrever uma carta de amor na terceira pessoa, apesar disso estou tentando - desculpe os erros). Ter te lembrado todos os dias o quanto você é mais importante que você achava que era - para mim e para o mundo. Ter te mostrado o quanto uma convivência, perfeita como a nossa, era possível, sem brigas ou discussões, sem perdas de tempo.

Essa é para quando você estiver com outro. Alguém que te faça rir, alguem que te faça feliz. Essa é para que você lembre o quanto eu te quis, para que você saiba o quanto foi amada. Essa é para quando você quiser se lembrar quem foi que te mostrou o quanto você vale, e que talvez tenha te perdido por isso. Por pura pobreza.

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Festa a fantasia.

Torno a escrever sobre ti, sem medo de ser desmascarado como fraude artística que sou. Tenho uma fantasia secreta contigo e pretendo, em breve, realiza-la. Nada de cintas, velas, ou praias exóticas. Nada de George Michael, Barry White ou Sade. Sou eu chegando de longe, cansado e ansioso. Carrego uma mochila e puxo uma mala na mão esquerda. Eu te vejo e o meu ímpeto é de gritar, mas me seguro e tu logo meu notas, com teus olhos perfeitos. Eu caminho devagar e deixo a mala escapar dos meus dedos. Tu titubeias, mas vens também, acelerando o passo. Eu continuo firme, pisando forte e chego até você. De novo, me seguro, e não falo nada. Tu entendes e te calas. Minha mão, quente e vermelha por segurar a mala te puxa pelo rosto e antes de mais nada eu te olho bem pertinho nos olhos. É a hora que os dois percebem que não há palavras. Beijo.

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Carta ao morador do 303.

Paul,

sabendo da sua falta de paciência tentarei ser breve. Não gosto de a coisa ter chegado neste nível, onde tenho que escrever diretamente à você para explicar que há de errado na sua vida. Sei que a minha felicidade, meus inúmeros amigos e minhas noites de sexo - que envolvem mulheres jovens, bem dispostas e bem amadas - têm tirado um pouco o seu sono. Não pelo barulho, como ousa culpar, bem alto, bravejando aos quatro ventos - pela janela, digo. Acho que é o que eu tenho que te incomoda. Sua vida não poderia estar pior, eu vejo pelos seus constantes porres nada divertidos, em bares locais. Você está ficando menos e menos vaidoso meu caro, você anda fedendo, tente cuidar disso. Quando você grita a noite, incomodando quase todo o bairro, e virando piada entre os aposentados como você, eu vejo o quanto a sua dor é grande. Acho que era a hora de pensar o que te fez perseguir essa vida que lhe faz tão infeliz. Esse casamento de fachada, ou melhor, essa masculinidade de fachada, essa familia apertada em um quarto-sala para que você possa dizer aos que te bolinavam na escola militar que mora perto da praia. Essa tremenda disposição para ser uma pessoa amarga só pode vir de uma insatisfação eterna e interna não? Entenda, não que me incomode o fato de você fazer uma verdadeira algazarra porque eu te mostro um modelo de vida que você nunca ousou perseguir, o que me incomoda é o quanto uma criatura tão miserável me mostra o quanto eu sou feliz.

Eu não devia ler as notícias na dor dos outros.

Pete

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Sinapse.

Com cuidado corto com um pequeno alicate o elástico do meu porta-moedas, para que consiga esconder a tal foto. Não tem nada demais, eu sei, mas não quero que policiais a encontrem, e percam o respeito comigo na entrada de um novo país. Também não quero perder a foto. Dobro as meias que tu me destes e um isqueiro, que deixaste na mesa do bar na noite que eu te conheci, cuja devolução nunca acontecida usei tantas vezes como desculpa para te ver. Foram nove meses de pura alegria, e pura hipocrisia. Tal qual o ciclo reprodutivo, nossa paixão começou e acabou. Talvez a natureza tenha um plano, mas ainda não descobri qual é. Talvez eu conisga descobrir o que me faz acordar todo dia olhando para esta foto e não mais para os teus olhos. Read more

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Orçamento.

Eu fumarei até morrer, eu pularei sempre que achar que a distância é maior que a abertura das minhas pernas e que assim me machucarei. Eu comerei até doer o estômago, eu vomitarei em todos os símbolos que tenho como preciosos, e talvez nos teus também. Eu magoarei aqueles que acordaram de bom humor e talvez ainda faça algo indigesto e de muito mau gosto. Eu escreverei errado e rirei de quem me corrige, e de quem me ignora. Eu viverei quebrando toda e qualquer relação cultural que eu tenha com o meio, e assim provando a mim mesmo que estas referências são eternas e não se desprendem de mim. Eu vou me prostituir, eu vou ser promíscuo. Eu vou encantar pessoas que nunca foram encantadas, vou matar, vou roubar. Vou trapacear. Eu vou te esquecer.

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Para Natália Lage.

Eu roubei o clima de uma outra cidade para fingir que ficava a vontade contigo, mas sempre que estava ao teu lado segurava uma certa ansiedade entre cada palavra que eu dizia. Não sabia que ela estava morta, não sabia de nada. Nunca me passou pela cabeça que ela pudesse ter sobrevivido, mas ainda assim, não sabia que estava morta. Éramos três, bebendo água fervida e ouvindo sinfonias de discos grossos, gravados em 45 rpm, numa vitrola que só tocava em 33 1/3. Achávamos tudo muito soturno, e por anos apreciamos Schubert tocado vagarosamente e 6 semi-tons abaixo da partitura, sem saber que estava errado. Soaria estranho agora mas na época nos era muito familiar e agradável. Eu, tu e ela, três heterossexuais apaixonadas uma pela outra. Três damas modernas que nunca souberam o que era regra, e ainda assim, nunca fizeram nada de errado. Eu te amava e era louca por ela. Tu me usavas mas só mentia para ela. E ela ficava ali a nos observar sem julgamentos e sem restrições. Eu te beijava, as vezes, e vivíamos como ninfas. Ao mesmo tempo masturbava-me com formas fálicas e pensava em um futuro e saudável romance com alguém que tivesse o que dizer. De novo, repito, não sabia que ela estava morta. E sabia que em nenhum lugar do mundo, em nenhuma cidade, com qualquer clima, haveria qualquer chance da minha inocência sobreviver, mas ainda não sabia que ela estava morta.

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Mais Possibilidades.

Eu poderia começar esse texto dizendo o quanto é difícil ser eu mesmo. Minhas dores, meus medos e meus desejos inatingíveis. Bobagem, discurso bonito para dizer o óbvio, que sou de carne e osso e que como todo mundo tenho sentimentos e vontades, ou o que o valha. Eu não peco sem vontade, eu não grito sem dor e não beijo sem paixão, ah isso não. Posso dizer também que não guardo rancores mas que desprezo gente mau-carater. Que me apaixono constantemente por coisas, ou frases, ou mesmo cores. Ontem me apaixonei pelo doirado do pão que comprei na padaria local. Colorações doiradas de acepipes que vão ao forno são figurinhas repetidas no meu álbum de paixões instantâneas. Posso confidenciar que não tenho muita paciência com homens e que a companhia de uma mulher, em qualquer circunstância, me agrada mais que a de um marmanjo. Prefiro ser atendido por mulheres, atender mulheres. Comprar de mulheres, vender para mulheres. Conversar com mulheres, discutir com mulheres. Prefiro mulheres, e ponto. E tu, sem dúvida és a minha favorita. Eu poderia começar esse texto dizendo o quanto eu gosto de ti. O quanto penso em ti, o quanto te desejo. Poderia mesmo.

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Melee.

Eu sei que você esperava mais de mim. Sei que não queria que eu me tornasse esse sujeito trapaceiro, que engana as pessoas ao seu bel prazer, que faz dos outros instrumentos para manter o seu hedonismo. Que traí, furta e frauda. Mas a sua ausência tem parte nisso. Não estou me justificando, nada disso. Cansei de culpar a maneira que o mundo me trata pelos meus desvios de conduta. Mas sei que se você ainda estivesse aqui eu não me tornaria esse guerreiro do dia-a-dia, o vilão sujo que batalha ferozmente nesta guerra que foi inventada por ele.

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