Para Natália Lage.

Eu roubei o clima de uma outra cidade para fingir que ficava a vontade contigo, mas sempre que estava ao teu lado segurava uma certa ansiedade entre cada palavra que eu dizia. Não sabia que ela estava morta, não sabia de nada. Nunca me passou pela cabeça que ela pudesse ter sobrevivido, mas ainda assim, não sabia que estava morta. Éramos três, bebendo água fervida e ouvindo sinfonias de discos grossos, gravados em 45 rpm, numa vitrola que só tocava em 33 1/3. Achávamos tudo muito soturno, e por anos apreciamos Schubert tocado vagarosamente e 6 semi-tons abaixo da partitura, sem saber que estava errado. Soaria estranho agora mas na época nos era muito familiar e agradável. Eu, tu e ela, três heterossexuais apaixonadas uma pela outra. Três damas modernas que nunca souberam o que era regra, e ainda assim, nunca fizeram nada de errado. Eu te amava e era louca por ela. Tu me usavas mas só mentia para ela. E ela ficava ali a nos observar sem julgamentos e sem restrições. Eu te beijava, as vezes, e vivíamos como ninfas. Ao mesmo tempo masturbava-me com formas fálicas e pensava em um futuro e saudável romance com alguém que tivesse o que dizer. De novo, repito, não sabia que ela estava morta. E sabia que em nenhum lugar do mundo, em nenhuma cidade, com qualquer clima, haveria qualquer chance da minha inocência sobreviver, mas ainda não sabia que ela estava morta.